Brasília (DF)
25 de setembro de 2026
O Jornal Nacional apresentou na quinta-feira (24/set) o voo em que Flávio Bolsonaro voltou dos Estados Unidos num jato com cota da empresa de Daniel Vorcaro, depois de o senador ter dito que jamais havia embarcado em avião do ex-banqueiro. A reportagem importa porque o candidato do PL à Presidência tenta reduzir a relação com Vorcaro ao filme Dark Horse, enquanto a Polícia Federal examina dinheiro, mensagens e deslocamentos que atravessam o Banco Master e o esquema de descontos no INSS.
O QUE O JORNAL NACIONAL MOSTROU?
Segundo o telejornal, o Legacy 650 de prefixo PP-NLR decolou de Fort Lauderdale, na Flórida, no dia 19 de janeiro de 2025, às 10h21, horário local, e pousou em Brasília às 20h01. A bordo estavam Flávio, a mulher, as filhas e o advogado Willer Tomaz. A revista piauí publicou o cruzamento do voo na quarta-feira (23/set). A TV Globo obteve o registro de entrada e saída da alfândega americana: o senador entrou por Miami em 27 de dezembro de 2024 e deixou o país no dia do embarque.
A Agência Nacional de Aviação Civil registra a aeronave em nome da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. A propriedade era dividida em três cotas: uma de Willer Tomaz; outra de Laércio Cosentino, fundador da TOTVS; a terceira, que pertenceu a Gabriel Lacerda, da Unigel, foi vendida no fim de 2024 à Prime You, empresa da qual Vorcaro foi sócio de setembro de 2021 a setembro de 2025. A Prime You operava o jato. A assessoria de Lacerda confirmou à TV Globo a data da venda.
O mesmo prefixo transportou, em agosto de 2025, o ministro Alexandre de Moraes e a advogada Viviane Barci de Moraes, fato já documentado pelo O Globo.
Em uma publicação em suas redes sociais, o comunicador Bruno Guzzo® (@brunoguzzo) afirmou que o Jornal Nacional chamou Flávio Bolsonaro de mentiroso em rede nacional. Na mesma postagem, ele relatou que o telejornal expôs supostos esquemas do senador com o empresário Vorcaro, além de apontar ligações do parlamentar com os responsáveis pelo roubo dos aposentados do INSS, classificando o conteúdo da reportagem como “pesadíssimo”.
POR QUE A DECLARAÇÃO DE FLÁVIO ENTROU NO AR?
Em julho de 2026, Flávio descreveu o vínculo com o ex-controlador do Master nestes termos:
“A única relação que eu tenho com o Vorcaro é sobre o filme do meu pai. É a única. Vocês não vão me ver viajando para Londres, para os Estados Unidos, para Paris, para tudo quanto é lugar. Nunca entrei em avião de Vorcaro e nunca tive em festinha de astronauta de Vorcaro.”
A frase foi reproduzida pelo Jornal Nacional e pela CNN Brasil. Na quinta-feira (24/set), o candidato confirmou o uso do PP-NLR, mas atribuiu o avião a Willer:
“Ainda bem que na época o avião era do Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes.”
A BBC News Brasil registrou outra fala do senador a O Globo: “Na época, o avião era do Willer, eu tive zero contato com Vorcaro. […] Não sabia da cota da empresa (Prime You).”
A reportagem não afirma que Flávio era dono do jato nem que o voo, por si só, configura crime. O que os registros da ANAC, a piauí e o JN documentam é a composição societária da aeronave na data do deslocamento e o contraste com a frase de julho de 2026. Willer Tomaz não foi condenado no caso do INSS; figura como investigado. Após a Operação Greenfield, de 2017, foi absolvido, esclarecimento lido pelo próprio telejornal.
QUEM É WILLER TOMAZ E QUAL É O ELO COM O INSS?
Willer é amigo de Flávio e esteve no voo. Em nota lida pelo JN, o advogado disse que o trecho de janeiro de 2025 “não tem — e nunca teve — qualquer relação com Daniel Vorcaro”; que a cota é dele desde 2023; que o voo foi “solicitado, escalado e integralmente custeado” por ele, “carona entre amigos, sem custo, contrapartida ou benefício de parte a parte”; e que a venda da terceira cota à Prime You ocorreu sem sua anuência. Segundo a nota, ao tomar ciência em abril de 2026 ele denunciou o contrato. A CNN Brasil reproduziu o mesmo texto.
