Brasília (DF)
13 de setembro de 2026
O Instituto de Criminalística de São Paulo recusou periciar ao menos 17 aparelhos eletrônicos apreendidos pela Polícia Civil no caso do filme Dark Horse porque os lacres deixavam vãos por onde caberia um cabo ou a retirada da peça. Os documentos vieram a público neste domingo (13/set), quando o ministro Flávio Dino, do STF, levantou o sigilo do inquérito paulista.
O que a perícia recusou e por quê?
A recusa está nos termos assinados pela perita criminal Viviane Fleitas Menezes e foi reproduzida por Valor Econômico, O Globo, Folha de S.Paulo, UOL e Metrópoles.
Em um dos termos, datado de 3 de junho, a perita escreveu que as guias “apresentam vão suficiente para a entrada de cabo de alimentação e transferência de dados, sendo possível a manipulação dos dados no interior do equipamento”. Em outro, registrou “vão suficiente para a retirada da peça a ser periciada”.
A Folha detalhou 27 dispositivos — 13 pen drives, nove notebooks e cinco celulares — associados a 17 guias originais de remessa. Depois da reembalagem, o conjunto passou a 18 guias. Valor e O Globo consolidaram o recorte de ao menos 17 aparelhos. Dois celulares ligados a endereços de Karina Ferreira da Gama estão no grupo recusado, segundo o Valor.
IMPORTANTE
A recusa da perícia não equivale, pelos documentos publicados, ao descarte dos aparelhos nem à destruição automática das provas. Segundo O Globo e a Folha, o material voltou à delegacia para readequação dos invólucros e aposição de novos lacres. A Folha registrou que, após essa correção, os equipamentos foram recebidos de novo e submetidos à extração de dados. O que a perícia afirmou é outra coisa: com o lacre original, era tecnicamente possível ligar aparelhos, transferir arquivos ou retirar peças sem romper o selo numerado. Isso fere a cadeia de custódia e pode ser alegado em juízo contra a validade da prova.
De onde saíram os aparelhos?
Os equipamentos foram recolhidos na Operação Wi-Fi Livre SP, deflagrada em 1º de junho pela Polícia Civil de São Paulo em endereços ligados a Karina Ferreira da Gama, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) e à produtora Go Up Entertainment, responsável pelo longa Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A maior parte dos itens recusados, segundo a Folha, veio de empresas subcontratadas pelo ICB no programa municipal de internet, e não apenas da produtora.
A investigação estadual apura fraude contratual, emprego irregular de verba pública e possível confusão patrimonial entre o instituto e a produtora. O contrato do programa Wi-Fi Livre SP, firmado com a Prefeitura de São Paulo na gestão de Ricardo Nunes, partiu de R$ 108 milhões e recebeu aditivos que levaram a R$ 157,1 milhões. Delegados da 2ª Dicca apontaram “consistentes suspeitas” de que recursos municipais tenham financiado, de forma indireta, a produção do filme.
Paralelamente, a Polícia Federal e o STF examinam emendas parlamentares, com destaque para destinações do deputado Mário Frias (PL-SP) a entidades ligadas a Karina. Dino escreveu, no exame dos papéis paulistas, que se fortaleceu a hipótese de um “sofisticado esquema” de desvio e que Frias ocuparia, “no terreno hipotético da investigação”, posição de liderança na “arquitetura criminosa”.
O que aconteceu com o material depois da recusa?
Em 8 de junho, a própria Polícia Civil registrou que o material havia retornado do Instituto de Criminalística “a fim de preservar a integridade dos objetos e assegurar a manutenção da cadeia de custódia”, conforme trecho reproduzido pela Folha. Os aparelhos não foram devolvidos a Karina nem às empresas investigadas.
Há limites técnicos à parte do lacre. O Valor informou que um aparelho Apple não foi periciado por incompatibilidade do software com iOS e que um computador tinha conteúdo criptografado. A coluna do Metrópoles acrescentou que Karina recusou entregar a senha do iPhone apreendido e que, no pacote compartilhado com o STF neste domingo, não constava a perícia desse celular.
Neste domingo (13/set), Dino também determinou que o secretário de Segurança de São Paulo entregue à PF o material bruto extraído dos aparelhos e transfira celulares, computadores e documentos à custódia federal, mesmo com perícias ainda em curso, segundo Veja.
A CNN Brasil mostrou ainda que o juiz Guilherme Eduardo Martins Kellner, da Vara Regional das Garantias de São Paulo, já havia autorizado em 26 de maio a pesquisa na memória dos aparelhos, “inclusive eventual recuperação de dados apagados”.
Qual o papel do governo Tarcísio?
A Polícia Civil e o Instituto de Criminalística integram a estrutura de segurança do Estado de São Paulo, sob o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado político de Jair Bolsonaro e pré-candidato à reeleição. Isso não prova, pelos documentos agora públicos, que o governador tenha determinado a lacração defeituosa.
O que está documentado é o histórico político do caso. Em 2 de junho, Tarcísio defendeu a operação e disse que “a polícia tem autonomia”, segundo o O Globo. Em 25 de agosto, após ordem de Dino para compartilhar o acervo com a PF, o governador classificou críticas à corporação como “desrespeito” e afirmou que a Polícia Civil “é uma polícia de Estado, não é uma polícia de governo”, conforme a CNN Brasil.
A falha de lacre ocorreu na polícia do maior colégio eleitoral do país, em inquérito que toca o filme de campanha simbólica do clã Bolsonaro, e só ganhou visibilidade plena quando o STF tirou o sigilo e puxou o material para a esfera federal. A cadeia de custódia é o ponto jurídico. A confiança pública na isenção da apuração estadual é o ponto político. Uma coisa não substitui a outra.
O que acontece agora?
A PF passa a reunir o acervo paulista com a Operação Make Up, deflagrada na quinta-feira (10/set), que cumpriu 49 mandados contra Frias, Karina e empresas ligadas a emendas. Resta saber se a extração feita depois do segundo lacre será considerada íntegra em juízo e se o iPhone de Karina, ainda sem perícia conhecida nos autos liberados, será efetivamente aberto sob custódia federal.
FAQ rápido
Os 17 aparelhos foram jogados fora?
Não. As fontes consultadas registram recusa inicial da perícia, devolução à delegacia, novos lacres e, segundo a Folha, extração posterior de dados. Dino mandou transferir o conjunto à PF.
O lacre rompido prova adulteração?
Não. A perita descreveu possibilidade de manipulação por causa do vão. Isso é um vício de cadeia de custódia, não a prova de que alguém de fato alterou arquivos.
Tarcísio ordenou a falha?
Não há documento público, nas matérias verificadas, que atribua ao governador a ordem de lacrar os aparelhos daquela forma. O nexo confirmado é institucional: a polícia estadual está sob a Secretaria da Segurança do governo dele.
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