Brasília (DF)
06 de outubro de 2026
O governo interino da Venezuela e uma ala da oposição negociam transferir cerca de 31 toneladas de ouro, avaliadas em US$ 4 bilhões, do Banco da Inglaterra para a custódia americana em Nova York. O metal não poderia ser vendido de imediato. O desenho importa ao Brasil porque repete uma lógica em que recurso estratégico deixa o país e volta apenas como garantia vigiada.
O QUE ESTÁ EM NEGOCIAÇÃO?
Segundo o Financial Times, em reportagem de 18 de setembro, governo e oposição estavam próximos de um acordo para mover as reservas do Banco Central da Venezuela, guardadas em Londres, para o Federal Reserve Bank de Nova York. A Reuters, no mesmo dia, ouviu sete pessoas a par das conversas e descreveu o mesmo destino, com a ressalva de que o Tesouro dos Estados Unidos também aparecia como administrador possível.
Pelos termos relatados, o governo de Delcy Rodríguez obteria o controle legal das barras, mas não autorização para vendê-las de imediato. O ouro poderia servir de garantia para empréstimos, inclusive para a reconstrução depois dos terremotos de junho. Uma fonte da oposição disse ao Financial Times: “O ouro vai para os Estados Unidos, mas Delcy não terá acesso direto. Haverá supervisão e restrições.”
O Banco da Inglaterra afirmou ao jornal britânico que não pode cumprir instruções sobre a conta até que um tribunal do Reino Unido defina quem tem autoridade legal sobre ela. O acordo, portanto, não está concluído. Também não há confirmação, nas fontes consultadas até esta data, de que as 31 toneladas tenham deixado Londres. O g1 e o Valor Econômico repercutiram o relato com a mesma ressalva: trata-se de negociação, não de embarque.
IMPORTANTE: A negociação não significa que o ouro venezuelano já tenha sido embarcado para os Estados Unidos. O Cotejo.info classificou como falso um vídeo de caminhões que circulou como se mostrasse essa transferência. As imagens correspondem a um transporte do Banco Central dos Países Baixos, em 2023. O fato jornalístico, neste momento, é a tratativa — não o carregamento.
POR QUE O OURO ESTÁ PARADO DESDE 2019?
A disputa começou em 2019, quando Estados Unidos, Reino Unido e outros governos deixaram de reconhecer a reeleição de Nicolás Maduro e passaram a tratar Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, como autoridade legítima. O Banco da Inglaterra reteve as barras. O caso chegou à Suprema Corte britânica, conforme o Financial Times e a CNN Brasil.
O cenário mudou em janeiro de 2026, quando Maduro foi sequestrado numa operação militar dos Estados Unidos e passou a responder a acusações em Nova York. Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina. Em agosto, governo e oposição anunciaram que trabalhariam juntos para desbloquear o acesso às 31 toneladas. A delegação opositora ligada à Assembleia Nacional de 2015, hoje conduzida por Dinorah Figuera, reuniu-se em Caracas com a equipe do governo, segundo o Público.
Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional e irmão de Delcy, esteve em Londres em meados de setembro. O Brasil de Fato registrou que o Reino Unido decidiu, em 15 de setembro, elevar o nível das relações e caminhar para a nomeação de embaixador em Caracas. Delcy agradeceu publicamente as gestões do irmão. Ele falou, em vídeo, em “boas notícias” para o povo venezuelano.
QUEM CONTROLA O DINHEIRO DO PETRÓLEO?
O ouro não é o único ativo venezuelano sob guarda americana. Em janeiro, Donald Trump editou a ordem executiva 14373 e criou uma conta de custódia no Tesouro dos Estados Unidos para receitas de recursos naturais da Venezuela. Carta de senadores americanos, de 17 de setembro, cita relatos públicos de que dezenas de bilhões de dólares passaram por essa estrutura, incluindo ao menos US$ 13 bilhões de vendas de petróleo.
O Financial Times registrou, em julho, a fórmula usada por um funcionário do Departamento de Estado: o dinheiro seria da Venezuela, mas o uso dependeria de autorização de Washington. Parte dos recursos foi liberada para salários e despesas do Estado. Auditorias prometidas não haviam sido tornadas públicas, segundo a carta do Senado. A análise aponta que custódia e propriedade não são a mesma coisa: o país continua dono formal do ativo e perde, na prática, a decisão sobre quando e como usá-lo.
