Brasília (DF)
29 de setembro de 2026
O diretor da Eurasia Group para as Américas, Christopher Garman, manteve em 55% a chance de Luiz Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial, mas descreveu uma disputa “meio a meio”. O dado importa porque a consultoria trata a reeleição como favoritismo leve, não como vitória antecipada, e aponta a abstenção como variável capaz de alterar o resultado.
O QUE A EURASIA DISSE NA SEGUNDA-FEIRA (28/SET)?
Em entrevista exclusiva ao Estadão/Broadcast, Garman afirmou que a consultoria preserva 55% de probabilidade para o presidente, depois de ter reduzido o número de 60% para 55% em avaliação anterior. Os modelos analíticos da casa, no entanto, já marcam 50% a 50%.
“Os nossos modelos de previsão eleitoral estão apontando 50% a 50% hoje. Como Eurasia, mantemos 55% de probabilidade a Lula, porque enxergamos esse peso um pouco maior para vantagem da incumbência e as fragilidades da própria campanha de Flávio Bolsonaro. Vemos dinâmicas da campanha à frente mais favoráveis a Lula”, disse o diretor ao jornal.
A diferença entre os dois números não é detalhe estatístico. Os modelos que pesam aprovação do governo puxam para Lula. Os que privilegiam segurança pública e corrupção puxam para o senador Flávio Bolsonaro (PL). Os que olham intenção de voto caem no empate. A leitura qualitativa da consultoria, não o modelo frio, é o que sustenta os 55%.
IMPORTANTE: Os 55% da Eurasia Group não são pesquisa de voto. São probabilidade atribuída por consultoria de risco político. O próprio Garman disse que a leitura fria dos modelos usados para calibrar a aposta aponta 50% a 50% e que “não há um favorito” nessa métrica.
POR QUE O VIÉS DE BAIXA FICOU MENOR?
Garman reconheceu viés de baixa sobre a estimativa de Lula, porém mais leve do que o registrado uma semana antes. Citou três movimentos recentes: a restrição das bets, o anúncio do Desenrola 3.0 e a fake news envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
“A soma de todas essas medidas anunciadas pelo governo e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida não são nenhuma bala de prata, mas reforçam a nossa premissa de que numa eleição empatada há vantagem ligeira para Lula pelo poder de incumbência”, afirmou.
Segundo a entrevista, o “sangramento” da campanha petista teria parado nos últimos dez dias: a aprovação deixou de cair e o segundo turno, que chegou a favorecer Flávio por cerca de um ponto na média das pesquisas, caminhava de novo para o empate. Lula, na leitura de Garman, recuperou um ponto percentual nas pesquisas divulgadas na segunda-feira (28/set).
A consultoria já havia elevado a probabilidade do petista de 55% para 60% em julho, quando a aprovação do governo voltou a superar 47%, segundo reportagens da época em Exame e Valor Econômico. A correção posterior para 55% acompanhou o desgaste do noticiário do Supremo Tribunal Federal.
O QUE A CRISE DO STF MUDOU NA CONTA ELEITORAL?
Garman classificou a crise do STF como o evento que “desequilibrou o jogo”. Na avaliação dele, Lula sofreu mais do que o adversário, o pessimismo do eleitorado aumentou e a aprovação presidencial caiu num período em que, historicamente, o ocupante do cargo tende a subir.
“A crise do Supremo Tribunal Federal foi um evento que desequilibrou o jogo. O presidente Lula e a campanha dele sofreram claramente mais”, disse.
O diretor afirmou que o maior fator da queda recente nas pesquisas foi o escândalo no Supremo, e não o quadro econômico, embora o endividamento das famílias e a confiança do consumidor também soprem contra o governo. O risco, para a Eurasia, é o noticiário de corrupção continuar no centro e atravessar um eventual segundo turno — terreno em que, segundo o próprio analista, Lula “não é crível”.
