Brasília (DF)
02 de outubro de 2026
Na noite de quinta-feira (1/out), Míriam Leitão afirmou, na GloboNews, que Flávio Bolsonaro representa um risco à democracia. A declaração foi veiculada após o senador desistir do debate da Globo, resultando no cancelamento do programa, enquanto a sabatina de Lula no Flow atraiu um público significativamente maior do que a live do candidato do PL.
O recado importa a três dias do primeiro turno, marcado para domingo (4/out). O confronto televisionado entre os dois nomes à frente das pesquisas não aconteceu. O que restou foi uma análise ao vivo, duas transmissões paralelas e a disputa sobre o que o TSE de fato proibiu.
O QUE MÍRIAM LEITÃO DISSE NA GLOBONEWS?
O trecho é do Central das Eleições. O letreiro da emissora, às 22h45, dizia: Míriam: Lula e Flávio tinham coisas a explicar. Abaixo: Globo cancela debate presidencial do 1º turno após decisões judiciais.
Míriam Leitão diz que Flávio Bolsonaro tem de explicar por que nunca contestou o que o pai fez. “Pelo contrário, sempre exaltou. E o pai fez uma tentativa de golpe de Estado. A economia se reorganiza, mas a democracia não. Flávio Bolsonaro é um risco à democracia.”
Em 27 de setembro, no texto Falta uma carta nesta campanha, publicado em O Globo, Míriam Leitão escreveu que o senador “nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido”. E fechou: “Esse é o risco Flávio Bolsonaro.”
Em abril, na coluna A questão-chave é a democracia, também em O Globo, a formulação já era institucional: mesmo com um programa econômico dos sonhos, “ainda assim ele seria um perigo institucional”. O texto sobre o alerta da colunista foi registrado pelo Urbs Magna.
POR QUE A NOITE FOI DE REVÉS PARA O SENADOR?
Flávio Bolsonaro anunciou a desistência a menos de duas horas do debate, marcado para 21h30. No X, escreveu: “Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas.”
O senador disse que “a insegurança jurídica chegou ao seu ápice” e que a decisão “levou a uma censura”. Na live, conforme a Veja, afirmou: “Lula não vai aos debates e usa seus amigos no Judiciário para impor censura.”
Lula já havia avisado, na quarta-feira (30/set), que não iria ao estúdio. A estratégia se repetiu em debates da Band, do SBT e da Record neste primeiro turno. No lugar da Globo, o presidente recebeu Igor Coelho, o Igor 3K, no Palácio da Alvorada, a partir das 20h45.
A Globo cancelou o programa. Em nota reproduzida pela Veja, a emissora disse ter recebido duas notificações que interferiam nas regras previamente acordadas. A primeira, da ministra Estela Aranha, do TSE, a pedido da coligação Brasil Pronto para Mais (PT, PCdoB e Rede), suspendeu o item da cadeira vazia. A segunda, do ministro Gilmar Mendes, do STF, determinou a inclusão de Renan Santos (Missão).
O relato completo da desistência e da reação nas redes e a cadeira vazia está no Urbs Magna. A liminar de Estela Aranha não cancelou o debate, não obrigou Lula a ir ao estúdio e não proibiu crítica ao governo. O que suspendeu, nesta transmissão, foi a exibição destacada da cadeira vazia identificada e a dinâmica de perguntas dirigidas ao candidato ausente, sob pena de multa. A decisão é monocrática e cabe recurso. Chamar o conjunto de “censura” é a leitura de Flávio Bolsonaro, não o texto da liminar.
QUEM FICOU À FRENTE NA AUDIÊNCIA?
O acompanhamento do Notícias da TV mede a sabatina de Lula no Flow em 1,65 milhão de espectadores simultâneos no pico, média de 1,5 milhão e 1.608.627 no encerramento, às 22h48. Em 2022, o mesmo programa tinha parado em 1,087 milhão.
