| São Paulo (SP)
06 de setembro de 2026
Militantes do Partido Comunista Revolucionário (PCR) e da União da Juventude Rebelião (UJR) ocuparam ruas de São Paulo neste domingo (6/set) em marcha para homenagear dirigentes assassinados pela ditadura militar. O ato, que também reuniu a Unidade Popular (UP), coloca de novo na cena pública a disputa pela memória dos mortos e desaparecidos políticos.
O que aconteceu em São Paulo neste domingo?
O registro mais imediato do cortejo veio do perfil O Papo, que descreveu a mobilização como uma “passeata gigante” do PCR para “homenagear seus heróis assassinados pela ditadura militar e saudar a memória de históricos líderes comunistas”. Em publicação seguinte, o mesmo perfil informou que lideranças e militantes da UP, apresentada como “partido irmão do PCR”, também marcaram presença.
Veja as imagens abaixo e leia mais depois:
As imagens do ato mostram um bloco compacto de camisetas vermelhas, bandeiras com foice e martelo, retratos erguidos e uma faixa da UJR com os dizeres “Ser jovem é ser revolucionário. Ser revolucionário é lutar pelo socialismo”. O cortejo avançou sob céu encoberto, em via urbana próxima a um elevado.
Não havia, até o fechamento desta matéria, estimativa independente de público em veículos de grande circulação. A descrição disponível é a dos próprios organizadores e do registro fotográfico publicado nas redes.
Quem o PCR afirma homenagear?
O PCR foi fundado em maio de 1966, em ruptura com o PCdoB, sob a liderança de Manoel Lisboa de Moura. Segundo o histórico publicado pelo próprio partido e pelo jornal A Verdade, a organização atuou sobretudo no Nordeste e sofreu duríssima repressão no início dos anos 1970.
Entre os nomes recorrentes nas homenagens do partido estão:
- Manoel Lisboa de Moura, fundador do PCR, preso em Recife em 16 de agosto de 1973 e morto sob tortura. A versão oficial da repressão falou em tiroteio em São Paulo no dia 4 de setembro de 1973. Relatos de sobreviventes e peças da Comissão da Verdade contestam essa narrativa.
- Emmanuel Bezerra dos Santos, dirigente estudantil potiguar e membro do PCR, morto na mesma data, 4 de setembro de 1973. Seu corpo foi localizado anos depois na vala de Perus.
- Amaro Félix Pereira, o “Procópio”, líder camponês sequestrado e desaparecido entre 1971 e 1972.
- Amaro Luiz de Carvalho, o “Capivara”, executado em 1971.
- Manoel Aleixo da Silva, o “Ventania”, assassinado pelo DOPS em 1973.
O jornal A Verdade registrou, em 2020, denúncia do Ministério Público Federal sobre a falsificação de laudos das mortes de Manoel Lisboa e Emmanuel Bezerra.
IMPORTANTE: O ato deste domingo (6/set) é uma manifestação política de organizações de esquerda revolucionária. Ele não equivale, por si só, a um reconhecimento judicial novo dos casos. A condição de mortos e desaparecidos políticos desses militantes já foi objeto de apuração da Comissão Nacional da Verdade e de decisões posteriores do Estado brasileiro sobre retificação de certidões.
Por que o ato ocorre agora?
Este domingo (6/set) antecede o 7 de Setembro, data em que ruas de São Paulo costumam receber tanto desfiles oficiais quanto mobilizações de campos políticos opostos. Neste ano, a previsão de tempo frio e instável na Grande São Paulo, apontada pela Folha de S.Paulo, não impediu o cortejo.
O PCR celebrou 60 anos em 2026 com atos em várias cidades, conforme reportagem de junho do jornal A Verdade. A marcha paulistana combina, portanto, calendário de memória do partido, presença da juventude organizada na UJR e a aproximação da data nacional.
A Unidade Popular mantém relação próxima com o PCR. Sua presença no ato reforça um campo que se apresenta como esquerda revolucionária, distinto das legendas com maior inserção institucional.
Qual o peso institucional dessa memória?
O Estado brasileiro já reconheceu, em diferentes instâncias, a responsabilidade pelas mortes e desaparecimentos da ditadura. Em 2024, o CNJ determinou que cartórios corrijam certidões de óbito de vítimas para registrar morte violenta causada pelo Estado, como o Urbs Magna registrou na matéria sobre a resolução do CNJ.
Análise
Marchas como a deste domingo operam em um terreno ainda em disputa: de um lado, famílias, comissões da verdade e organizações de direitos humanos que cobram memória completa; de outro, setores que seguem tratando o regime de 1964 como “revolução” e minimizam a repressão. Áudios e documentos já publicados, inclusive em reportagem deste portal sobre prova de tortura na ditadura, tornam difícil sustentar a versão de “exceções isoladas”.
O paralelo com o Brasil de 2026 é direto. A cada novo 31 de março ou 7 de Setembro, a rua volta a funcionar como arquivo vivo. Quem carrega o retrato de Manoel Lisboa ou de Emmanuel Bezerra não está apenas celebrando um partido pequeno e sem registro eleitoral próprio. Está cobrando que o país não trate como detalhe o sequestro, a tortura e a ocultação de cadáveres.
O que acontece agora?
Até o momento, não há comunicado oficial da Prefeitura de São Paulo nem da Polícia Militar sobre interdição, público ou incidentes ligados a este cortejo específico. Também não foi localizada cobertura simultânea em jornais de referência. A apuração segue aberta.
A questão que permanece é se a memória dos mortos do PCR ficará restrita ao circuito das organizações que os reivindicam ou se voltará, com mais força, ao debate público sobre justiça de transição no Brasil.
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Gostaria de ter mais informações da UJR.