Brasília (DF)
16 de setembro de 2026
A Folha de S.Paulo publicou editorial em que classifica Flávio Bolsonaro como inexperiente e herdeiro de uma visão golpista. O texto ganha peso porque pesquisas desta semana mostram empate técnico com Lula no segundo turno.
Sob o título “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”, o jornal — texto não assinado da série “O que a Folha pensa” — afirma que a escolha do senador pelo pai, Jair Bolsonaro, surpreendeu setores da direita que preferiam um nome com gestão executiva, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo.
Segundo a Folha, Flávio “não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência”. O ponto central, no entanto, não é só o currículo legislativo. É o projeto político do qual ele se apresenta como continuador.
O resumo da tese é que o desempenho eleitoral ampliou, em vez de encerrar, o debate sobre preparo, compromisso democrático e relações políticas do candidato do PL.
O editorial registra que, sem o entusiasmo do centrão, Flávio se tornou competitivo pela polarização. A afirmação encontra eco em levantamentos da semana.
A Quaest, divulgada na segunda-feira (14/set) para a Globo, mediu no segundo turno Flávio com 42% e Lula com 40%, empate técnico e primeira vantagem numérica do senador nesse confronto desde abril. A Indexa/Broadcast, na terça-feira (15/set), apontou Lula 43% e Flávio 42%. A CNT/MDA, no mesmo dia, deu vantagem maior ao presidente: 47,3% a 40%.
O Urbs Magna já mostrou que os mapas não coincidem. O editorial da Folha usa exatamente esse quadro para um recado: o empate não dissolve a dúvida; torna o escrutínio obrigatório. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro.
Qual herança política o jornal atribui ao candidato?
A Folha lembra que Jair Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado, enquanto o filho promete indultá-lo e mantém discurso de confronto institucional. O jornal também classifica como arriscada a “subserviência” a Donald Trump em tarifas, terras raras e mudança climática.
A formulação do próprio editorial é direta: não se trata de transferir ao filho crimes da família, e sim de perguntar “que compromisso efetivo com a democracia oferece uma candidatura que reivindica essa herança política”.
Há antecedente jornalístico nessa linha. Em julho, outro editorial da Folha, Flávio reedita mentira do pai sobre modelo de votação, criticou o senador por reunir diplomatas e repetir suspeitas sobre urnas. O Estadão já havia escrito, em 2025, que o golpismo “corre nas veias” da família, após entrevista em que Flávio condicionou o apoio paterno a indulto e à disposição de “brigar com o STF”.
Folha pede que se examine biografia de Flávio
O editorial lista três núcleos que, segundo o jornal, não autorizam condenação penal inédita, mas também não podem ser apagados da biografia.
Primeiro, a Medalha Tiradentes. Quando deputado estadual, Flávio concedeu a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio a um policial que estava preso sob acusação de homicídio e que, depois, seria apontado como integrante de milícia. Reportagens da Folha, da Veja e do Estadão identificaram o homenageado como Adriano Magalhães da Nóbrega, depois apontado como liderança do chamado Escritório do Crime.
Segundo, a investigação das “rachadinhas” no gabinete estadual, associada a Fabrício Queiroz.
Terceiro, o diálogo recente com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai — a cinebiografia Dark Horse. O Intercept Brasil revelou em 13 de maio as mensagens; g1, CNN Brasil e Estadão confirmaram o teor. Em setembro, a Polícia Federal passou a descrever o senador como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas, segundo a Folha e a CNN. O Urbs Magna acompanhou a Operação Make Up e a distinção entre o inquérito das emendas e o eixo Vorcaro.
O jornal escreve, de forma explícita, uma exigência de transparência eleitoral: a biografia entra no exame de quem pede o cargo mais alto da República. Relação com investigados, honraria a policial depois associado a milícia e captação junto a Vorcaro são fatos públicos; tipificação penal de cada um deles depende de processo, não de editorial.
O editorial opera em duas camadas. Na primeira, descreve um candidato sem passagem pelo Executivo. Na segunda, recusa a tese de que a polarização bastaria para normalizar um projeto que promete desfazer, por indulto, condenação do STF por tentativa de golpe.
Há um paralelo institucional útil ao eleitor brasileiro: o debate não é só de intenção de voto. É de limite constitucional. Quem reivindica a herança de 8 de janeiro e, ao mesmo tempo, se apresenta como fiador da estabilidade precisa explicar a contradição em público, com documentos e sem atalho de marketing.
A Folha fecha com uma exigência de método: antes de postular a Presidência, Flávio precisa demonstrar preparo e aceitar, sem ambiguidade, os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder.
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