Brasília (DF)
01 de outubro de 2026
O humorista Antonio Tabet republicou, na noite de quarta-feira (30/set), a frase em que diz que a “família miliciana” atacou Nossa Senhora Aparecida. O texto voltou ao ar depois de o Tribunal Superior Eleitoral preservar aquela publicação específica, com fundamento em ambiguidade e liberdade de expressão, a poucos dias do primeiro turno.
A mensagem, outra vez sem nomear candidato, repete o enunciado de 24 de setembro: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”. No registro que acompanha a imagem da padroeira, Tabet escreveu que era a terceira vez que o post ia ao ar. “Na primeira vez, foi censurado quando tinha mais de 2 mil retweets. Depois, voltou e foi censurado mais uma vez com quase 30 mil retweets”, afirmou, segundo a CNN Brasil e o Metrópoles. E completou: “Agora, se Deus e a democracia quiserem, ela nunca mais sai daí. Recomeçamos do zero. Mas mostramos que vamos em frente. Sempre”.
O QUE O TSE DECIDIU NA QUARTA-FEIRA?
O plenário virtual do TSE examinou, numa sessão que a CNN descreveu como de 14 horas, a liminar do ministro André Mendonça, vice-presidente da Corte. Na manhã de quarta-feira (30/set), o relator ainda defendia a retirada de conteúdos que ligavam Flávio Bolsonaro (PL) à notícia falsa de que a santa perderia o título de padroeira do Brasil. Foram com ele, nessa linha, Kassio Nunes Marques e Dias Toffoli, conforme o UOL.
Por volta das 20h30, Mendonça ajustou o voto. Passou a preservar só a publicação de Antonio Pedro Osório Tabet, assimilando a divergência de Ricardo Villas Bôas Cueva. No texto citado pela Folha e pela Terra, o relator escreveu que, “diante da razoabilidade da compreensão de ambiguidade de seu conteúdo”, a solução mais compatível com a intervenção mínima e com a liberdade de expressão era manter o post. O ajuste, registrou, limita-se a essa publicação.
A manutenção do post de Tabet não transforma em fato a atribuição de que Flávio Bolsonaro teria proposto retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira. O próprio Mendonça reafirmou que continuam objetivamente falsas as afirmações, apresentadas como fato ocorrido ou em curso, de que o senador teria sido autor, proponente ou articulador concreto dessa iniciativa. Posts que façam essa associação direta seguem no alcance da ordem de remoção. O texto do humorista não cita o nome de Flávio nem de familiares.
COMO O CASO CHEGOU À TERCEIRA PUBLICAÇÃO?
O rumor ganhou corpo em 23 de setembro. Conteúdos nas redes passaram a ligar Flávio a uma suposta ofensiva contra o título da padroeira, em parte a partir de uma fala do próprio senador, em agosto, de que, eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A campanha negou a atribuição e apontou um projeto antigo, de outro autor e já arquivado, como origem da confusão. O Urbs Magna reconstituiu essa sequência em matéria de domingo (27/set).
Na quinta-feira, 24 de setembro, às 22h28, Tabet publicou a imagem da santa com a frase da “família miliciana”. Não havia nome de candidato. A defesa de Flávio informou mais de 195 mil visualizações, 2 mil compartilhamentos e cerca de 11 mil curtidas em poucas horas. Na sexta-feira (25/set), Mendonça atendeu a campanha, mandou retirar o post, vedou narrativa equivalente e fixou multa. A ordem alcançou mais de mil links, segundo a CNN.
No domingo (27/set), Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal, cassou a decisão a pedido do humorista. Para o ministro, não havia grau de certeza de ilicitude capaz de justificar restrição tão dura à liberdade de expressão e, no limite, à liberdade religiosa. Tabet republicou. Na segunda-feira (28/set), Luiz Fux suspendeu o despacho de Dino e devolveu eficácia às ordens eleitorais, episódio já registrado pelo Urbs Magna em texto sobre a suspensão. O plenário do TSE, na quarta, fechou o recorte: a frase ambígua fica; a desinformação nominalizada, não.
