Brasília (DF)
05 de outubro de 2026
o
diretor da Quaest, Felipe Nunes, afirmou nesta segunda-feira (5/out) que Flávio Bolsonaro (PL) é o favorito do segundo turno porque, nas eleições presidenciais brasileiras, quem chegou à frente no primeiro turno nunca perdeu o Planalto. Para o pesquisador, Lula (PT) só teria caminho de virada se reconstruísse uma frente ampla que, em suas palavras, se desfigurou.
O diagnóstico foi dado em entrevista ao O Globo, um dia depois de o Tribunal Superior Eleitoral confirmar a liderança do senador. Com a apuração encerrada, Flávio Bolsonaro somou 47,03% dos votos válidos (56.104.503) e Lula, 45,16% (53.879.538), segundo a totalização registrada. A diferença ficou em torno de 2,2 milhões de votos. O segundo turno será em 25 de outubro.
O QUE FELIPE NUNES DISSE SOBRE O FAVORITISMO?
“Quem disputa o segundo turno na frente é favorito. Todos os candidatos que foram ao segundo turno na frente venceram a eleição. Flávio, claro, se torna favorito. Vai ser preciso ter uma campanha muito estratégica para Lula, a vantagem de Flávio é expressiva”, afirmou Nunes.
A reconstrução da frente ampla é condição para qualquer tentativa de reversão. A Reuters também registrou, na noite de domingo (4/out), que o senador encerrou a primeira etapa na liderança e passou a ser tratado como favorito, em leitura distinta da que os principais institutos projetavam na véspera.
IMPORTANTE: A afirmação de Felipe Nunes descreve um padrão histórico das eleições presidenciais brasileiras, não uma regra jurídica. O segundo turno continua em aberto até 25 de outubro. Liderar o primeiro turno não transfere mandato, não altera o quórum e não impede campanha, debates ou migração de voto.
POR QUE O VOTO ÚTIL MUDOU A RETA FINAL?
Nunes descreveu um movimento que, segundo ele, já era visível havia cerca de 15 dias. Candidaturas alternativas teriam funcionado como reservatório da direita até o eleitor perceber a falta de viabilidade e migrar.
“Caiado, Cury, Renan e Zema funcionaram como uma caixa d’água de votos, um reservatório da direita. Quando esse eleitor percebeu que as candidaturas não tinham viabilidade, fez o voto útil. O percentual deles sai de 16% para 8%. São os oito pontos que o Flávio cresceu na reta final”, disse.
O pesquisador acrescentou ter dito no sábado que, dado esse deslocamento, não se surpreenderia se Flávio aparecesse à frente de Lula. O resultado das urnas confirmou a inversão em relação às últimas rodadas estimuladas da própria Quaest, que ainda colocavam o presidente numericamente à frente no primeiro turno. O Urbs Magna já havia registrado essa distância nas pesquisas de setembro.
A FRENTE AMPLA DESFIGURADA
O ponto central da entrevista não é apenas o placar. É o eleitor que ficou de fora dos dois polos. Nunes retomou a tipologia do livro O Brasil no espelho e separou bolhas já alinhadas de grupos ainda disputáveis.
De um lado, progressistas, militância de esquerda e classes D e E. De outro, agro, conservadores cristãos, parte dos empresários e extrema direita. Em disputa, o liberal social e o empreendedor individual. Segundo o diretor da Quaest, o empreendedor individual que votou mais em Lula em 2022 está agora com Flávio, e parte dos liberais sociais se sentiu traída por um governo “menos de frente ampla do que eles imaginavam”.
“Lula vai ter que formar de novo uma frente ampla, que se desfigurou”, afirmou.
Os cerca de 8% obtidos pelas candidaturas eliminadas são, na leitura dele, um “percentual enorme” numa disputa apertada, mas de conquista difícil. Muitos desses eleitores rejeitam os dois nomes. A virada, se existir, dependeria também de reduzir a abstenção — historicamente mais alta entre eleitores mais velhos e mais pobres — e de vencer os debates. O peso da abstenção já havia sido tratado como variável decisiva em análise do Urbs Magna sobre urnas e segundo turno.
O QUE A ONDA DE DIREITA MUDA NO MAPA
Nunes trata o resultado como combinação de fator estrutural e fator conjuntural. No estrutural, a identidade de direita teria se calcificado. Em 2002, 25% dos eleitores não sabiam dizer se eram de esquerda, direita ou centro. Hoje, segundo ele, só 4% não se identificam. “O que cresceu nestes 20 anos foi a identidade de direita. O voto econômico explicava muito; o que explica agora são os valores”.
No conjuntural, o presidente apareceria como candidato de continuidade numa eleição de mudança: aprovação baixa, saldo negativo e dificuldade de produzir percepção de bem-estar. A campanha, na avaliação do pesquisador, concentrou esforço em manter a base lulista — forte no Nordeste e em centros urbanos de esquerda — e não em buscar o independente. “Essa escolha tem consequência”.
O Valor Econômico descreveu o mesmo domingo como uma onda de direita que também elegeu bancada expressiva do PL no Senado e governadores já no primeiro turno. O mercado, que em setembro já precificava vantagem do senador, reagiu na abertura desta segunda-feira (5/out). O Urbs Magna tinha registrado essa leitura.
O QUE ACONTECE AGORA?
Até 25 de outubro, a disputa se concentra em três frentes que o próprio Nunes elencou: recompor setores que se afastaram da frente de 2022, disputar o voto das candidaturas que saíram e mobilizar quem não foi à urna em domingo (4/out). Debates passam a ser o principal espaço de confronto direto.
Lula, após o resultado, disse que uma nova etapa começa nesta segunda-feira (5/out) e que a campanha vai mostrar diferenças de projeto. A frase não altera o diagnóstico do diretor da Quaest: a vantagem de quem lidera o primeiro turno é histórica, e a virada exigiria uma coalizão que, na leitura do pesquisador, hoje não está montada.
A análise aponta que o dado mais relevante para as próximas três semanas não é a frase sobre o Planalto, e sim o tamanho do eleitorado ainda não cristalizado. Oito por cento, numa diferença de dois pontos, cabem na margem que decide o segundo turno. Cabem também na rejeição cruzada. A democracia do segundo turno existe precisamente para que esse resto seja disputado — e não para que o primeiro placar seja tratado como posse antecipada.
FAQ Rápido
Quem liderou o primeiro turno de 2026?
Flávio Bolsonaro (PL), com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT), segundo a totalização do TSE.
Por que Felipe Nunes chama Flávio de favorito?
Porque, segundo o diretor da Quaest, todos os candidatos que foram ao segundo turno na frente venceram a eleição presidencial. A vantagem, disse ele, é expressiva e exige campanha estratégica do petista.
Lula pode reverter?
Nunes não descarta, mas condiciona a virada à reconstrução de uma frente ampla, à disputa dos cerca de 8% das candidaturas eliminadas e à redução da abstenção. Ele trata esse caminho como difícil.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
