Brasília (DF)
18 de setembro de 2026
O Datafolha divulgado na quinta-feira (17/set) deixou Lula e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados a 17 dias do primeiro turno. A pergunta que as duas campanhas passam a fazer ao eleitor é uma só: dá para encerrar a disputa em 4 de outubro?
No cenário estimulado de primeiro turno, Lula (PT) tem 39% e Flávio Bolsonaro (PL) tem 36%, segundo o levantamento encomendado pela Folha de S. Paulo e pela Globo, registrado no TSE sob o código BR-04029/2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais. A diferença de três pontos cabe nessa faixa.
Augusto Cury (Avante) aparece com 6%; Ronaldo Caiado (PSD), com 4%; Renan Santos (Missão), com 3%; Romeu Zema (Novo), com 2%. Brancos, nulos e “nenhum” somam 6%. Indecisos, 3%.
Na simulação de segundo turno, Lula tem 46% e Flávio, 44% — outro empate técnico. Na rejeição, os dois marcam 47% cada um.
Há uma semana, o estadista já tinha 39% e o senador, 35%. Flávio ganhou um ponto. A distância entre eles é a menor da série desde maio, quando o Datafolha registrava dez pontos.
Flávio Bolsonaro pode vencer Lula no primeiro turno?
Pela regra constitucional, vence no primeiro turno quem obtém a maioria absoluta dos votos válidos — mais da metade dos votos dados a candidatos, excluídos brancos e nulos. Não basta liderar a pesquisa estimulada.
Na conta de válidos do próprio Datafolha, Lula tem 43% e Flávio, 39%. Os demais somam 16%. Nenhum dos dois atravessa hoje a linha dos 50% mais um.
A resposta factual, portanto, é esta: sim, é matematicamente possível; não, não é o que a pesquisa mede neste momento. O senador só fecharia a eleição em 4 de outubro se capturasse, de uma só vez, fatia relevante do eleitorado de Cury, Caiado, Renan e Zema — o bloco de 15% que a Folha descreveu como alvo do voto útil — e se Lula não crescesse na reta final.
Empate técnico significa que a diferença de três pontos está dentro da margem de dois pontos. Votos válidos de 43% a 39% também não configuram vitória no primeiro turno. Transferência de voto é hipótese de campanha, não fato consumado.
Por que as duas campanhas gritam “voto útil” agora?
Flávio Bolsonaro fez o apelo em transmissão nas redes, conforme a Folha: “Eu quero fazer um apelo aqui aos brasileiros que não me têm como primeira opção para presidente da República, que preferem votar em outro candidato. […] Considere votar em Flávio Bolsonaro já no primeiro turno para a gente resolver essa parada logo no primeiro turno.”
Mensagens de WhatsApp da campanha repetiam “Vamos resolver no 1º turno”. No Instagram, o recado era “Não deixe para o 2º turno o que você pode fazer no 1º.”
Do outro lado, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), afirmou: “Mesmo diante de uma semana turbulenta, seguimos firmes, na liderança, com esperança e disposição para continuar avançando por um Brasil com mais oportunidades, dignidade e justiça social.” E acrescentou, na mesma cobertura da Folha: “É hora de ampliar nossa mobilização nas redes e nas ruas, fortalecer nossa caminhada e trabalhar para derrotar o bolsonarismo ainda no primeiro turno.”
O coordenador da campanha em São Paulo, Marco Aurélio de Carvalho, foi além da conta eleitoral e atacou o adversário: “Flávio não tem estatura moral, competência para presidir o país e consegue ser mais bandido do que o pai.” A frase é declaração de campanha, não sentença judicial.
O secretário de Comunicação Éden Valadares leu estabilidade com ressalva: “O Datafolha mostra um cenário congelado e de enorme estabilidade. Mas com o presidente Lula liderando todos os cenários.” Ele citou 21% de indecisos no cenário espontâneo e mais de 40% dispostos a mudar o voto.
O voto útil, neste ponto do calendário, funciona menos como argumento programático e mais como compressão do mapa: a direita tenta impedir segundo turno; o petismo tenta sepultar o bolsonarismo antes do 4 de outubro. Os dois movimentos esbarram na mesma rejeição de 47%.
Mas se Lula 3 entregou tanta política social, por que a reeleição apertou?
O terceiro mandato restaurou o Bolsa Família em 2023 e manteve a política de valorização do salário mínimo — eixo que o próprio presidente defendeu na quinta-feira (17/set): “Vamos continuar mantendo Bolsa Família, sonhando para que um dia não precise mais dele.”
Ainda ontem, o governo anunciou reajuste de 15,04% no programa. O piso sobe de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio, de R$ 675 para R$ 777, com pagamentos a partir de 19 de outubro. O Ministério do Planejamento estimou impacto de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22,7 bilhões em 2027. A proposta orçamentária enviada em agosto não previa o aumento.
