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Brasília (DF)
17 de setembro de 2026
O ministro Gilmar Mendes afirmou nesta quinta-feira (17/set) em suas redes sociais que o levantamento de sigilo no caso do Banco Master reproduz o método de vazamento seletivo que, segundo ele, Deltan Dallagnol e Sergio Moro usaram na Lava Jato.
A fala recoloca no centro da disputa no STF o direito de defesa e o calendário eleitoral de 2026.
O que Gilmar Mendes disse?
O decano do Supremo Tribunal Federal escreveu que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, “tem reputação ilibada e vida pública de lisura insuspeita” e teve “a honra injustamente manchada pelo levantamento do sigilo de conversas que nada de ilícito retratavam”.
O texto segue: “Já vimos esse filme. Na Lava Jato, Deltan Dallagnol e Sergio Moro transformaram vazamento seletivo em método. A ideia era sempre criar o fato consumado antes da ação penal, colher os dividendos políticos e deixar a defesa correndo atrás de um julgamento que a opinião pública já havia feito. Linchamento coletivo serve para esvaziar o direito de defesa e enterrar a presunção de inocência.”
Gilmar acrescentou: “E, como na Lava Jato, a hora nunca é ao acaso. Lá, sigilos caíam a poucas semanas das eleições. Aqui, o levantamento apareceu às vésperas do 7 de Setembro, para inflar as ruas, arrancar dividendos políticos, sujar reputações e intimidar quem se opõe a esse método.”
A publicação fecha com solidariedade a Gonet: “Instituição séria respeita o devido processo desde o primeiro ato.”
Por que o decano atacou André Mendonça?
Gilmar não nomeia André Mendonça em todos os trechos, mas descreve o “relator” do caso Master. Segundo o ministro, na terça-feira (15/set) o próprio relator “reconheceu, em alto e bom som, a lisura da conduta de Gonet e admitiu que nada havia contra ele”.
A pergunta que Gilmar formula é direta: “Então por que expor?”
O decano afirma ainda que a “intenção de lucrar politicamente” teria ficado “escancarada” quando o relator publicou vídeo nas redes “agradecendo o apoio popular”.
A frase mais dura do texto é esta: “Quem age assim não é magistrado imparcial: é boneco de campanha, um pixuleco eleitoral.”
A crítica se insere no embate aberto em plenário sobre o relatório da Polícia Federal no escândalo do Banco Master, no qual mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mencionam autoridades, entre elas Gonet.
Em um vídeo de Mendonça como mensagem de 28 segundos, o ministro agradece “orações e carinho”. Gilmar lê o mesmo gesto como campanha.
Qual é o fio com a Lava Jato?
A comparação não é nova na trajetória pública de Gilmar Mendes. Em 2019, após as mensagens da Vaza Jato publicadas pelo The Intercept Brasil, o ministro disse à revista Época que Moro era o “chefe da Lava Jato” e chamou Dallagnol de “bobinho”, conforme o UOL.
Anos depois, o mesmo ministro afirmou ter dito a Moro que ele e Dallagnol “roubavam galinhas juntos”, registro do Estadão em 2024.
Em decisões sobre a suspeição de Moro, Gilmar listou condutas que, a seu ver, antecipavam a opinião pública e enfraqueciam a defesa — tese retomada agora com outras palavras.
O portal Urbs Magna já registrou essa linha em matérias como a entrevista em que Gilmar cobrou autocrítica da imprensa sobre a Lava Jato e o processo em que o STF manteve Moro réu por calúnia contra o decano.
O levantamento de sigilo, o conteúdo das mensagens e a avaliação penal de cada citado permanecem sob apuração e julgamento no STF.
O que o episódio muda no caso Master?
O caso Master atravessa o STF há meses: quebras de sigilo, prisões de familiares de Daniel Vorcaro, troca de relatores e atrito aberto entre ministros. Em junho de 2026, Gilmar já falou em “tristes reminiscências” da Lava Jato ao discutir prisões cautelares no mesmo inquérito, segundo o Consultor Jurídico.
A sessão de terça-feira (15/set) agravou o clima. No bate-boca em com Mendonça, o decano Gilmar falou em “viés eleitoral” e Mendonça rebateu: “Aqui não tem choro.”
O texto desta quinta-feira (17/set) desloca o conflito do plenário para a rede social do próprio decano, no momento em que a Corte discute não só o banco falido, mas a reputação de ministros, da PGR e da própria Corte diante das eleições.
Quem pode ou não pode tratar o sigilo como palanque?
Gilmar responde com uma regra de processo: o reparo em plenário não desfaz a manchete. “Ninguém desfaz manchete com reparo tardio em plenário.” A formulação recupera um argumento clássico do direito penal democrático: a presunção de inocência se esvazia quando a exposição pública antecipa o juízo.
No fundo da nota, o ministro afirma que o alvo seria “o direito de defesa de pessoas contra as quais esses agentes nutrem algo que se parece muito mais com vingança do que com justiça”.
Paulo Gonet já havia dito em plenário, segundo o Correio Braziliense, que não há ilegalidade ligada à sua atuação. O inquérito do Master segue. A tensão entre as alas do STF também.
A pergunta que o texto de Gilmar deixa no ar é institucional: se o sigilo cai na véspera de uma data cívica e de um ciclo eleitoral, o processo ainda governa o espetáculo — ou o espetáculo já julgou o processo?
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