‘Mexeram em toda a sua vida e não acharam nenhuma conta’, diz Boff sobre Lula e a injusta referência golpista ‘ladrão’

O teólogo, que conhece o Presidente há mais de 40 anos, conta como alguém que só queria torcer para o Corinthians se tornou o Estadista mais influente do mundo: “… pela primeira vez em nossa história organizou uma política em que todos ganharam, inclusive os endinheirados”

O que mais ofende a Lula é ser chamado de ‘ladrão‘”, diz o teólogo Leonardo Boff em um tuíte recente. “Quando o visitei por 2 vezes na prisão me disse: ‘Você que dá palestras por aí,diga que nunca peguei 50 centavos de alguém nem dei 50 centavos. Quem afirma que sou ladrão é mentiroso‘”.

O resultado de todas as injustas referências a Lula, que ganharam força com a também injusta lava jato comandada pelo ex-juiz suspeito Sergio Moro, foi que, usando as palavras de Boff, “mexeram em toda sua vida, não acharam nenhuma conta“. Sobre a operação, até mesmo o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, declarou em 2019 que, “no fundo, é um jogo de compadres. É uma organização criminosa para investigar pessoas”.

As palavras de Boff no tuíte a seguir estão contidas em um belo artigo sobre Lula, escrito há um mês. Veja abaixo e leia a seguir:

Em artigo publicado há um mês, Leonardo Boff diz que a mãe de Lula, a dona Lindu, “soube educar toda a prole. A este homem lhe inculcou na cabeça e no coração: Nunca desista. Nunca roube. Nunca minta. Esse imperativo ético marcou toda sua vida“.

O religioso diz no longo texto que Lulapor um bom tempo foi totalmente despolitizado” e “aprendeu por experiência, sem nada conhecer de Marx, o que era a mais-valia“. Com o curso de torneiro mecânico e “com a pouca experiência inicial, produziu tal e tal produto. Foi melhorando a ponto de, com mais destreza e rapidez, produzir mais e mais do mesmo produto”.

Mas o salário continuava o mesmo. Para quem ia o lucro do excedente de sua produção? Não para ele, mas para o patrão. Nisso reside a mais-valia e o mecanismo de acumulação do empresário“, escreveu Boff sobre o despertar “para a injustiça feita aos trabalhadores“. A partir deste insight, Lulase tornou líder sindical. Enfrentou a ditadura militar. Foi preso” e, “solto, liberou a águia que escondia dentro de si. Emergiu seu carisma de líder. Sabia com honestidade negociar com os patrões na lógica do ganha-ganha“.

De acordo com o teólogo Lulapensou: os poderosos governaram por todo o tempo de nossa história. Governaram só para eles. Nunca nos incluíram. Éramos carvão a ser queimado na produção de suas fábricas. Por que nós, trabalhadores que somos maioria, não podemos também governar o nosso país e governar até melhor, para todos, a começar pelos mais explorados e marginalizados?

Assim, lembra Boff, Lula, “junto com outros, fundou o PT (Partido dos Trabalhadores), candidatou-se para governador e para presidente do país. Sempre perdeu. Mas nunca renunciou ao impulso interior, inspirado por sua mãe: nunca desista. Insistia em suas intervenções: devemos permitir que todos possam comer pelo menos três vezes ao dia, ter sua casinha com luz elétrica, poder se educar e mandar seus filhos e filhas para escolas de qualidade. Ter alegria de viver e de conviver“.

Leia a sequência do belo artigo de Leonardo Boff:

“E quis o Mistério de todas as coisas, que ele, do andar debaixo, da marginalização e da exclusão chegasse ao poder central do país. Pela primeira vez em nossa história, um condenado da Terra organizou, como presidente, uma política em que todos ganharam, inclusive os endinheirados, mas sobretudo aqueles que há dezenas de anos estavam no mapa da fome.

Não se ouviam mais os gritos caninos das crianças puxando a saia de suas mães, pedindo comida que lhes faltava. Milhões foram incluídos na sociedade, milhares de pobres e de afrodescendentes, mediante cotas, puderam frequentar os cursos superiores. Indígenas, quilombolas, mulheres e outros de outra orientação sexual encontraram nele compreensão e defesa. Mais que matar a fome, devolveu-lhes dignidade humana.

Alguém se levanta, não sem certa arrogância, e anuncia: ”Deus me escolheu para salvar o país; está inscrito até no meu nome Messias.” O outro apenas diz: ”Agradeço a Deus por ter permitido que eu chegasse até aqui e poder dar comida a milhões de pessoas.” Os discursos possuem tons diferentes: um coloca a ênfase num alegado chamamento divino, independentemente de seu esforço. O outro lutou e se esforçou para cumprir esse propósito. E agradece a Deus, depois de muita luta e incansáveis sacrifícios.

