Brasília (DF)
05 de outubro de 2026
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Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou nesta segunda-feira (5/out), em Brasília, a reunião de coordenação do segundo turno com um recado dirigido à Globo: “se preparem, porque nós vamos ganhar as eleições no segundo turno”.
A frase importa porque o estadista saiu do primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro e tenta transformar 20 dias de campanha em virada.
O encontro estava marcado para as 17h no Hotel San Marco, na Asa Sul, segundo o Correio Braziliense e o Metrópoles. Durante cerca de 19 minutos, por volta das 20h, Lula falou a ministros, governadores e candidatos ao Senado, eleitos ou derrotados.
Estavam presentes Dario Durigan, Luiz Marinho, Alexandre Silveira, José Guimarães, Edinho Silva, João Campos, Rafael Fonteles e Fernando Haddad, dentre outros.
O QUE O PRIMEIRO TURNO DEIXOU NA MESA?
Com a totalização divulgada pelos veículos a partir do Tribunal Superior Eleitoral, Flávio Bolsonaro (PL) teve 47,03% dos votos válidos, 56.104.503 votos. Lula ficou com 45,16%, 53.879.538 votos. A distância, de 1,87 ponto e cerca de 2,2 milhões de eleitores, é a menor de um primeiro turno presidencial desde 1989. O segundo turno será em 25 de outubro.
A abstenção chegou a 21,08%, com mais de 33 milhões de eleitores fora das urnas, recorde desde 1998, segundo a CBN. Na reunião, Lula falou em 30 milhões. Os dois números descrevem o mesmo fenômeno: um bloco maior do que a diferença entre os candidatos.
O QUE LULA DISSE AOS DERROTADOS?
O presidente abriu a fala pelos candidatos a senador, deputado federal e governador que não se elegeram. Repetiu um publicitário não nomeado: “Perder é ruim, mas se você perde e deixa uma marca, a derrota pode significar a vitória”. Pediu que não brigassem com o eleitor. Contou o caso de um vereador de São Bernardo do Campo que teria saído de caminhão de som para xingar o bairro onde perdera.
Lamentou a não eleição de Leila, a quem atribuiu mérito pelo trabalho no Senado, e citou a eleição de uma senadora no Mato Grosso do Sul, referida na transcrição como Lidiano. A grafia do nome não foi confirmada fora da transcrição. A CNN Brasil lista Cadu Xavier entre os candidatos que seguem para o segundo turno estadual; na reunião, Lula disse que quer ir ao Rio Grande do Norte ajudar o “Cadu do Lula”.
POR QUE ELE CITA 2006?
Lula lembrou o segundo turno de 2006 contra Geraldo Alckmin, hoje vice na chapa. Disse ter crescido 12 milhões de votos e que Alckmin teria perdido 4 milhões. O registro oficial registrado na ocasião pela Agência Câmara anotou 39,97 milhões para Alckmin no primeiro turno e 37,4 milhões no segundo, queda de cerca de 2,6 milhões. No segundo turno, Lula teve 58.295.042 votos, 60,83%, segundo o Senado. Estudo acadêmico da UFRGS calculou o crescimento do petista em 11,5 milhões. A direção do argumento confere; o número de Alckmin foi maior do que o arquivo mostra.
Ele também voltou a 1989, contra Fernando Collor de Mello: “eu só tive 17% dos votos do primeiro turno, para depois chegar a quase 47%”. Admitiu decepção. “Toda eleição eu fico decepcionado, porque todo mundo quer ganhar no primeiro turno.” No domingo (4/out), em São Paulo, já dissera à BBC News Brasil que esperava vencer na primeira etapa e que o segundo turno seria “a hora da prova dos nove”.
O QUE A PEC DA SEGURANÇA MUDA NO DISCURSO?
O trecho mais longo da reunião foi a segurança pública. Lula lembrou que a Constituição de 1988 entregou a responsabilidade aos estados, no contexto da saída dos militares dessa função. Disse que o estado sozinho não dá conta, descreveu o crime organizado como “indústria multinacional” e citou infiltração no Judiciário, em partidos e em clubes de futebol. Não apresentou, na fala, prova nova desses pontos.
O que anunciou como medida concreta foi a PEC que autoriza a União a participar da segurança, com papel definido. Afirmou que a Polícia Federal hoje é “fazendária” e só entra em crime federal. Usou o caso Marielle Franco: “se a Polícia Federal não entra, não tínhamos descoberto quem mandou matar a Marielle”. Disse que governadores nem sempre aceitam essa entrada, “principalmente se o governador tiver alguma relação com alguém do crime organizado”, e apontou o Rio de Janeiro como dificuldade.