Em agosto de 2026, Willer foi alvo da Operação Sem Desconto, que apura descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS. A PF, segundo o JN, o descreve como responsável por um “hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados. Na operação, a polícia apreendeu quatro aviões de empresas ligadas a ele e uma máquina de contar dinheiro. A Folha de S.Paulo e a piauí mostraram ainda que Flávio usou, na campanha em São Paulo, apartamento que a empresa de Willer comprou de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.
O Urbs Magna já havia registrado o voo no jato ligado a Vorcaro e o aparecimento do telefone de Flávio no celular do banqueiro na CPMI do INSS.
O QUE AS MENSAGENS DA PF ACRESCENTAM?
No mesmo dia 24, o Estadão, o Valor e O Globo detalharam extração do celular de Vorcaro. A PF recuperou cerca de três meses de conversas — o senador apagava mensagens a cada 90 dias. Os registros apontam tentativas de contato nos quatro dias anteriores à prisão de 17 de novembro de 2025.
Em 13 de novembro, Flávio escreveu: “Fala mermao! Bom dia! Pode atender?” Houve chamadas não atendidas nos dias seguintes. Em 16 de novembro, um dia antes da prisão no aeroporto, o senador enviou: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” A frase já havia sido publicada em maio pelo Intercept Brasil, quando veio a público o pedido de recursos para Dark Horse.
A cronologia da PF, repercutida pelo G1, inclui encontro indicado em 20 de agosto de 2025 e áudio de 8 de setembro cobrando parcelas do filme, com menção ao ator Jim Caviezel e ao diretor Cyrus Nowrasteh. O Urbs Magna reuniu essas ligações na matéria Flávio tentou ligar para Vorcaro nos quatro dias antes da prisão.
COMO O FINANCIAMENTO DO FILME ENTRA NESSA HISTÓRIA?
O Intercept Brasil revelou em maio a negociação de até US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época) e o pagamento de ao menos US$ 10,6 milhões entre fevereiro e maio de 2025. A Piauí mostrou depois, com relato do Coaf, mais uma remessa de US$ 10,6 milhões entre fevereiro e maio de 2025. A Piauí mostrou depois, com relato do Coaf, mais uma remessa de US$ 1,66 milhão em 16 de setembro de 2025. Flávio passou a admitir o pedido de patrocínio privado e nega irregularidade. Desde julho, ele figura em inquérito da PF, autorizado pelo ministro André Mendonça, sobre o financiamento da obra, conforme o Jornal Nacional.
A análise aponta que o telejornal não criou o fato: organizou, em horário nobre, uma sequência já documentada — declaração restritiva, voo compartilhado, amigo investigado no INSS e cobranças ao banqueiro preso. Numa campanha presidencial, a pergunta que permanece é de prestação de contas, não de slogan.
O QUE ACONTECE AGORA?
Vorcaro segue no centro da Operação Compliance Zero. Flávio não foi denunciado pelo voo. A PF e o STF tratam em frentes separadas o Master, o filme e os descontos do INSS. O candidato ironiza a coincidência com o jato usado por Moraes. Os documentos da ANAC e as mensagens extraídas do celular não desaparecem com a ironia.
Atualização: novas informações poderão ser acrescentadas à medida que fontes confiáveis confirmarem novos desdobramentos.
FAQ Rápido
O Jornal Nacional disse que Flávio é dono do avião de Vorcaro?
Não. O telejornal mostrou que o PP-NLR pertence à Fraction 024, com uma das cotas da Prime You, da qual Vorcaro era sócio na data do voo.
Willer Tomaz foi condenado no escândalo do INSS?
Não há condenação relatada pelas fontes consultadas. Ele é investigado na Operação Sem Desconto. Foi absolvido na Greenfield.
Flávio admite o voo?
Sim. Na quinta-feira (24/set) confirmou o embarque e disse que o avião, na época, era de Willer. Nega ter sabido da cota de Vorcaro.
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