Brasília (DF)
15 de setembro de 2026
O ministro Kassio Nunes Marques se declarou impedido e deixou o plenário do STF na terça-feira (15/set), no mesmo dia em que vazaram mensagens do celular de Daniel Vorcaro sobre o filho do magistrado, o entorno de Luiz Fux e uma cobrança de R$ 10 mil associada ao nome “Kassio”. O recuo altera o quórum da sessão que discute se Alexandre de Moraes será investigado.
As redes sociais interpretaram o episódio como “fuga” da sessão.
O que aconteceu na sessão?
A sessão extraordinária, convocada pelo presidente Edson Fachin, começou por volta das 10h35, em Brasília, para analisar o relatório da Polícia Federal sobre mensagens de Vorcaro ligadas a Moraes, no âmbito da Operação Compliance Zero e do caso do Banco Master.
Segundo o G1 e o O Globo, Nunes Marques pediu a palavra no início dos trabalhos, negou vínculo com o banqueiro e, em seguida, afirmou o impedimento na condição de presidente do TSE. Depois pediu autorização para deixar o plenário. Fachin respondeu: “Fique à vontade, Vossa Excelência anotou impedimento”, conforme o registro do O Tempo.
O ministro Dias Toffoli também anunciou que não votará, desta vez por suspeição de foro íntimo, segundo a Agência Brasil.
O que Nunes Marques disse no plenário?
Antes de sair, o ministro sustentou que nunca julgou processo do Master e que não há registro de mensagem sua com Vorcaro. Disse ainda que votou pela confirmação da prisão do banqueiro, do pai dele e de outros investigados.
“É bom que registre que, em relação ao caso, eu nunca troquei nenhuma mensagem, não há registro de nenhuma mensagem minha com Daniel Vorcaro”, afirmou, segundo o O Globo.
“Se eu me sentisse desconfortável ou cooptado de alguma forma, jamais teria votado pela confirmação da prisão de Daniel Vorcaro, do seu pai e de outras pessoas envolvidas”, acrescentou.
A justificativa formal do afastamento, contudo, foi outra. Como presidente do TSE às vésperas das eleições de 2026, Nunes Marques disse não se sentir confortável para participar de julgamento com potencial impacto político-eleitoral.
“Na condição de presidente do TSE, eu não me sinto confortável para participar desse julgamento e afirmo o meu impedimento”, declarou, conforme o G1.
Quais mensagens citam o filho de Nunes Marques?
O núcleo factual que embaralhou a sessão está no celular de Vorcaro, apreendido pela PF. Em julho de 2025, o então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó Netto, enviou a Vorcaro o contato do advogado Kevin Marques e perguntou se deveria manter o repasse de “500 mil mês”. Vorcaro respondeu “Kkkk”, segundo o Estadão e o O Globo.
Em agosto de 2025, Rennó voltou ao tema: “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”. Em seguida, reenviou o contato de Kevin e escreveu: “Esse aí. Único ‘meu’ que faltou”.
Há diálogo anterior, de outubro de 2024, em que Rennó encaminha dados de Kevin com a legenda “Dominado aqui”, após informar decisão do STF favorável à Destilaria Alcídia, com votos de Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques, conforme o blog de Andréia Sadi no G1.
A defesa de Kevin afirmou que ele nunca prestou serviços ao Master nem recebeu dinheiro de Vorcaro. Reconheceu, porém, ter recebido R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária por serviços tributários administrativos, “sem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”.
Reportagem do Estadão de março já havia documentado esses R$ 281,6 mil. O mesmo jornal, a Folha, citado em matéria anterior do Urbs Magna sobre o argumento de suspeição, registraram que a Consult recebeu R$ 281,6 mil. O mesmo jornal e a Folha, citados em matéria anterior do Urbs Magna sobre o argumento de suspeição, registraram que a Consult recebeu R$ 6,6 milhões do Master entre outubro de 2024 e julho de 2025, segundo relatório do Coaf. A consultoria atribuiu os valores a auditoria e consultoria tributária.
Nunes Marques, procurado antes da sessão, disse ao Estadão que “nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro”.
O que as mensagens dizem sobre viagem e sobre o encontro de R$ 10 mil?
Outro diálogo, de dezembro de 2024, mostra o agente de viagens Leo Serrano encaminhando a Vorcaro um print atribuído ao “Ministro Kassio”. O texto pede ajuda para formatar viagem de cerca de dez dias, entre 8 e 18 de janeiro, para cinco pessoas, com roteiro inicial em Viena e cidades próximas. Quinze dias depois, Serrano escreveu que “aquele Kássio que pediu viagem pra aquele grupo em janeiro sumiu”. A defesa de Serrano disse que a viagem não foi contratada nem realizada, segundo o O Globo.
Há ainda as mensagens com uma interlocutora identificada como Rayanna, publicadas pelo Metrópoles e confirmadas pelo Estadão e pela CNN Brasil.
