📷 Um funcionário do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas organiza caixas contendo urnas eletrônicas durante os preparativos para testes em Manaus |8.7.2026| Foto: Michael Dantas/AFP/Getty Images | Manchete do jornal The Washington Post sobre o envio de autoridades dos EUA para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro |•| Arte Urbs Magna
| São Paulo (SP)
25 de julho de 2026
O governo de Donald Trump vai enviar dois diplomatas de alto escalão a Brasília com a missão de lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro antes da eleição presidencial de 4 de outubro.
Segundo a reportagem assinada por Marina Dias, Terrence McCoy e Samantha Schmidt, publicada nesta sexta-feira (24/jul) pelo Washington Post, a delegação do Departamento de Estado deve partir para a capital brasileira nos próximos dias.
Ela será formada por Riley M. Barnes, secretário assistente, e Samuel Samson, secretário assistente adjunto — ambos indicados políticos de Trump.
Segundo o jornal, Samson já percorreu países da África e da Europa promovendo a linha conservadora do presidente americano e cultivando laços com grupos de direita, o que por vezes o colocou em atrito com autoridades tradicionais desses países.
O Washington Post afirma não ter conseguido apurar com quem os diplomatas americanos pretendem se reunir, nem de que forma tentariam questionar um sistema eleitoral historicamente reconhecido como referência na América do Sul, capaz de apurar resultados poucas horas após o fechamento das urnas.
A reação do governo brasileiro
Dois diplomatas brasileiros de alto escalão disseram ao jornal americano, na quinta-feira (23/jul), que souberam recentemente do que classificaram como um “estratagema totalmente incompatível com a democracia brasileira” — nas palavras de um deles, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizado a se manifestar publicamente.
Segundo o Washington Post, esses diplomatas afirmaram que o governo brasileiro vai agir para proteger o sistema de votação e prometeram impedir a entrada dos enviados americanos no país.
Os brasileiros ouvidos pelo jornal suspeitam que o objetivo real da missão seja se reunir com céticos do sistema eletrônico de votação e produzir um relatório capaz de deslegitimar as urnas.
O jornal lembra que Samson já produziu, no passado, relatórios do Departamento de Estado sobre direitos humanos que críticos classificaram como enviesados politicamente.
Em nota ao Washington Post, o Departamento de Estado confirmou que Barnes e Samson viajarão a Brasília na semana que vem, mas não respondeu por que motivo, nem se o governo americano tem alguma preocupação concreta com a integridade do processo eleitoral brasileiro.
Nem Barnes nem Samson retornaram pedidos de comentário.
O contexto: de Bolsonaro à tarifa contra o Brasil
A missão, segundo o jornal, representa uma escalada em uma disputa já longa entre Estados Unidos e Brasil em torno dos limites da liberdade de expressão e do processo criminal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.
O Washington Post relembra que, nesta mesma semana, Trump impôs tarifas significativas sobre produtos brasileiros — medida que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como manobra política para favorecer seu adversário eleitoral, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente e aliado de Trump.
Um funcionário sênior do próprio Departamento de Estado, também ouvido sob anonimato pelo jornal, comparou a atual missão a um uso indevido do poder diplomático americano para fins ideológicos, contrastando-a com a postura dos Estados Unidos em 2022 — quando o governo americano trabalhou para reforçar a democracia brasileira e evitar uma ruptura institucional, incluindo declarações públicas do então secretário de Defesa Lloyd Austin em defesa do controle civil sobre as Forças Armadas, depois de Jair Bolsonaro afirmar que “o Exército está do nosso lado”.
Flávio Bolsonaro entra na história
O Washington Post também menciona que Flávio Bolsonaro, hoje atrás nas pesquisas eleitorais, repetiu nesta semana as alegações do pai em reunião com diplomatas, afirmando que as urnas brasileiras seriam fabricadas pela empresa venezuelana Smartmatic e vulneráveis a fraude — acusação já rebatida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tema que o Urbs Magna já havia coberto em artigos anteriores sobre o encontro do senador com embaixadores.
Especialistas internacionais consultados pelo próprio jornal reforçam a segurança do sistema. O embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Benoni Belli, afirmou ao Washington Post que todas as missões de observação no país desde 2018 concluíram que o sistema eleitoral brasileiro é seguro e confiável.
Já Salvador Romero, especialista latino-americano em eleições que observou pleitos em mais de vinte países, disse ao jornal que “o sistema eleitoral brasileiro é considerado, sem dúvida, um dos mais robustos da América Latina”.
A reportagem do Washington Post expõe uma contradição relevante na política externa de Trump para a região: segundo o próprio jornal, quando o candidato de direita apoiado por Trump venceu a eleição presidencial da Colômbia no mês passado, o governo americano rejeitou publicamente as acusações de fraude feitas pelo presidente derrotado, Gustavo Petro, e chegou a assinar nota condenando qualquer tentativa de deslegitimar o resultado das urnas colombianas.
Sob a ótica deste portal, o mesmo padrão de conduta não se repete quando o resultado eleitoral pode desfavorecer um aliado do próprio Trump, como ocorre agora com Flávio Bolsonaro no Brasil.
Nem o Departamento de Estado nem os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson responderam, até a publicação da reportagem original, sobre o real objetivo da viagem a Brasília.
O Urbs Magna acompanha o caso e traz novas informações assim que o Washington Post ou outras fontes confiáveis publicarem atualizações.
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