Brasília (DF)
01 de outubro de 2026
O governo de Donald Trump empenhou US$ 1 milhão num projeto para financiar organizações da sociedade civil que contestam o que o programa chama de excesso judicial e censura do STF. A revelação do The Guardian, publicada em 30 de setembro, chega a três dias do primeiro turno e recoloca a pressão de Washington sobre o Judiciário brasileiro no centro da disputa eleitoral.
O QUE O GUARDIAN APUROU?
O subsídio se chama “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, traduzido por veículos brasileiros como “Combate ao lawfare e à censura no Brasil”. Segundo o jornal britânico, o dinheiro financiaria grupos da sociedade civil opostos ao que o documento classifica como excesso de alcance judicial e censura por parte da Corte.
A verba não é um cheque pessoal de Trump. Integra 43 concessões, no total de US$ 176,9 milhões, do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado. O Congresso americano havia apropriado US$ 205 milhões para o fundo. O empenho ocorreu na quarta-feira (30/set), horas antes do fim do ano fiscal, apesar de preocupações e pedidos do Congresso para que isso não fosse feito, de acordo com fonte ouvida pelo Guardian.
O Departamento de Estado não comentou se havia empenhado os recursos nem se havia desconsiderado os bloqueios congressuais. Sobre as concessões, a pasta disse que os programas ainda estavam em “deliberação ativa”, que os contemplados teriam de cumprir as regras federais de subsídio e que haveria verificação padrão.
IMPORTANTE: O Guardian não publica o nome das organizações brasileiras que receberiam o US$ 1 milhão. A reportagem também não afirma que o dinheiro já tenha sido sacado por um grupo específico. O que está documentado é o empenho de um subsídio com esse título, dentro de um pacote maior, e a descrição oficial do objetivo: financiar quem se oponha ao que o programa chama de excesso judicial e censura do STF.
QUEM TENTOU BARRAR O REPASSE?
A senadora democrata Jeanne Shaheen, principal nome da oposição no Comitê de Relações Exteriores do Senado, manteve dez bloqueios sobre US$ 22 milhões em concessões voltadas ao Brasil, à África do Sul, à Nigéria e à promoção de ideologia de direita no Reino Unido e na Europa. O secretário de Estado Marco Rubio assinou pessoalmente um memorando para desconsiderar esses bloqueios e empenhar os recursos, segundo o Guardian.
Em declaração reproduzida pelo jornal, Shaheen disse que o Congresso apropriou o fundo, em base bipartidária, para apoiar defensores de direitos humanos, auxiliar vítimas de violações e promover a democracia no exterior. E acrescentou, em tradução: “As propostas do governo Trump usariam dinheiro do contribuinte para promover organizações e programas de extrema direita em democracias consolidadas. Isso é desperdício de recursos e mina os valores dos Estados Unidos e as relações com parceiros democráticos, inclusive aliados na Europa.”
O MILHÃO BRASILEIRO CABE NUM PACOTE MAIOR
O maior repasse do pacote, de US$ 40 milhões, foi para um consórcio liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation, fundação anticomunista. Um documento de verificação visto pelo Guardian registra US$ 40 milhões, foi para um consórcio liderado pela Victims of Communism Memorial Foundation, fundação anticomunista. Um documento de verificação visto pelo Guardian registra US$ 96.997 em contratos anteriores com o Departamento de Estado nos últimos cinco anos, todos no ano fiscal de 2022, e identifica Andrew Bremberg — ex-assessor da Casa Branca e ex-embaixador americano junto ao escritório europeu da ONU — como “líder sênior” da fundação.
