| Brasília (DF)
03 de setembro de 2026
A direita bolsonarista retomou a ofensiva pelo impeachment de Alexandre de Moraes depois que o STF tornou público, na terça-feira (01/set), o relatório da Polícia Federal sobre mensagens e encontros com Daniel Vorcaro. O material reabriu a disputa pelo Senado e pelos atos de 7 de setembro, enquanto aliados do ex-presidente tentam reduzir o peso político da oitiva do banqueiro no gabinete de André Mendonça, sem a presença da PF.
O que o relatório da PF colocou de volta no centro da campanha?
O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal das fraudes atribuídas ao Banco Master, retirou o sigilo de relatório da PF elaborado a partir do celular de Daniel Vorcaro, preso preventivamente desde março. O documento reúne mensagens, menções a encontros e registros financeiros que, segundo a corporação, ligam o banqueiro a um contato salvo como “Alexandre de Moraes Brasília”.
O G1 e a CNN Brasil destacaram a mensagem de 15 de novembro de 2025 em que Vorcaro pergunta: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Dois dias depois, em 17 de novembro de 2025, o banqueiro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, ao tentar embarcar em jato particular, na primeira fase da Operação Compliance Zero.
O mesmo material registra o trecho em que Vorcaro escreve ter “dívida de vida” com o ministro e agradece por “tudo”. A PF aponta ainda indícios de encontros ao longo de 2024 e 2025. O gabinete de Moraes, em manifestações anteriores, contestou a correspondência entre alguns números e o telefone do ministro. A perícia policial, no relatório agora público, sustenta que o destinatário das mensagens era o próprio magistrado.
Em paralelo, o Estadão mostrou mensagens de 2 de outubro de 2025 nas quais Vorcaro autoriza a emissão de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para dois filhos de Moraes, Giuliana e Alexandre Barci de Moraes. O escritório da esposa do ministro, a advogada Viviane Barci de Moraes, afirmou que os plásticos “jamais foram usados por qualquer advogado ou pessoa do escritório”.
IMPORTANTE: O relatório da PF descreve suspeitas, mensagens, contratos e encontros sob investigação. Ele não equivale, por si só, a condenação criminal de Alexandre de Moraes nem a abertura automática de impeachment. Quem decide se um pedido contra ministro do STF segue adiante é o presidente do Senado. Moraes segue no cargo enquanto não houver afastamento formal.
Como Flávio Bolsonaro e o bolsonarismo usaram o caso?
A reação política foi imediata. No plenário do Senado, na terça-feira (01/set), o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu que “o processo de impeachment de Moraes tem que ser imediatamente iniciado”, segundo o Valor. A Agência Senado registrou discursos semelhantes de parlamentares da oposição.
Na quarta-feira (02/set), em Esteio (Rio Grande do Sul), Flávio endureceu o ataque. Chamou Moraes de “laranja podre” e disse ser “inadmissível” que ele permaneça no Supremo. A declaração foi reproduzida pela Folha de S.Paulo, pelo G1 e pela CNN Brasil.
O senador Carlos Portinho (PL-RJ), candidato à reeleição, afirmou que o foco passou a ser pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a dar andamento ao impedimento. Ao SBT News, Portinho disse que Alcolumbre “será cobrado diariamente”. O JOTA calculou que Moraes já reúne dezenas de petições de impeachment na Casa.
O pastor Silas Malafaia aderiu à convocação dos atos de 7 de setembro com a palavra de ordem “Fora, Alexandre de Moraes”. Em vídeo de terça-feira (01/set), citado pelo site Amado Mundo, ele afirmou que o ministro “não tem condições de continuar como ministro do STF”.
A BBC News Brasil observou o que sustenta a pressa política: Moraes relatou a ação penal da tentativa de golpe de Estado que levou à condenação de Jair Bolsonaro. O alvo institucional e o alvo eleitoral se sobrepõem.
O que a oitiva de Vorcaro no gabinete de Mendonça muda no tabuleiro?
A coluna de Bela Megale no O Globo revelou, na quarta-feira (02/set), que Vorcaro não depôs apenas à PF na semana anterior. O banqueiro foi ouvido por juiz auxiliar do gabinete de Mendonça, com representante do Ministério Público Federal e sem agentes da PF que presidem o inquérito do Master.
O Metrópoles informou que a oitiva ocorreu na manhã de 27 de agosto, na Papudinha, em Brasília, e foi conduzida pelo juiz auxiliar João Azambuja. No dia seguinte, 28 de agosto, Vorcaro falou à PF por videoconferência.
Investigadores ouvidos pelo O Globo viram na ausência da polícia um sinal de possível nova tentativa de delação premiada conduzida direto no gabinete do relator. A coluna registrou que o nome do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, teria sido citado. O O Globo, em reportagem de Eduardo Gonçalves, acrescentou que Vorcaro disse ter interesse em delatar e que a cúpula da PF não queria ouvi-lo.
O gabinete de Mendonça divulgou nota reproduzida pelo G1 e pela Folha: o depoimento teria sido feito “por requerimento expresso da defesa”, após relato de “graves intimidações”. A nota afirma que a presença do Ministério Público é exigência legal e que normas do Conselho Nacional de Justiça autorizam o afastamento da equipe policial em oitivas motivadas por ameaça ao depoente. O gabinete disse ainda que Moraes “não foi tema” da audiência, cujo conteúdo permanece sob sigilo.
Flávio Bolsonaro tratou o episódio como “cortina de fumaça” e classificou o encontro de Mendonça com Vorcaro como “profissional”, segundo a CBN. A assimetria é o dado político: o mesmo campo que pede a queda imediata de Moraes descreve como rotina institucional a oitiva reservada do réu com o relator da causa.
Por que o Senado virou o palco desta ofensiva?
O cálculo é institucional. Só o Senado analisa o impedimento de ministro do STF. Alcolumbre, na terça-feira (01/set), disse a jornalistas, conforme a Agência Senado, que há “109 pedidos” contra ministros da Corte e que, sobre as mensagens, “não achei nada”. Na quarta-feira (02/set), segundo a Gazeta do Povo e a Veja, o presidente do Senado alfinetou a oposição ao lembrar que “pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme”.
A referência aponta para o financiamento de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Reportagens do Intercept Brasil, confirmadas por veículos como a Folha e o Valor, mostraram que Vorcaro repassou R$ 61 milhões de um pedido que chegou a R$ 134 milhões. A PF apura se parte desses recursos chegou a estruturas ligadas a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo nega ter recebido o dinheiro.
A ofensiva contra Moraes funciona, neste ponto da campanha, como tentativa de deslocar o centro de gravidade do Caso Master. O banco liquidado pelo Banco Central irrigou redes do Centrão e do bolsonarismo — do filme da família ao histórico de doações do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, a campanhas de Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas. Reduzir o escândalo a um único ministro apaga essa malha e transforma uma investigação de fraude bancária em dossiê eleitoral contra o relator da trama golpista.
O que acontece agora?
O relator Mendonça segue com o inquérito do Master. A PF mantém Vorcaro preso e colhe depoimentos. O Senado acumula petições sem pauta definida por Alcolumbre. Os atos de 7 de setembro devem repetir o slogan contra Moraes. A pergunta que permanece aberta é se a mesma régua aplicada ao ministro que condenou Bolsonaro valerá para os encontros, contratos e transferências que ligam Vorcaro a aliados da própria direita.
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Queiramos ou não, os casos do Moraes e do Mendonça são um lodo fecal a expor a sacanagem que acontece nas instituições brasileiras.