Entre beneficiários, o Datafolha medido em grande parte antes do anúncio dá a Lula 53% e a Flávio 28% no primeiro turno, segundo o g1. Entre quem não recebe o benefício, o senador tem 37% e o presidente, 36%.
Ainda assim, o mesmo instituto mostrou o governo reprovado por 50% e aprovado por 48%. Avaliação “ruim ou péssimo” ficou em 42%; “bom ou ótimo”, em 34%, de acordo com o Valor.
Há, portanto, um descompasso que a campanha petista precisa enfrentar com números, não com slogan: a base social do programa responde ao presidente; a avaliação geral do governo permanece dividida. Preços de alimentos, desgaste institucional e a associação oposicionista entre o Planalto e a crise do STF — explorada por Flávio no horário eleitoral, segundo o g1 — explicam parte da estagnação em 39%, mesmo com o petista à frente em válidos.
A análise registra o ponto sem inflar o adjetivo: políticas de transferência de renda e formalização (como a proposta de elevar o teto do MEI, citada pela Folha na propaganda petista) sustentam um ativo eleitoral real. Esse ativo, porém, não se traduz automaticamente em 50% mais um dos válidos quando a rejeição empata e o noticiário institucional compete com o balcão social.
Os riscos um governo Flávio Bolsonaro
O plano protocolado no TSE, descrito pela CNN Brasil, prevê reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, punir adolescentes a partir de 14 anos em crimes graves e construir unidades federais de segurança máxima inspiradas no modelo de El Salvador, no capítulo chamado “Brasil sem Medo”.
Em Vitória da Conquista (Bahia), na quinta-feira (17/set), o candidato declarou “guerra ao narcoterrorismo” e disse que facções teriam “os dias contados”, segundo o g1. No mesmo discurso, afirmou que indicaria ministros “contra as drogas” e “contra o aborto” e que Alexandre de Moraes “não tem mais condições” de seguir no STF.
No Recife, na quarta-feira (16/set), falou em proteger a Corte de “laranjas podres” e em cinco indicações, conforme a CNN Brasil.
Esse desenho institucional — troca acelerada de composição do Supremo e reclassificação de organizações criminosas como terrorismo — desloca o debate da gestão cotidiana para o equilíbrio entre Poderes.
Ronaldo Caiado, adversário de ambos, chegou a dizer que a eleição de Lula ou de Flávio representaria “risco para a democracia” e listou contra o senador investigações de rachadinha, imóvel em Brasília, Dark Horse, loja da Kopenhagen e milícia, segundo o g1.
A lista de Caiado é ataque de campanha; o ponto verificável é a existência de inquéritos em curso.
No caso Dark Horse, o ministro André Mendonça autorizou inquérito para apurar, em tese, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, com recursos ligados a Daniel Vorcaro, do antigo Banco Master.
A Polícia Federal, segundo o Valor, descreveu o senador como “interlocutor direto” de Vorcaro. Investigação não é condenação. O ônus de transparência, contudo, acompanha o candidato até 4 de outubro.
O Urbs Magna já acompanhou o enredo do filme e da crise no Supremo em Dark Horse e no recorte do Financial Times sobre o racha no STF. Também registrou a divergência entre institutos em pesquisas eleitorais.
Sobre o Bolsa Família, Flávio disse que manterá o benefício, mas classificou o reajuste como “ato de desespero” e “falsa promessa da picanha”, conforme a Folha.
Depois dissociou-se da ação judicial de um aliado contra o aumento: “Não concordo com isso”, segundo o g1.
A oscilação entre crítica ao valor e defesa da continuidade do programa deixa em aberto o desenho social de um eventual governo.
O que acontece até 4 de outubro?
Faltam 17 dias. O Datafolha desta rodada foi o primeiro depois da sessão do STF sobre o caso Master e o ministro Alexandre de Moraes. Os números quase não se moveram. A estabilidade não cancela a volatilidade da reta final: 3% de indecisos no estimulado, 16% de válidos fora da dupla líder e rejeição simétrica.
Lula precisa converter avaliação social em voto adicional sem perder o centro que ainda hesita. Flávio precisa convencer eleitores de Cury e do centrão de direita de que o voto em terceiro colocado “se perde” — e fazer isso sem ampliar os 47% que já recusam o seu nome.
Quem pode vencer no 1º turno não se resolve no jingle “virou, virou” nem no decreto do Bolsa Família. Resolve-se na aritmética dos válidos e na disposição do eleitor de transformar preferência em maioria. Até lá, o primeiro turno continua aberto — e um segundo turno, no papel, continua o cenário mais compatível com os 43% a 39% de agora.
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