Outras concessões descritas pelo jornal incluem apoio a um grupo que defende direitos de africâneres brancos na África do Sul, US$ 2 milhões para “aliados da civilização ocidental” na Europa, com exclusão de quem adote o que o documento chama de “narrativas de direitos humanos instrumentalizadas ideologicamente, como a ideologia de gênero”, e verbas ligadas a cristãos na Nigéria e a críticas à regulação. Parte dos subsídios sem ligação com a segurança chegou a ser retirada, entre eles um de US$ 2 milhões para “aliados da civilização” na Europa, com exclusão de quem adote o que o documento chama de “narrativas de direitos humanos instrumentalizadas ideologicamente, como a ideologia de gênero”, e verbas ligadas a cristãos na Nigéria e a críticas à regulação. Parte dos subsídios sem ligação com a segurança chegou a ser retirada, entre eles um de US$ 5 milhões à Free Speech Union e outro de US$ 7 milhões a um think tank ligado a Jacob Rees-Mogg.
Fontes a par do processo disseram ao Guardian que as concessões foram objeto de pressão de integrantes do governo, com adesão da Casa Branca. Uma delas afirmou que o ponto central era a atenção de alto nível, inclusive da Casa Branca, a esses programas.
POR QUE ISSO IMPORTA A TRÊS DIAS DA URNA?
O primeiro turno das eleições 2026 é no domingo, 4 de outubro, conforme o calendário eleitoral confirmado pelo Valor. A disputa presidencial opõe Luiz Inácio Lula da Silva a Flávio Bolsonaro, não a Trump. O presidente americano não está na cédula. O que a revelação acrescenta é um instrumento de governo dos Estados Unidos dirigido à contestação do STF na reta final da campanha.
A Carta Capital registrou, nesta quinta-feira (1/out), que a notícia surge três dias antes da votação e se soma a tarifas, sanções e gestões de aliados do bolsonarismo em Washington. O ICL Notícias repercutiu a apuração do Guardian na manhã desta quinta-feira (1/out). A página consultada não exibe assinatura individual; o Painel Político atribui a repercussão à coluna de Jamil Chade.
O antecedente mais direto está na própria reportagem britânica: o governo Trump sancionou o ministro Alexandre de Moraes no ano passado, depois de lobby de Eduardo Bolsonaro. Em dezembro de 2025, o Tesouro americano retirou Moraes e a mulher, Viviane Barci de Moraes, da lista Magnitsky, também segundo o The Guardian.
Em 24 de setembro, 31 parlamentares democratas enviaram carta a Marco Rubio criticando o que chamaram de esforço aparente de interferir nas eleições brasileiras e enfraquecer instituições democráticas. A carta, revelada pelo The Guardian, cita tarifas e outras medidas associadas ao julgamento de Jair Bolsonaro.
O Metrópoles lembra ainda um edital de junho do Departamento de Estado, de até US$ 986.679, para um projeto de nome parecido, “Countering Censorship and Judicial Overreach in Brazil”. A relação entre aquele edital e o empenho de quarta-feira (30/set) não foi confirmada pelo Guardian.
O QUE A ANÁLISE APONTA
A análise aponta que o fato relevante não é apenas o valor, pequeno diante dos US$ 176,9 milhões do pacote, e sim o desenho político. Um fundo criado para direitos humanos e democracia passa a financiar, em democracia consolidada e na semana da eleição, a contestação da corte constitucional. O efeito institucional independe de o beneficiário final já ter sido nomeado: a mensagem chega antes da urna.
Não há, nas fontes consultadas até esta publicação, reação do Itamaraty, do STF ou das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro ao empenho específico de US$ 1 milhão.
FAQ Rápido
O governo Trump enviou US$ 1 milhão contra o STF?
Segundo o Guardian, o Departamento de Estado empenhou US$ 1 milhão no projeto “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, para grupos que contestam o que o programa chama de excesso judicial e censura do STF. A pasta não confirmou o empenho em comentário ao jornal.
Quem recebe o dinheiro?
Os beneficiários brasileiros não foram nomeados na reportagem. O texto fala em organizações da sociedade civil, sem identificar siglas, partidos ou pessoas.
O Congresso americano autorizou esse uso?
O Congresso apropriou US$ 205 milhões ao fundo. Jeanne Shaheen manteve bloqueio sobre parte das concessões, inclusive as ligadas ao Brasil. Marco Rubio assinou memorando para desconsiderar os bloqueios, segundo o Guardian.
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