| São Paulo (SP)
30 de agosto de 2026
A Polícia Federal investiga suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro relacionadas aos negócios envolvendo Flávio Bolsonaro, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
A informação foi publicada neste sábado (29/ago) pela jornalista Andréia Sadi, que afirma ter ouvido investigadores familiarizados com o caso.
Segundo a apuração postada no g1, os investigadores não consideram suficiente tratar a operação como uma relação exclusivamente privada de patrocínio.
A PF procura esclarecer se houve eventual vantagem indevida envolvendo um agente público e um agente privado, além de reconstruir a origem, a movimentação e o destino dos recursos.
O que a nova informação revela
A apuração de Andréia Sadi acrescenta uma nova dimensão ao caso Dark Horse. Até aqui, Flávio Bolsonaro vinha sustentando que sua atuação consistiu em procurar Daniel Vorcaro para obter patrocínio privado para a produção do filme.
O senador reconheceu que pediu dinheiro ao ex-banqueiro, mas negou ter recebido vantagem pessoal ou oferecido qualquer benefício em troca.
A própria explicação de Flávio foi registrada pela Folha de S.Paulo, quando o caso veio a público em maio. Na ocasião, o senador afirmou que se tratava de “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai” e negou a existência de dinheiro público ou de vantagens pessoais.
A nova informação divulgada por Sadi mostra que, para investigadores da PF, a caracterização apresentada por Flávio não encerra a necessidade de investigação.
A origem do caso:
a revelação do Intercept
A história veio a público originalmente em 13 de maio, quando o The Intercept Brasil revelou mensagens, áudios e documentos relacionados às negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Segundo a reportagem, o ex-banqueiro teria repassado cerca de R$ 61 milhões para o projeto cinematográfico, enquanto o valor total negociado teria chegado a aproximadamente R$ 134 milhões.
A publicação revelou ainda uma gravação na qual Flávio cobrava recursos de Vorcaro para que o projeto pudesse avançar.
A Folha de S.Paulo confirmou posteriormente a autenticidade das mensagens com pessoas ligadas à investigação e registrou que Flávio admitiu ter solicitado dinheiro a Vorcaro, embora ele tenha negado qualquer vantagem indevida.
A Band também publicou o caso em 13 de maio e informou que o áudio havia sido originalmente divulgado pelo Intercept Brasil. A CNN Brasil também repercutiu a gravação naquele mesmo dia.
O dinheiro e o filme Dark Horse
De acordo com a investigação jornalística original, parte dos recursos teria sido movimentada por meio da Entre Investimentos e Participações até o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos.
A movimentação passou a despertar interesse dos investigadores porque o fundo teria relações com pessoas próximas a Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio.
A Folha de S.Paulo, ao repercutir a investigação do Intercept, registrou que Eduardo Bolsonaro e o deputado Mario Frias também teriam tratado do financiamento do filme com Vorcaro.
STF autorizou investigação da Polícia Federal
O caso ganhou uma dimensão formal no Supremo Tribunal Federal em 23 de julho, quando o ministro André Mendonça autorizou a abertura de inquérito pela Polícia Federal para investigar os repasses relacionados ao filme.
A decisão foi noticiada pela Folha de S.Paulo, que informou que o pedido havia sido apresentado pela PF e recebido parecer favorável do procurador-geral da República, Paulo Gonet.
O objetivo da investigação é verificar o destino dos recursos atribuídos a Daniel Vorcaro e esclarecer se eles efetivamente foram utilizados na finalidade apresentada.
A própria PF já havia manifestado a necessidade de aprofundar a apuração.
Segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que havia necessidade de instaurar inquérito para investigar as circunstâncias relacionadas aos recursos enviados aos Estados Unidos sob a justificativa de financiar Dark Horse.
A investigação agora mira corrupção e lavagem
É nesse contexto que surge a nova informação divulgada por Andréia Sadi. Segundo investigadores ouvidos pela jornalista, a Polícia Federal trabalha com as hipóteses de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A primeira hipótese exige investigar se teria ocorrido eventual vantagem indevida relacionada ao exercício da função pública.