O mundo acompanhou tudo. Como presidente, os chefes de estado disputavam ouvir suas experiências e conselhos. Emergiu como uma das maiores lideranças mundiais. Convidado a apoiar a guerra contra o Iraque, respondeu sabiamente: minha guerra não é contra um povo, é contra a fome e a miséria de milhões do meu país e da humanidade.

Tudo o que está sadio pode ficar doente. Setores de seu governo foram acometidos pela doença da corrupção. Foram denunciados e punidos. Mas jamais se provou que este homem tirou algum proveito pessoal da corrupção em razão de sua condição de presidente.

Se há algo que o irrita profundamente é quando o chamam de ladrão. Onde está sua mansão? Onde estão suas contas bancárias no Brasil, no exterior ou em algum paraíso fiscal? Alguém pode apontá-lo sem mentir? Como candidato, sua vida foi vasculhada nos mínimos detalhes. Nada se encontrou. Nem um apartamento, no qual nunca morou, nem um sítio de um amigo que nunca lhe pertenceu. Vive num apartamento como qualquer cidadão que ocupou o cargo que ocupou, bom mas modesto.

Conheço e testemunho a transparência, a honestidade e a inteireza deste homem. Disse-me algumas vezes: você que fala a numerosos auditórios, diga, em meu nome: jamais dei cinquenta centavos a alguém, jamais recebi cinquenta centavos de alguém. Nunca me apropriei de nada. E se esse acusador continua a afirmar que sou ladrão, diga que é mentiroso. E se persistir a afirmá-lo, desafie-o a ir à justiça, mostrar as provas para o acusar de ladrão. Confirma, se fui pessoalmente ladrão, aceitarei o rigor da lei. Devolverei em dobro tudo o que falsamente teria roubado. Quero ser preso.

Conheço um homem que suportou todo tipo de calúnia, de difamação e de humilhação. Sua esposa morreu de tristeza. Seu neto que faleceu precocemente lhe criaram mil dificuldades para se despedir de seu ente querido. Quando partiu desse mundo o irmão mais velho que o tinha como pai, levaram-no para um curto velório, cercado de soldados armados como se conduzissem um perigoso celerado.

Invadiram sua casa sem aviso prévio. Vasculharam tudo, os colchões e levaram até os brinquedos dos netos até hoje não devolvidos. Por fim, um juiz reconhecido pela Suprema Corte (STF) como parcial e em razão disso, posteriormente os processos movidos contra ele, foram invalidados.

O juiz corrupto e parcial o condenou ”por um crime indeterminado”, coisa que não se encontra em nenhum código penal, nem do ancestral de Hamurabi, alguns milênios antes de nossa era. Por 580 dias foi mantido preso sob rigorosa vigilância. Podia ter resistido ou se refugiado em alguma embaixada. Não. Ficou junto de seu povo.

Na prisão revisou sua vida, os acertos e equívocos de seu governo, estudou em profundidade os aspectos principais de nosso país e da geopolítica mundial. Espiritualizou-se e saiu cheio de humanismo, de esperança e de determinação de trabalhar especialmente pelos pobres.

Mas sua prisão teve uma consequência perversa: abriu caminho para presidente a uma figura sinistra, inimiga da vida e de seu povo, movida pela pulsão de morte e de ódio. Seu negacionismo e sua total ausência de empatia permitiu, impassível, a morte de, pelo menos, de 300 mil pessoas pelo coronavírus.

Veio a eleição. Seu adversário que excede em ignorância, brutalidade e, com uma mente assassina, usou todos os meios possíveis e impossíveis para derrotá-lo, desde a corrupção de um bilionário orçamento secreto até todo o aparelho de Estado, dentro do qual funcionava o gabinete do ódio. Este difundia mentiras, fake news, calúnias e obscenidades contra ele. Até o aparato policial do Estado foi acionado em favor de sua candidatura. Tudo em vão.

Venceu a sensatez contra a irracionalidade, a verdade contra a mentira, o amor contra o ódio. Ele foi proclamado presidente do país. Foi reconhecido pelas mais altas autoridades do país, do mundo, entre eles Xi JinpingBiden e Putin. Mesmo sem ser empossado, já foi convidado para a COP-27, no Egito, para discutir o novo regime climático e para Davos, onde os senhores das fortunas se reúnem para ouvir seu tipo de economia, já que a presente está agônica.

Conheço este homem, carismático, cordial, incapaz de ter ódio no coração e pronto a dialogar com todos. De sua boca ouvimos e de seu exemplo aprendemos que importa sempre defender a democracia, dar centralidade aos pobres, defender a Amazônia contra a voracidade do capital selvagem e buscar um mundo que seja bom para todos e que será. Como disse um presidente: “O mundo tem saudades deste homem.”

Ele merece a maior comenda que a tradição bíblico-judaica dá a um benemérito cidadão do mundo. Eu conheço e testemunho um homem que por sua vida, por seu exemplo e pelo cuidado de seu povo, tornou-se efetivamente um Justo entre as Nações. Seu nome não precisa ser citado. O país o conhece. O mundo o reconhece”.

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