Pediu pressa. “Nós não podemos esperar a posse do novo Senado pra gente votar, tem que ser agora.” Ligou a aprovação da PEC a um orçamento maior e disse que o dinheiro atual não atenderia nem o Piauí nem a Bahia sozinhos. Defendeu força nacional própria, não a soma de contingentes estaduais, e presença do Estado na comunidade: escola, saúde e polícia “por quadra, por vila, por bairro”. Criticou o pedágio cobrado pelo crime para o gás e para serviços públicos.
A análise é que a PEC funciona, nessa fala, como resposta ao tema em que a campanha se vê vulnerável. O texto não detalha o artigo da proposta nem o rito já pactuado com Davi Alcolumbre. O Metrópoles informou que o presidente do Senado pautou três sessões de discussão nesta semana e que José Guimarães pretende destravar a votação até quarta-feira (7/out).
O QUE ELE PROMETE MANTER — E O QUE DIZ QUE O ADVERSÁRIO CORTA?
Lula contrapôs o governo atual aos quatro anos anteriores. Disse que o PAC, planejado no governo de Dilma Rousseff, foi paralisado, e que policlínicas, hospitais universitários e o prazo de 30 dias entre diagnóstico e início do tratamento de câncer dependem de “vontade política”. Na economia, repetiu que o salário mínimo subiu acima da inflação nos seus mandatos, no de Dilma e agora, sem o surto inflacionário que críticos previam. A fala não trouxe índice nem série.
A frase de corte foi outra: “toda vez nesse país que se fala em dureza fiscal, o que está em jogo é a política de inclusão social. Não é tirar os benefícios dos ricos, é tirar os benefícios dos pobres.” Citou Bahia e Ceará como estados que governaram sem a experiência federal do PT, e Geraldo Alckmin e Rafael Fonteles como gestores que, na leitura dele, tiveram “sorte” de pegar seu governo.
COMO ELE TRATA STF, ABSTENÇÃO E A RUA?
O presidente classificou o adversário como “herdeiro do fascismo” e disse que o candidato que venceu “antissistema” “é a cara do sistema”. Afirmou que só a sua candidatura seria antissistema. É formulação de campanha, não classificação jurídica.
Sobre o Supremo Tribunal Federal, falou em “promiscuidade” depois de denúncias que não nomeou e em desconfiança da sociedade. Lembrou a reforma do Judiciário do primeiro mandato, com Márcio Thomaz Bastos e Nelson Jobim, e disse que o corporativismo dos conselhos impediu o resultado esperado. Defendeu discutir critério de indicação de ministro, mandato e papel da sociedade. Citou o futuro governador da Paraíba e um interlocutor chamado João. Lucas Ribeiro é o governador eleito na Paraíba e João Azevêdo o senador eleito.
Sobre quem não votou, recusou a tese de que a culpa seja só do adversário. “A responsabilidade é nossa, é devolver o interesse.” Não surgiu terceira via, disse, como não surgia quando o polo oposto era o PSDB.
Fechou o método: mais rádio, mais selfie, mais conversa, passeatas novas no Ceará, no Piauí, na Bahia e em São Paulo. Chamou a da Rua Augusta de “maravilhosa”. Elogiou Rui Costa e Camilo no palanque. Disse que o debate de televisão agora importa porque é “tete a tete”.
O recado final:
“Eu queria olhar para a Globo, mas eu não sei qual é a Globo, eu vou olhar para do Stucker.” Ricardo Stuckert é o fotógrafo oficial. Em seguida: “se preparem, porque nós vamos ganhar as eleições no segundo turno. Se preparem.”
O QUE ISSO MUDA PARA O BRASIL NAS PRÓXIMAS TRÊS SEMANAS?
A eleição de 25 de outubro decide o governo a partir de 2027 e o ambiente do novo Congresso. O PL elegeu 19 senadores e cinco governadores no primeiro turno, e ao menos 16 candidatos apoiados por Lula perderam no Senado, segundo a CBN. A PEC, se votada antes da posse da nova Mesa, depende de um Senado que já mudou de composição relativa.
Para o eleitor, o dado imediato é a abstenção. A diferença entre os dois cabe várias vezes no bloco que não compareceu. A campanha petista trata esse grupo como recuperável; nada no resultado de domingo (4/out) garante o sentido desse voto.
O discurso de Lula reorganiza derrota parcial como marca, segurança como PEC e política social, inclusão contra austeridade seletiva, e um adversário único no lugar da fragmentação do primeiro turno.
O teste é externo à reunião. Pesquisa anterior do próprio portal, como a Quaest e o cenário da Eurasia, já tratava o segundo turno como empate técnico.
O primeiro turno inverteu a expectativa de vitória de milhões de brasileiros, no domingo.
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