A segunda exige esclarecer a origem e a circulação dos recursos e verificar se houve tentativa de ocultar ou dissimular sua natureza, origem, localização, movimentação ou propriedade.
O que a PF precisa esclarecer
A nova etapa da investigação concentra-se em perguntas objetivas: de onde veio o dinheiro?; quem efetivamente realizou os pagamentos?; quem recebeu os recursos?; qual foi o caminho percorrido pelo dinheiro?; quanto efetivamente foi destinado ao filme?; qual era a finalidade dos pagamentos?; houve alguma vantagem associada à atuação política de Flávio Bolsonaro?; os recursos foram utilizados exclusivamente na produção cinematográfica?
Essas questões ajudam a compreender por que a investigação não pode ser reduzida à existência ou não de um contrato de patrocínio.
Flávio Bolsonaro nega irregularidades
Desde a revelação do caso, Flávio Bolsonaro nega ter praticado irregularidades. Na manifestação registrada pela Folha de S.Paulo, o senador afirmou que não ofereceu vantagens, não recebeu dinheiro nem benefício pessoal e não intermediou negócios com o governo.
A produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme, também negou irregularidades e afirmou que os recursos teriam origem estrangeira.
Em julho, após a autorização do inquérito, a empresa declarou que continuaria colaborando com as autoridades.
O que mudou desde maio
A cronologia ajuda a dimensionar a evolução do caso. Em 13 de maio, o The Intercept Brasil revelou as mensagens e o áudio que mostravam Flávio Bolsonaro negociando recursos com Daniel Vorcaro.
No mesmo dia, outros veículos confirmaram a existência da negociação e registraram a admissão de Flávio de que havia solicitado dinheiro para o filme.
Em 23 de julho, o STF autorizou formalmente a investigação da Polícia Federal sobre os repasses.
Agora, em 29 de agosto, a apuração de Andréia Sadi informa que investigadores consideram também as hipóteses de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O caso, portanto, saiu de uma controvérsia política sobre o financiamento de um filme e passou a ser objeto de investigação criminal formal.
A questão central é o caminho do dinheiro
O ponto decisivo para a investigação não é simplesmente saber se Daniel Vorcaro tinha interesse em financiar Dark Horse.
O que precisa ser demonstrado é se os recursos tiveram efetivamente a finalidade declarada, se sua origem é compatível com a operação apresentada e se houve alguma contrapartida indevida.
É necessário esclarecer as relações financeiras entre as empresas e fundos na operação, que começou com uma negociação revelada pelo The Intercept Brasil. Flávio Bolsonaro confirmou ter pedido recursos a Daniel Vorcaro. Com a autorização do inquérito pelo STF, a Polícia Federal agora investiga a possibilidade de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
A nova informação divulgada por Andréia Sadi indica que investigadores da Polícia Federal rejeitam encerrar o episódio como simples relação privada de patrocínio e apuram suspeitas de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Novos detalhes poderão surgir à medida que o inquérito avance.
A afirmação de Flávio Bolsonaro de que o caso seria uma “página virada” esbarra justamente na questão que a jornalista Renata Vasconcellos recolocou durante a sabatina da Globo, na sexta-feira (28/ago): a existência de documentação sobre os repasses não equivale a uma prestação de contas completa sobre o destino dos recursos.
Até o momento, Flávio não apresentou publicamente documentação capaz de demonstrar, de maneira detalhada, como os cerca de R$ 61 milhões atribuídos aos pagamentos de Daniel Vorcaro foram integralmente empregados na produção de Dark Horse.
O The Intercept Brasil publicou posteriormente planilhas, contratos e comprovantes bancários que sustentam a existência de repasses financeiros para o projeto. O que continua em questão é a prestação de contas sobre o percurso desses recursos depois dos pagamentos.
É exatamente essa lacuna que mantém o assunto sob investigação e explica por que a declaração de que o episódio estaria encerrado não corresponde, até agora, ao estado público da apuração.
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