O QUE O BOLSONARISMO DISSE SOBRE A IGREJA NESTE EPISÓDIO?
Na mesma quarta-feira em que o TSE ajustava o voto, o blogueiro Allan dos Santos — grafia usada pelos veículos; foragido da Justiça brasileira e residente nos Estados Unidos — gravou vídeo com ofensas à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. O registro foi descrito pelo Lulaflix e também anunciado no perfil da Revista Fórum. A URL completa da matéria da Revista Fórum não foi isolada com segurança nesta apuração.
No vídeo, segundo a transcrição publicada pelo Lulaflix, Allan lê um texto de Dom Vicente de Paula Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, e endossa a frase antiga de Jair Bolsonaro: “O pai disse que a CNBB é parte podre da igreja católica e é mesmo”. Em seguida dirige insultos homofóbicos ao bispo e aos demais: “Esses bispos todos são um bando de viadinho, filhos da puta. Um por um deles”. A tela da transmissão, ainda segundo essa fonte, exibe mensagem que chama Dom Vicente de “cloaca de Satanás, mentiroso e maldito”.
O texto do bispo respondia à acusação de Flávio. Em carreata em Goiânia, no domingo (27/set), o candidato disse que o PT teria espalhado o boato “com a ajuda de gente de dentro da CNBB”, fala registrada pelo Urbs Magna na cobertura da nota de Jorge Messias. Dom Vicente reagiu no X com a invocação “Valei-nos, Mãe Aparecida”, segundo o O Globo. A CNBB, sem citar o senador, afirmou que atribuir à entidade “disseminação de desinformação” não contribui para a serenidade do processo eleitoral.
O padrão não começa nesta campanha. Coluna de Bernardo Mello Franco no O Globo informa que a Comissão Brasileira de Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O primeiro registro citado é o vídeo em que Jair Bolsonaro chamou a conferência e o Conselho Indigenista Missionário de “parte podre da Igreja”. O documento também menciona Eduardo Bolsonaro, Paulo Bilynskyj e influenciadores alinhados ao campo.
POR QUE ISSO IMPORTA A DIAS DO PRIMEIRO TURNO?
O título de padroeira é lei civil desde 1930 e atravessa governos de diferentes orientações. Transformá-lo em peça de campanha comprime, num único símbolo, disputa eleitoral, liberdade religiosa e o limite entre crítica e desinformação. Para o eleitorado católico, majoritário no país, a diferença entre uma sátira política e um ataque nominal à hierarquia da Igreja não é detalhe de retórica.
A análise aponta que o episódio expõe dois movimentos distintos, que não devem ser colados. De um lado, uma frase de humor político, sem nome de candidato, que a Justiça Eleitoral acabou por manter sob o critério da liberdade de expressão. De outro, ofensas diretas a bispos e à CNBB, com xingamento e teor homofóbico, vindas de um aliado histórico do clã que responde a processos no Brasil a partir dos Estados Unidos. A democracia eleitoral se mede também pela capacidade de separar crítica admitida de agressão a uma instituição religiosa.
O desdobramento imediato é operacional: plataformas devem manter o post de Tabet e continuar retirando conteúdos que apresentem como fato a autoria de Flávio numa proposta contra o título da padroeira. O que permanece em aberto é o efeito dessa controvérsia sobre o voto católico e sobre a relação do bolsonarismo com a Igreja, já tensionada desde 2018.
FAQ Rápido
O post de Tabet cita Flávio Bolsonaro?
Não. A frase fala em “família miliciana” e em ataque a Nossa Senhora Aparecida, sem nomear o senador ou parentes. Foi esse ponto que Mendonça usou para preservar a publicação.
O TSE considerou verdade que Flávio quer tirar o título da padroeira?
Não. A Corte manteve como falsas as afirmações de que ele teria proposto, apoiado ou articulado concretamente essa retirada. A liberação vale para o texto ambíguo de Tabet.
Quem é Allan dos Santos nesse episódio?
É o blogueiro bolsonarista residente nos Estados Unidos, tratado pela Justiça brasileira como foragido. No vídeo descrito pelo Lulaflix, xingou bispos da CNBB e Dom Vicente de Paula Ferreira.
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