O QUE TRUMP E DELCY TRATARAM EM NOVA YORK?
A Casa Branca confirmou o encontro. Em 22 de setembro, Trump e Delcy Rodríguez reuniram-se a portas fechadas em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU, no hotel Lotte New York Palace. Participaram Marco Rubio, Scott Bessent, Susie Wiles e Stephen Miller, segundo o g1 e a CNN Brasil.
Depois da reunião, Delcy escreveu: “Conversamos sobre o fortalecimento da relação bilateral entre nossos países e o avanço de uma agenda de cooperação em áreas estratégicas como energia, mineração, segurança e outros temas de interesse comum.” O El País registrou que, no discurso à Assembleia, Trump chamou Maduro de “ditador criminal” e tratou o petróleo venezuelano como botim. A frase de Delcy não menciona o ouro de Londres. A pauta declarada — energia e mineração — é exatamente o terreno em que a custódia americana já opera.
O QUE ISSO TEM A VER COM O BRASIL?
O Brasil não está nessa mesa. O paralelo é de interesse, não de identidade. Estudo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais encomendado pelo Ministério de Minas e Energia, citado pelo Valor Econômico em 19 de junho, aponta o país como detentor da segunda maior reserva de terras raras do planeta, com cerca de 23,1% dos recursos conhecidos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima 21 milhões de toneladas em reservas e uma produção ainda marginal diante da China, conforme síntese publicada pela DefesaTV.
Terras raras entram em ímãs, turbinas, baterias, eletrônica e defesa. Quem controla a etapa de refino controla a cadeia. A Lei nº 15.506/2026, sancionada em 16 de setembro, criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos com a meta declarada de agregar valor no território. O risco não é a parceria comercial. É aceitar, em nome de reconhecimento externo ou de crédito rápido, que a decisão sobre o ativo estratégico saia do país.
A análise aponta que o caso venezuelano oferece um teste concreto: recurso bloqueado há sete anos só reaparece se a custódia migrar para Nova York, com supervisão de quem já administra o caixa do petróleo. Para o debate brasileiro de 2026, a pergunta não é ideológica. É institucional. Soberania mineral não se mede pelo discurso de quem promete livrar um país. Mede-se por quem assina a conta, quem autoriza o saque e quem fica com o poder de veto.
O QUE ACONTECE AGORA?
A transferência ainda depende de acordo político, de protocolo de transparência exigido pela oposição e de decisão judicial no Reino Unido. Não há data de embarque. Se o desenho for fechado, as barras seguiriam para Nova York, não para Caracas, e o governo venezuelano poderia usá-las como garantia, não como caixa livre. O precedente fica registrado: desbloqueio sem repatriação.
FAQ Rápido
As 31 toneladas de ouro já foram para os Estados Unidos?
Não. Até as fontes consultadas, o que existe é uma negociação. O Banco da Inglaterra disse que só agirá com nova ordem judicial britânica. Vídeos de caminhões apresentados como a transferência foram desmentidos pelo Cotejo.info.
A Venezuela poderá vender o ouro?
Pelo desenho descrito pelo Financial Times e pela Reuters, não de imediato. O governo de Delcy Rodríguez teria controle legal, com restrição de venda e possibilidade de uso como garantia de empréstimo, sob supervisão.
O Brasil entra nesse acordo?
Não. O acordo é venezuelano. A conexão com o Brasil é o debate sobre minerais críticos: o país tem a segunda maior reserva conhecida de terras raras, segundo o Valor Econômico, e discute, pela Lei nº 15.506/2026, como agregar valor aqui em vez de ceder a decisão sobre o recurso.
Atualização: o encontro entre Donald Trump e Delcy Rodríguez ocorreu em 22 de setembro, em Nova York, e foi confirmado pela Casa Branca, conforme o g1. Não foi localizada, nas fontes consultadas, confirmação de que o acordo do ouro tenha sido assinado ou de que as barras tenham deixado o Banco da Inglaterra.
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