Em 28 de fevereiro de 2025, Rayanna perguntou: “Qual o endereço, Dani?” e avisou: “As meninas estão prontas”. Vorcaro indicou endereço na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, em São Paulo. Em 7 de março, ela voltou: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né?”; “Ela disse que ficou com o kassio”; “Ela tá me cobrando aqui”. Vorcaro pediu “dados e valor”. Rayanna respondeu “10 né!” e “Ela ficou com ele”.
O ministro negou ao Metrópoles qualquer encontro com a mulher. A assessoria informou ao Estadão que ele “não tem conhecimento sobre o contexto” dessas mensagens.
IMPORTANTE: As mensagens extraídas do celular de Vorcaro são fato documental da investigação. Elas não equivalem, por si sós, a prova de que o ministro tenha recebido pagamento, autorizado contrato ou comparecido ao encontro citado por Rayanna. Kevin Marques reconhece valores da Consult e nega vínculo com o Master. Nunes Marques nega mensagens com Vorcaro, serviços do filho ao banco e o encontro. A decisão de deixar a sessão foi formalizada como impedimento ligado à presidência do TSE, não como reconhecimento das acusações.
O que as mensagens mostram sobre o filho de Fux?
No mesmo pacote, Vorcaro pede ajuda a Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, em novembro de 2024, “para me ajudar num caso”, conforme a coluna de Bela Megale, no O Globo, e a CNN Brasil. Houve videoconferência, envio de documento e combinações de encontros no Rio e em Brasília. Em uma troca, Rodrigo escreveu “Tapete vermelho, irmão”.
O escritório de Rodrigo Fux divulgou nota com cinco pontos: nunca advogou para Vorcaro ou para o grupo Master; nunca celebrou contrato; nunca recebeu valores; não atuou em processos rumo ao STF; e o que houve foi “uma tentativa de aproximação comercial por parte de Daniel Vorcaro e seus sócios” que “jamais se concretizou”, mais de um ano antes das notícias criminais sobre o banqueiro. A íntegra foi reproduzida por O Globo.
O UOL informou ainda que Fux e Nunes Marques constavam em versões iniciais da proposta de delação de Vorcaro e foram retirados da última versão enviada em junho à PGR e à PF. As três versões teriam sido recusadas.
Por que isso importa para o julgamento de Moraes?
A pauta da terça não julga crime de Moraes. Julga se o plenário autoriza investigação a partir do relatório da PF sobre interações de Vorcaro com o ministro — material que inclui dezenas de mensagens e a discussão sobre contrato do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes. Moraes nega autoria de mensagens e chama de nula a apuração determinada por André Mendonça sem pedido prévio da PGR.
A divulgação simultânea de diálogos sobre o entorno de outros ministros deslocou o eixo político da sessão. Aliados de Moraes já vinham sustentando que o exame não poderia se restringir a um único gabinete. Dois dias antes, o Urbs Magna registrou o argumento que circulava contra Fux e Kassio, reunindo os R$ 6,6 milhões e um camarote associado à Vorcarona Sapucaí: R$ 6,6 milhões e um camarote na Sapucaí.
O impedimento de Nunes Marques e a suspeição de Toffoli esvaziam votos da ala mais próxima de Mendonça no momento em que a Corte decide se aplica a um de seus membros o mesmo rigor investigatório que o Supremo cobra de outros poderes. O ponto institucional em disputa é a igualdade de tratamento: ou a Corte abre a apuração com método e contraditório, ou reforça a percepção de seletividade. Nenhuma das duas saídas é neutra para a credibilidade do Judiciário a menos de um mês do primeiro turno.
O que acontece agora?
Fachin interrompeu a sessão por volta das 13h, com previsão de retorno às 14h, segundo a Agência Brasil. A análise da conduta de Mendonça permanece marcada para 23 de setembro.
A questão que segue aberta é se o plenário tratará os novos diálogos como contexto obrigatório da crise do Master ou os manterá como ruído paralelo ao caso Moraes.
FAQ rápido
Nunes Marques “fugiu” da sessão?
Não. Fontes jornalísticas registram que ele se declarou impedido, pediu autorização a Fachin e deixou o plenário. A saída ocorreu depois da divulgação das mensagens, mas a justificativa formal apresentada foi a presidência do TSE e o risco de impacto eleitoral.
Kevin Marques recebeu R$ 500 mil por meio do Master?
As mensagens de Renno à Vorcaaro falam em “500 mil me^s” e na Consult. A defesa do advogado nega pagamento de Vorcaaro ou do banco e admite R$ 281,6 mil recebidos da Consult por serviços tributários. O valor mensal citado no diálogo não foi comprovado publicamente como transferência direta ao filho do ministro.
O encontro de R$ 10 mil está comprovado?
Há mensagens em que Rayanna afirma que uma amiga “ficou com o kassio” e cobra “10”. O ministro nega o encontro. As conversas estão no celular de Vorcaro; a presença do magistrado no endereço de São Paulo não foi demonstrada nas reportagens consultadas.
Atualização: à tarde desta terça-feira (15/set), a Agência Brasil informou que Fachin interrompeu a sessão por volta das 13h, com retorno previsto para as 14h. Novas informações poderão ser acrescentadas à medida que fontes confiáveis confirmarem o placar e os votos.
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