📷 O senador Flávio Bolsonaro durante evento com diplomatas / Foto: Divulgação / Raul Spinassé |•| Urbs Magna
| Brasília (DF)
21 de julho de 2026
A repetição do discurso golpista do pai, Jair Bolsonaro, contra as urnas eletrônicas, nesta terça-feira (21/jul), por parte do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), levanta a hipótese, defendida por analistas, de que o objetivo seja provocar uma punição para, em seguida, alegar perseguição política.
O jornalista Fernando Boscardin publicou no X uma leitura mais política do episódio, argumentando que o senador buscaria deliberadamente ser punido pelo TSE para, a partir disso, sustentar um discurso de perseguição judicial e de suposta ditadura no Brasil — abrindo espaço para pressão externa.
Claramente Flávio quer cavar punições. Punido, alegará perseguição e dirá que o país vive uma ditadura, forçando intervenção externa. Esse é o jogo. https://t.co/C90DlHGF1F
— ⚖️WE THE PEOPLE 🙌 .•. (@Boscardin) July 22, 2026
É uma interpretação, não um fato comprovado, mas encontra eco em episódios recentes: depois da prisão do pai, em agosto de 2025, o próprio Flávio declarou publicamente que o país vivia “oficialmente numa ditadura”.
O que Flávio disse, exatamente
Nesta terça-feira (21/jul), durante um almoço com diplomatas promovido pela consultoria Novo Selo Comunicação, Flávio Bolsonaro afirmou que boa parte das urnas usadas no Brasil “têm a mesma origem” da empresa venezuelana Smartmatic, citando um suposto relatório da CIA sobre fraudes eleitorais na Venezuela.
Em seguida, pediu aos embaixadores que enviem o maior número possível de observadores internacionais para acompanhar a eleição de 2026, segundo apurou o Jornal de Brasília.
A afirmação é falsa. Segundo o próprio TSE, a Smartmatic nunca forneceu urnas nem softwares de votação ao Brasil — participou de uma licitação em 2020, vencida pela Positivo, e manteve apenas contratos pontuais de treinamento técnico e conexão de dados.
Diante da repercussão, o senador recuou parcialmente, dizendo não estar “questionando o sistema de votação brasileiro” — ressalva que contrasta com o teor da fala original.
A tese da “punição calculada”
A engrenagem ficou ainda mais explícita na fala do irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que nesta mesma terça-feira (21/jul) disse à imprensa pretender usar declarações e documentos do governo de Donald Trump sobre fraudes eleitorais como “aval” para contestar uma eventual derrota de Flávio nas urnas, segundo apurou a Revista Fórum — o que, na prática, confirma que o discurso de fraude vem sendo preparado como estratégia de contestação, e não como reação a um fato concreto.
Por que o episódio ecoa 2023
A cena não é inédita. Em 30 de junho de 2023, o TSE declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos justamente por reunir embaixadores no Palácio da Alvorada , ainda na Presidência, para questionar sem provas a segurança das urnas.
A semelhança de conduta é o que sustenta a tese de que Flávio pode enfrentar risco jurídico parecido, embora o contexto — ele não ocupa cargo de Poder Executivo — mude a análise.
Em processos recentes envolvendo o senador, porém, especialistas avaliam que o TSE tende a aplicar sanções mais brandas, como multa, e não a inelegibilidade.
O advogado eleitoral Peterson Vivan, presidente da comissão de direito eleitoral da OAB-Chapecó, afirmou, segundo um jornal paranaense, que a resposta mais provável nesses casos é “sanção pecuniária, mas sem qualquer efeito sobre o registro da futura candidatura” — avaliação dada sobre outro processo em curso contra Flávio , mas que ilustra a tendência da Corte em relação a ele.
Trump interviria de fato?
As opiniões de especialistas sobre a capacidade — e a disposição — de Donald Trump de interferir diretamente na eleição brasileira de 2026 divergem bastante.
A economista Monica de Bolle avalia que o governo americano deve ter “menos espaço” para se dedicar ao Brasil, já que as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, no mesmo ano, tendem a consumir a atenção da equipe de Trump, segundo entrevista ao Jornal GGN.
Já o cientista político Anthony W. Pereira, brasilianista, segundo o Portal 6, sustenta o oposto: para ele, os Estados Unidos podem interferir diretamente no pleito, contribuindo para um cenário de descredibilização do sistema eleitoral em caso de derrota de Flávio, o que poderia até gerar pressão para repetição da eleição — hipótese sem precedentes na democracia brasileira recente.
Um terceiro ângulo, levantado por um especialista consultado pela Agência Pública, descreve o apoio de Trump à direita latino-americana como um “guarda-chuva ideológico com dentes militares” — combinação de legitimidade externa, pressão econômica e a garantia de proteção política, sem que isso configure, até aqui, uma intervenção direta e formal no processo eleitoral em si.
O padrão de comportamento observado nas últimas semanas
Declarações sobre fraude, seguidas de eventual punição e discurso de perseguição, não é uma novidade tática, mas a repetição de um roteiro já testado por Jair Bolsonaro entre 2018 e 2022.
O fato de o discurso de contestação já estar sendo anunciado por Eduardo Bolsonaro antes mesmo de qualquer resultado eleitoral é o dado mais relevante da semana: sugere planejamento prévio, e não reação a uma injustiça concreta.
FAQ rápido
O que Flávio Bolsonaro disse sobre as urnas eletrônicas?
Afirmou, a embaixadores estrangeiros, que parte das urnas brasileiras teria a mesma origem da empresa venezuelana Smartmatic — informação desmentida pelo TSE .
O TSE pode punir Flávio por essas declarações?
Pode, mas juristas ouvidos pela imprensa avaliam que a sanção mais provável é multa, e não inelegibilidade — embora o precedente de Jair Bolsonaro em 2023, por conduta semelhante, tenha resultado em inelegibilidade por oito anos.
Trump pode interferir na eleição brasileira?
Especialistas discordam: alguns veem pouco espaço de ação dos Estados Unidos em 2026, enquanto outros apontam risco real de pressão política e econômica em favor de Flávio Bolsonaro .
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