A campanha petista, ainda conforme a entrevista, começou “dispersa” e só agora tenta deslocar o debate para o que foi entregue e para uma narrativa de futuro. A campanha de Flávio Bolsonaro foi descrita como “a mais feliz” até aqui, com ênfase em segurança e custo de vida. A mesma análise, porém, insiste que o senador “ainda não foi plenamente testado” e que novas denúncias e ataques devem ganhar peso se houver segundo turno.
A ELEIÇÃO PODE ACABAR NO DOMINGO (4/OUT)?
Garman vê chance de definição no primeiro turno, mas baixa. Os candidatos alternativos somavam 12% e chegaram a 18%; a consultoria espera que recuem para cerca de 8%. Numa disputa equilibrada entre Lula e Flávio, esse residual torna improvável que alguém alcance 51% já no dia 4 de outubro.
O efeito do primeiro turno sobre o segundo, na leitura da Eurasia, depende da folga entre os dois e do tamanho dos votos alternativos. Uma vantagem de dois pontos de Lula, com 8% a 10% nos demais nomes, deixaria o petista ligeiramente à frente no segundo turno. Uma vantagem de apenas um ponto poderia inverter o sinal, conforme o perfil desse voto residual. As simulações de segundo turno, disse Garman, apontam empate técnico, de um ponto a zero.
POR QUE A ABSTENÇÃO VIROU O PONTO CEGO DA RETA FINAL
A pergunta que a entrevista deixa aberta não é só “quem lidera”. É quem chega à urna. Garman afirmou que as duas campanhas precisam mobilizar eleitores, num país em que o voto é obrigatório e as campanhas têm pouca tradição de “get out the vote”. A eleição de 2026, segundo ele, é marcada por desalento e decepção nas duas bases — cenário distinto de 2022, quando cada lado estava mobilizado.
O diretor acrescentou um dado histórico de comparação internacional e brasileira: abstenção alta costuma prejudicar a esquerda, porque quem falta à urna tende a ser mais idoso, de menor escolaridade ou de menor renda, perfil que em geral vota de forma mais progressista. Ao mesmo tempo, o desalento profundo deste ciclo poderia também reter eleitores da direita.
As pesquisas, na avaliação da Eurasia, capturam empate técnico, mas podem subestimar o voto da direita. Garman atribui o erro recorrente dos institutos menos à tese do “voto envergonhado” e mais a dois problemas: a calibração de quem de fato comparece e o “non-response bias”, o viés de quem aceita responder.
Sobre acusações de interferência dos Estados Unidos, o diretor disse achar difícil impacto prático relevante nesta eleição e avaliou como limitadas as ferramentas da Casa Branca para alterar o humor do eleitor brasileiro.
ANÁLISE
A análise deste portal, distinta da declaração da consultoria, lê o recado numérico de outra forma. Se os modelos frios já estão em 50% a 50%, o favoritismo de 55% só se realiza se a base de Lula for às urnas e se o eleitor que rejeita a volta de um governo da família Bolsonaro também comparecer. Garman não formulou o título desta matéria; formulou o diagnóstico de uma eleição empatada, com vantagem institucional leve para quem ocupa o Planalto e com risco explícito de abstenção seletiva.
Sob a ótica deste portal, o dado mais operacional da entrevista não é o meio ponto percentual da consultoria. É a advertência de que uma disputa polarizada, com bases desanimadas, se decide menos por conversão de voto e mais por presença física na seção eleitoral. Em eleição desse tipo, cada eleitor que fica em casa altera o empate que os modelos já descrevem.
FAQ Rápido
Os 55% da Eurasia significam que Lula ganha?
Não. São probabilidade da consultoria, não cédula. O próprio diretor disse que os modelos analíticos apontam 50% a 50% e que a eleição é “extremamente difícil de prever”.
O que mudou na última semana, segundo Garman?
A restrição das bets, o Desenrola 3.0 e a repercussão da fake news sobre Nossa Senhora Aparecida reduziram o peso do viés de baixa. A crise do STF segue como vento contrário.
A eleição deve terminar no primeiro turno?
A Eurasia vê chance baixa. Com candidatos alternativos ainda na casa de dois dígitos, a consultoria considera improvável que alguém chegue a 51% no dia 4 de outubro.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
