Brasília (DF)
14 de setembro de 2026
O Financial Times publicou que uma rixa entre dois ministros jogou o Supremo Tribunal Federal em crise inédita, com potencial de pesar na eleição presidencial de outubro.
A leitura do jornal britânico parte do caso Banco Master e das tensões abertas entre Alexandre de Moraes e André Mendonça. O texto internacional chega no momento em que a Corte, que nos últimos anos ocupou o centro da defesa institucional após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, passa a ser ela mesma objeto de suspeita pública.
O que o Financial Times publicou?
Segundo o Financial Times, a briga interna se agravou depois da divulgação de supostos vínculos entre o suspeito de comandar uma fraude bancária multimilionária e Moraes, o ministro que no ano passado conduziu o julgamento que levou o ex-presidente de extrema direita à prisão.
O jornal situa Moraes no centro do escândalo de corrupção que se alastrou após o colapso de cerca de US$ 10 bilhões do Banco Master, liquidado em 2025. A tensão na Corte, escreve o FT, subiu em 1º de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo de relatório policial segundo o qual o dono do banco, Daniel Vorcaro, teria enviado mensagens a Moraes pedindo ajuda pouco antes da prisão, em novembro de 2025. O documento também relata encontros entre os dois.
Moraes reagiu com acusações de abuso de poder e de decisões motivadas politicamente contra Mendonça, relator da investigação do Master e indicado ao Supremo por Bolsonaro após ter sido ministro da Justiça. De acordo com o FT, Moraes e Mendonça não responderam a pedidos de comentário enviados por meio do STF.
Por que isso importa para a eleição de outubro?
A disputa de outubro opõe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro, filho de Jair. O cientista político Leandro Consentino, do Insper, em São Paulo, afirmou ao jornal britânico:
“Este é um escândalo de grande magnitude, que está causando uma crise institucional muito perigosa e prejudicial à democracia brasileira. É provável que seja um fator decisivo na eleição presidencial.”
Lula não foi acusado no caso Master, registra o FT. O jornal, contudo, observa que o episódio atinge um ponto sensível da trajetória do petista, que no passado chegou a ser preso por condenações depois anuladas.
Flávio, segundo o texto, tentou capitalizar o desgaste ao renovar o pedido de afastamento de Moraes, responsável pela condenação do pai. “Um voto em Lula é um voto em Moraes”, disse o senador a apoiadores na semana passada, de acordo com o FT.
O que o relatório atribui a Vorcaro e a Moraes?
Nas mensagens tornadas públicas por Mendonça, Vorcaro pergunta se deveria deixar o Brasil e pede que o destinatário interceda junto ao procurador-geral da República e ao diretor-geral da Polícia Federal. A equipe de perícia, segundo o FT, não recuperou respostas de Moraes. Dois dias depois das mensagens, Vorcaro foi preso no aeroporto internacional de São Paulo, a caminho de um jato particular para Dubai.
Moraes não comentou as mensagens, de acordo com o jornal. Pediu, porém, investigação contra Mendonça por abuso de autoridade, conduta irregular e apuração de determinadas pessoas “por razões pessoais e políticas”.
O FT lembra que Moraes já enfrentava questionamentos por um contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório da mulher, Viviane Barci de Moraes, e que o ministro já havia negado ter intercedido em favor do banco.
IMPORTANTE: O relatório da PF, conforme o próprio FT, reúne mensagens atribuídas a Vorcaro e registros de encontros. Não há, no texto britânico, resposta recuperada de Moraes. Vorcaro nega irregularidades e, até a publicação do jornal, não havia denúncia formal contra o banqueiro. Distinguir o que está documentado do que ainda é objeto de apuração é condição para não transformar suspeita em condenação antecipada.
Como Flávio Bolsonaro e a direita entram no enredo?
O senador também foi alcançado pelo caso. Em maio, veio a público que ele obteve milhões de dólares de Vorcaro para financiar um filme sobre o pai, que cumpre pena de 27 anos. Flávio sustenta que se tratou de patrocínio privado, sem ilícito, e tenta deslocar o foco.
Ainda assim, o FT registra que o candidato de 45 anos reduziu a diferença nas pesquisas e chegou a ficar praticamente empatado com Lula, de 80 anos, que busca o quarto mandato não consecutivo. A foto de campanha citada pelo jornal é creditada a Bruna Prado/AP.
A direita, segundo o texto, voltou a acusar Moraes de perseguir conservadores e restringir a liberdade de expressão. Setores da esquerda, na leitura do FT, acusam Mendonça de atos que favoreceriam Flávio, inclusive a autorização de investigação contra o filho de Lula por lobby indevido.
Consentino acrescentou ao jornal: “Há uma percepção entre o eleitorado brasileiro de que Alexandre de Moraes está, de alguma forma, alinhado com o campo governista.”
O que o caso Master representa para as instituições?
Investigadores, segundo o FT, avaliam que Vorcaro montou uma vasta rede de tráfico de influência no Legislativo, no Judiciário e no Executivo. A Corte, elogiada internacionalmente nos últimos anos por conter a tentativa de golpe após a derrota de Bolsonaro em 2022, tem a credibilidade atingida pelo episódio.
Bruno Brandão, diretor da Transparency International Brazil, segundo o FT: “O Banco Master é o maior escândalo bancário e financeiro da história brasileira, que deu origem ao maior escândalo judicial da história brasileira.”
A professora de direito constitucional Eloisa Machado, da Fundação Getulio Vargas, foi além: “Esta crise afeta a dinâmica do Estado democrático de direito brasileiro. É um ponto sem retorno.”
A análise, a partir do recorte do FT e do que já estava documentado na imprensa nacional desde 1º de setembro, é que o risco institucional não está apenas no desgaste de um ministro. Está na possibilidade de a mais alta Corte do país aparecer, em ano eleitoral, como arena de acerto de contas entre alas, e não como instância capaz de investigar com regra igual para todos.
O que acontece agora?
O presidente do STF, Edson Fachin, passou a intervir na crise nas semanas seguintes à quebra de sigilo, com medidas para conter o conflito entre ministros e ampliar a publicidade de peças que não comprometam diligências em curso, conforme registros da imprensa brasileira e agências internacionais. O Urbs Magna já acompanhou a escalada entre o pedido de investigação de Moraes contra Mendonça e a reação da Presidência da Corte.
O calendário eleitoral comprime o tempo. O primeiro turno está marcado para 4 de outubro. Cada novo documento, cada nova fala de campanha e cada decisão do plenário tende a ser lida menos como peça jurídica e mais como movimento de campanha.
FAQ Rápido
O Financial Times acusou formalmente Alexandre de Moraes?
Não. O jornal relata o conteúdo de um relatório policial tornado público por André Mendonça, as acusações cruzadas entre os ministros e o efeito político do episódio. Não apresenta sentença nem denúncia formal contra Moraes.
Daniel Vorcaro já foi denunciado?
Segundo o FT, até a publicação de domingo (13/set) não havia denúncia formal. Vorcaro foi preso em novembro de 2025, nega irregularidades e permanece no centro da apuração.
Por que o caso atinge a campanha de Lula se ele não é réu no Master?
O jornal avalia o efeito simbólico: parte do eleitorado associa Moraes ao campo governista, e Flávio Bolsonaro transforma essa percepção em slogan de campanha. O petista, além disso, carrega o histórico de condenações depois anuladas, ponto que o FT menciona como vulnerabilidade política, não como acusação nova no Master.
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