Leia as críticas de progressistas contra a nova ameaça à democracia, em meio a articulações que desafiam a justiça e a memória coletiva
Brasília, 30 de setembro de 2025
A recente visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar na capital federal, expôs mais uma vez as fissuras profundas no tecido da democracia brasileira.
Autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), o encontro de cerca de três horas, ocorrido na segunda-feira (29/set), não foi mero gesto de cortesia: emergiu como um claro sinal de alinhamento com forças que buscam perdoar os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado em 2022 e pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.
Em um país que luta para consolidar sua soberania e o princípio da igualdade perante a lei, essa articulação reacende alertas sobre o risco de normalização de crimes contra o Estado Democrático de Direito.
Ao sair da residência de Bolsonaro, Tarcísio de Freitas não poupou palavras para defender a anistia ampla aos condenados pela trama golpista. Em entrevista a jornalistas, o governador afirmou que a medida seria o “caminho para a pacificação do país”, lamentando o que chamou de “situação triste” do ex-mandatário, a quem descreveu como soluçando durante a conversa.
Mas, como bem disse o sociólogo e escritor Sergio Abranches sua coluna no jornal Estado de Minas, “o Brasil está em paz, dispensa pacificadores. Quem está em guerra com o Brasil é o Congresso”.
Segundo relatos, o projeto de lei da anistia não foi o foco central do diálogo, mas Tarcísio reforçou seu apoio irrestrito à proposta em tramitação no Congresso Nacional, rejeitando alternativas como o PL da Dosimetria, que visa apenas reduzir penas.
“Redução de penas não satisfaz o presidente”, declarou, em uma declaração que ecoa as demandas do Partido Liberal (PL) e do centrão bolsonarista, conforme noticiado pelo g1 em sua cobertura mais atualizada sobre o episódio.
Essa postura não passou despercebida pela esquerda progressista, que vê no gesto uma ameaça direta aos pilares da soberania nacional e da justiça restaurativa.
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, criticou duramente a visita como um “incentivo ao golpismo”, argumentando que gestos de “solidariedade” a condenados por ataques à democracia equivalem a uma traição aos valores republicanos.
Em manifestações recentes, como o Grito dos Excluídos de 7 de setembro, Teixeira já havia alertado: “Você não vai conseguir articular a anistia, sabe por quê? Porque o povo brasileiro não aceita perdoar quem tentou destruir nossa Constituição”, conforme registrado pelo Estadão.
Para o ministro, a verdadeira pacificação não reside em impunidade, mas na garantia de que crimes contra o Estado sejam punidos, preservando a memória coletiva e impedindo repetições que minem a soberania popular.
A ativista política Beta Bastos, voz proeminente no campo progressista e nas redes sociais, ampliou o coro de indignação com uma análise afiada que viralizou entre militantes de esquerda. Em postagem recente, ela denunciou: “
Tarcísio voltou de sua visita ao traste e deixou claro que não basta reduzir penas, o que ele defende mesmo é anistia para golpistas. Ou seja, para o governador de São Paulo, “pacificação” significa premiar quem tentou destruir a democracia em 8 de janeiro. O discurso mostra mais uma vez como setores da direita insistem em normalizar crimes gravíssimos contra o Estado de Direito, tratando ataques à Constituição como se fossem apenas um “excesso de manifestação”. Pacificar não é anistiar! Pacificar é garantir justiça, responsabilização e memória para que nunca mais se repita.”
Essa declaração, que soma milhares de interações em plataformas como X (antigo Twitter), reflete o sentimento de uma base progressista que prioriza a defesa intransigente da democracia, alinhada aos ideais de esquerda que valorizam a equidade social e a accountability institucional.
Jornalões como O Globo e Folha de S. Paulo destacaram o contexto político da visita, apontando para discussões sobre as eleições de 2026 e a formação de chapas de centro-direita em São Paulo.
Segundo o O Globo, o encontro tratou de uma possível candidatura de Tarcísio ao Senado ou à reeleição estadual, com Bolsonaro ainda indefinido como sucessor, mas condicionado à anistia.
Já a Folha enfatizou os gestos do centrão em prol da anistia como estratégia para angariar apoio do clã Bolsonaro, em meio ao julgamento em curso no STF.
O Brasil de Fato, veículo alinhado à perspectiva progressista, foi mais incisivo, descrevendo a ação de Tarcísio como uma “volta a Brasília para discutir anistia para golpistas”, enquanto o alto clero congressional considera a proposta inviável.
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Do ponto de vista do progressismo de esquerda, essa movimentação não é isolada: representa uma insistência da extrema-direita em subverter os princípios do Estado Democrático de Direito, trocando justiça por impunidade em nome de uma suposta “pacificação” que, na verdade, perpetua desigualdades e fragiliza a soberania do povo brasileiro.
Como bem pontuou o cientista social Jonas Medeiros em análise ao Brasil de Fato, discutir anistia em meio ao histórico julgamento de agentes golpistas é “absolutamente escandaloso”, pois crimes contra a democracia são imperdoáveis para que ela própria sobreviva.
Nomes internacionais renomados, como cientista político Adam Przeworski, professor emérito da New York University, corroboram esta visão, ao classificar qualquer perdão amplo ao ex-presidente Jair Bolsonaro como um “desastre” que poderia abrir portas para “novos golpes”.
Mais recentemente, o Estadão previu o fim do bolsonarismo e disse que o movimento ideológico que tem como precursor o polêmico defensor da ditadura, Jair Bolsonaro, é uma “força política reacionária e destrutiva”.
Assim, agora com apoio surpreendente da mídia conhecida pelos ataques aos progressistas, a esquerda parece mais unida, como visto nos atos de 7 de setembro, clamando por “sem anistia”, reforçando que a verdadeira reconciliação passa pela responsabilização plena, pela memória coletiva e pela construção de um futuro onde a soberania nacional e os direitos fundamentais sejam inegociáveis.
Enquanto o Congresso debate o destino do PL da anistia, a sociedade civil progressista mobiliza-se para barrar o que vê como um retrocesso autoritário.
A visita de Tarcísio a Bolsonaro, longe de ser um ato de solidariedade isolado, simboliza a persistência de uma agenda que ameaça os alicerces da República.
Cabe à democracia vigilante, ancorada nos valores de esquerda, responder com firmeza: justiça sim, impunidade nunca.







