| Iowa (US)
05 de setembro de 2026
Biólogos da University of Iowa concluíram que as cigarras periódicas do gênero Magicicada podem estar a caminho da extinção. O motivo central não é um predador novo, e sim o corte histórico de florestas maduras e a lentidão com que esses insetos reconquistam o território.
A conclusão veio a público na sexta-feira (04/set), em comunicado da universidade reproduzido pela Mirage News. O trabalho científico, assinado em primeiro lugar por Ian Chan e coordenado pelo professor Andrew A. Forbes, havia sido depositado em 25 de novembro de 2025 no bioRxiv, com o título “Periodical cicadas suffer legacy effects of century-old forest removal”.
O que são as cigarras periódicas?
As cigarras periódicas — principalmente do gênero Magicicada — são insetos nativos do leste e do centro-oeste dos Estados Unidos. Elas emergem do solo em massas de milhões ou bilhões de indivíduos apenas a cada 13 ou 17 anos. Há sete espécies reconhecidas: quatro de ciclo de 13 anos e três de ciclo de 17 anos, todas derivadas de um ancestral comum há cerca de 3,9 milhões de anos, segundo as páginas da University of Connecticut.
Diferentemente das cigarras anuais, que aparecem todo verão, as periódicas passam quase toda a vida isoladas no subsolo. Logo após nascerem, as ninfas cavam a terra e se fixam em raízes de árvores, alimentando-se de seiva por 13 ou 17 anos. Quando o relógio biológico interno se completa, saem juntas na primavera, sobem em troncos, abandonam o exoesqueleto e ganham asas. Os adultos têm olhos vermelhos brilhantes e corpo escuro. A fase aérea dura só três a quatro semanas: os machos cantam para atrair as fêmeas, os ovos são depositados em galhos e, em seguida, a geração adulta morre.
Cientistas atribuem o ciclo longo e sincronizado — baseado nos números primos 13 e 17 — à saturação de predadores. Ao surgirem de uma só vez, saturam aves, esquilos e outros animais. A maior parte da população consegue se reproduzir. Nenhum predador consegue especializar-se em caçá-las todos os anos.
Elas não são perigosas para pessoas. Não mordem, não picam, não têm veneno e não destroem lavouras como praga agrícola clássica, embora a postura de ovos possa danificar galhos jovens. O coro dos machos pode ultrapassar 90 decibéis.
Por que o estudo fala em extinção?
No comunicado da universidade, Andrew Forbes, professor do Departamento de Biologia da University of Iowa, afirmou: “Acho que as cigarras são realmente fascinantes porque têm essa biologia incrível. Mas essa biologia interessante também as condenou.” Em seguida, ligou a viabilidade da espécie ao uso da terra: “A viabilidade delas está conectada ao uso humano da terra. As florestas são derrubadas e crescem novamente, mas esses animais vivem no subsolo por 17 anos, e quando você derruba as árvores antigas, as cigarras perdem sua fonte de alimento, morrem, e pode levar centenas de anos para que retornem.”
A equipe analisou mais de 150 anos de mudança da paisagem e a atividade da ninhada XIII (Brood XIII) no condado de Johnson, no estado de Iowa, onde fica Iowa City. Segundo o preprint, a presença de populações reprodutivas de Magicicada foi melhor prevista pela cobertura arbórea de 1930 do que pela cobertura atual. As cigarras ficaram sobretudo em sítios que não caíram abaixo de 17,4% de cobertura de árvores.
O total de floresta no condado aumentou desde 1930. Esse ganho, porém, inclui troca constante de talhões a cada 17 anos. As áreas ocupadas pelas cigarras recuaram mais do que avançaram.
Pesquisa anterior já havia mostrado que, a cada emergência, o inseto se desloca em média cerca de 50 jardas — aproximadamente 46 metros. Forbes disse à divulgação institucional: “Uma nova descoberta é que usamos essa distância para modelar o movimento das cigarras e descobrimos que levará muitos séculos para que elas recolonizem a floresta restaurada, mesmo nas melhores condições.”
A transferência de 20.126 adultos fracassou
Para testar se a recolonização poderia ser acelerada, o grupo coletou 20.126 adultos da Brood XIII, catalogou sexo e espécie e os soltou em floresta restaurada. A tentativa não sustentou população. Sem defesa além do número, a maioria foi predada em menos de uma semana.
Forbes resumiu o episódio: “O bufê estava aberto, e todos sabiam disso. Pensei que se conseguíssemos números grandes o suficiente, funcionaria. Eu estava errado.”
O preprint conclui que a preservação de habitat florestal ao longo de séculos “pode ser o único poste de amarração entre as cigarras periódicas e sua extinção”. Os autores comparam o quadro ao declínio de outros animais norte-americanos que já foram abundantíssimos, como o pombo-passageiro.