A live de Flávio Bolsonaro não tem, nas fontes consultadas, a mesma série ponto a ponto. O senador falou em cerca de 300 mil. A Veja registrou, às 22h40, 1.640.193 pessoas no Flow e 534.560 na transmissão do senador. Outro levantamento da noite chegou a citar 955 mil para o canal de Flávio. Os números oscilam e não significam que o público assistiu do início ao fim.
A conta sobre esse duelo, com a metodologia do Notícias da TV, também está no artigo sobre a audiência do Flow, do Urbs Magna.
No Alvorada, Lula disse acreditar em definição no primeiro turno: “Eu sinceramente acho que eu vou ganhar as eleições. Eleições no primeiro turno.” Sobre o adversário, falou em “uma pessoa desqualificada, como o Flávio Bolsonaro” e afirmou que “a única coisa que ele tem é o chamado anti-Lula”.
O QUE A COLUNA JÁ COBRAVA DE COMPROMISSO?
O paralelo de Míriam Leitão é com 2002. Naquele ano, cobrou-se de Lula um compromisso com as bases do Plano Real. Saiu a Carta aos Brasileiros. Agora, a colunista sustenta que a dúvida razoável mudou de eixo: não é só o programa econômico, é o passivo democrático.
Na coluna de setembro, ela lista relações do senador com integrantes de milícia, a investigação sobre dinheiro recebido do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a loja de chocolate com faturamento atípico e a compra da mansão em Brasília, cujo caminho, escreve, nunca ficou claro. O caso Vorcaro foi tratado em reportagem sobre a crise na direita, Urbs Magna.
O trecho mais duro remete à entrevista de Flávio Bolsonaro à Folha de S.Paulo, em junho de 2025. Ao falar de um indulto ao pai que o STF pudesse derrubar, o senador disse: “A gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre os Poderes.” Na mesma entrevista, afirmou que não falava “no tom de ameaça”, e sim numa “análise de cenário”.
A colunista lê essa frase como o núcleo do risco. O senador a apresenta como hipótese. As duas leituras estão públicas. O que não está é uma carta do candidato do PL nos termos exigidos de Lula em 2002.
O QUE ACONTECE AGORA?
O primeiro turno é domingo (4/out). Datafolha divulgado na quinta-feira (1/out) deu a Lula 42% e a Flávio Bolsonaro 38%, com os dois subindo dois pontos sobre o levantamento anterior. A distância segue curta. O eleitor que esperava ver os dois no mesmo estúdio não viu.
A liminar de Estela Aranha pode ir ao plenário do TSE. A ordem de Gilmar Mendes sobre Renan Santos também segue contestável. Nada disso recoloca o debate no ar antes do voto. Quem quiser comparar propostas depende de sabatinas separadas, do horário eleitoral e das redes.
A análise aponta que a noite concentrou três revés distintos para o senador: a peça da cadeira vazia caiu, o programa que ele havia confirmado foi cancelado depois da desistência, e a audiência da noite ficou com a sabatina de Lula. A frase de Míriam Leitão não decide eleição. Fixa, porém, o eixo que a colunista repete desde abril: o exame público da candidatura não se esgota em meta fiscal.
FAQ Rápido
Míriam Leitão disse que Flávio Bolsonaro é um risco à democracia?
Sim, na edição de quinta-feira (1/out) do Central das Eleições, na GloboNews, segundo a transcrição do clipe da emissora que circulou no X. A mesma tese já estava nas colunas de abril e de 27 de setembro em O Globo. Não há, nesta apuração, transcrição oficial da GloboNews.
O TSE censurou o debate da Globo?
Não é o que a liminar diz. Estela Aranha suspendeu, nesta transmissão, a cadeira vazia identificada e as perguntas dirigidas ao ausente. A crítica ao governo não foi proibida. Flávio Bolsonaro chama o episódio de censura. A Globo cancelou o programa alegando insegurança jurídica.
Quem teve mais audiência, Lula ou Flávio?
A sabatina de Lula no Flow chegou a 1,65 milhão de espectadores simultâneos, segundo o Notícias da TV. A live de Flávio foi medida, num recorte da Veja às 22h40, em 534.560. Outras contagens da noite divergem. Nenhuma fonte consultada inverte a liderança.
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