Há uma ressalva do próprio pesquisador: se reservas florestadas com ninhadas forem deixadas intactas, a espécie ainda pode persistir e se expandir aos poucos. “Esses podem ser lugares onde elas podem sobreviver e se dispersar lentamente. Para expandir seu território, você também precisaria que novas florestas permanecessem intactas e não fossem derrubadas.”
IMPORTANTE
O estudo não afirma que as sete espécies de Magicicada já estejam extintas, nem que a União Internacional para a Conservação da Natureza as tenha classificado agora como ameaçadas. O que a pesquisa descreve é um recuo geográfico persistente, efeito tardio do desmate antigo e incapacidade de reocupar florestas novas no ritmo da regeneração. A University of Connecticut já registrava que ninhadas inteiras desapareceram: a Brood XI, na Nova Inglaterra, após 1954; a Brood XXI, na Flórida, no século 19; e populações densas da Brood XIII em Raccoon Grove, no Illinois, extintas até 1997.
Como funciona o ciclo — e por que isso as deixa frágeis
A mesma estratégia que as tornou famosas agora as expõe. Elas precisam que a mesma árvore, ou o mesmo bosque, sobreviva por mais de uma década enquanto as ninfas sugam seiva. Um lote desmatado no meio do ciclo mata a geração subterrânea. Um plantio novo, ainda que vistoso no mapa, não basta se for cortado de novo antes que a frente de cigarras avance algumas dezenas de metros.
No condado de Johnson, os pesquisadores cruzaram jornais antigos, fotografias aéreas e mapas. Grande parte das matas locais já havia sido removida até a década de 1930. O professor Forbes conta que o interesse pessoal veio de uma emergência esperada perto de Iowa City que quase não apareceu. “Fiquei muito triste. Queria descobrir por que isso aconteceu.”
O primeiro autor, Ian Chan, aluno da University of California, Berkeley, integrou o programa de verão da universidade de Iowa. Participaram ainda, entre outros, Guerin E. Brown, Fabiola Castaneda-Santiago, Jacky S. Chitty, Tamra A. Elliott, Mattie J. Gose, Stephen D. Hendrix, Carter R. Leerhoff, MaKella J. Steffensen e Christian L. Weinrich, do Departamento de Biologia, e Charlotte M. Hanfland, Susan K. Meerdink e Adam M. Skibbe, da School of Earth, Environment, and Sustainability. A pesquisa foi autofinanciada, com apoio material da instituição.
O que isso diz sobre florestas — e o que não se deve extrapolar ao Brasil
As cigarras periódicas de 13 e 17 anos são um fenômeno exclusivo da América do Norte oriental. O Brasil tem cigarras anuais e ciclos distintos; não hospeda as ninhadas Magicicada. Ainda assim, o mecanismo descrito pelos autores — persistência de floresta por décadas, e não apenas o saldo líquido de hectares no mapa — ecoa o debate sobre continuidade de habitat. Restaurar talhão depois de talhão, sem estabilidade secular, não reconstitui espécies de ciclo longo.
Em 2024, as ninhadas XIII e XIX coincidiram pela primeira vez desde 1803. Em 2025, emergiu a Brood XIV. Em 2026 não há emergência periódica majoritária prevista, apenas “stragglers”, indivíduos fora de hora, segundo o Farmers’ Almanac. O silêncio relativo deste ano não significa recuperação: a maior parte da vida dessas espécies continua invisível, sob a terra.
A análise do Urbs Magna observa que o caso desloca o olhar da contagem espetacular de bilhões de insetos para a escala institucional da terra. Uma espécie que satura predadores pelo número ainda pode ruir se o chão em que as ninfas se alimentam for interrompido no meio do século.
O que acontece agora?
O preprint recomenda tratar a conservação como compromisso de gerações: manter bosques contínuos, reduzir o vaivém de corte e evitar a ilusão de que o replantio imediato recompõe a geografia das ninhadas. Sem essa estabilidade, o modelo dos autores projeta recuo adicional “sob quase todas as condições”.
FAQ rápido
As cigarras periódicas já estão extintas?
Não. Sete espécies de Magicicada ainda existem no leste e no centro-oeste dos Estados Unidos. O que o estudo descreve é risco de declínio contínuo e perda de área, com ninhadas históricas já desaparecidas.
Elas são perigosas para pessoas ou lavouras?
Não picam, não mordem e não têm veneno. O incômodo principal é o barulho. A postura de ovos pode prejudicar galhos novos, mas não se trata de praga clássica de plantação.
Dá para salvar uma ninhada transferindo insetos?
A tentativa com 20.126 adultos da Brood XIII não funcionou. Sem massa crítica no novo sítio, os predadores consumiram a soltura em poucos dias.
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