Brasília (DF)
11 de setembro de 2026
O ministro André Mendonça retirou, na noite de quinta-feira (10/set), o sigilo de parte dos autos do caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal, depois de solicitação do presidente da Corte, Edson Fachin.
A abertura parcial importa porque antecipa o julgamento de terça-feira (15/set) e porque peças da Polícia Federal apontam que Daniel Vorcaro conhecia a operação contra ele antes da deflagração.
O que Mendonça tornou público?
Mendonça escreveu que agia “em harmonia à solicitação formulada pelo eminente presidente, ministro Edson Fachin” e promoveu o levantamento do sigilo da Petição 15.556 e de procedimentos a ela ligados. O despacho foi reproduzido por CNN Brasil, G1, Folha de S.Paulo e Valor Econômico.
A lista publicada inclui os Inquéritos 5.026 e 5.035, a Reclamação 88.121 e as Petições 15.198, 15.478, 15.504, 15.562, 15.563, 15.693, 15.976, 15.977, 15.978, 16.019 e 16.662.
O ministro registrou ainda que cópia integral dos autos seria remetida “em HD próprio” à Presidência e aos gabinetes.Fachin pediu a remessa e a publicidade “de ofício”, segundo a CNN Brasil, com uma ressalva: diligências cujo sigilo seja “imprescindível à realização da medida” podem permanecer reservadas.
A BBC News Brasil antecipou a expectativa de publicação de dezenas de procedimentos a partir desta sexta-feira (11/set).
A sessão de terça trata da Petição 16.662, formada a partir da investigação-mãe. Nela estão mensagens extraídas do celular de Vorcaro e atribuídas pela PF a um contato salvo como interlocutor de Alexandre de Moraes.
Esse núcleo já havia tido sigilo reduzido em 1º de setembro e está no centro da crise interna do STF.
O que ficou de fora do sigilo?
A abertura não foi total. Permaneceram reservadas frentes que não foram incluídas no despacho de quinta. Entre elas está a apuração sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
Nessa linha constam conversas em que o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pede recursos a Vorcaro. O JOTA aponta como ainda reservadas peças que citam o senador Ciro Nogueira, a fase que atingiu a Rioprevidência e o ex-governador Cláudio Castro, e a apuração que levou à prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
O G1 registra, ainda, que não teve o sigilo derrubado a investigação sobre a relação entre o senador Jaques Wagner e o ex-sócio do Master Augusto Ferreira Lima. Como esses autos continuam reservados, as acusações neles contidas não podem ser tratadas como fato julgado.
A decisão de quinta-feira (10/set) não torna público o caso Master inteiro. Publica o núcleo da Petição 15.556 e procedimentos listados por Mendonça. Diligências em curso e inquéritos não incluídos — entre eles o do filme Dark Horse — podem seguir em segredo. Publicidade de autos não equivale a condenação.
Vorcaro antecipou a operação da PF?
Peças agora acessíveis sustentam a segunda parte do título. Em pedido de prorrogação de inquérito de novembro de 2025, tornado público após o despacho, a delegada responsável escreveu, segundo a CNN Brasil:“Já foram consolidados indícios veementes de que o investigado, Daniel Bueno Vorcaro, soube de maneira antecipada e antes da deflagração não apenas o fato de existir investigação criminal em curso, mas também a vara, o nome do juiz que conduzia o feito, bem como o nome de diversos membros da equipe de investigação.”
O G1 reconstruiu a sequência:
- em 21 de outubro de 2025, Vorcaro anotou nomes de representantes da PF que teriam participado de reunião reservada com o Banco Central;
- em 16 de novembro, registrou dúvida sobre proximidade de terceiro com o juiz federal Ricardo Soares Leite;
- em 17 de novembro, depois de mensagens do advogado Walfrido Warde, alterou planos de voo, acompanhou reportagem que citava inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília e articulou contato com servidores do BC;
- na noite de 17 de novembro, foi interceptado no aeroporto de Guarulhos ao tentar embarcar em jato particular com destino aos Emirados Árabes Unidos;
- em 18 de novembro de 2025, a Operação Compliance Zero foi deflagrada.
A PF conclui haver “fortes elementos indicativos” de conhecimento antecipado de atos processuais e de planejamento de saída do país na janela da operação. O relatório não fecha, sozinho, a origem do vazamento.
Como o pedido de Flávio Bolsonaro entra nesta abertura?
O nexo eleitoral não nasce do despacho de quinta. Nasce do que o despacho deixou de lado. Em 13 de maio, o Intercept Brasil divulgou áudios e mensagens em que Flávio cobra Vorcaro por parcelas do patrocínio de Dark Horse. O senador admitiu o pedido e o descreveu como patrocínio privado.
Reportagens do G1 e da CNN Brasil repetiram os valores negociados: cerca de US$ 24 milhões (à época, cerca de R$ 134 milhões), com pagamentos já feitos na casa de US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões). Em 16 de novembro de 2025 — véspera da prisão de Vorcaro — Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre.”
A cobrança pública sobre a destinação desse dinheiro e sobre o trajeto dos recursos para os Estados Unidos já havia sido feita pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, conforme matéria anterior deste portal. Mendonça autorizou inquérito da PF sobre os repasses. Esse inquérito, segundo o JOTA, não entrou no pacote destampado na quinta.
Na terça-feira (8/set), o candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, usou a rádio Novabrasil FM para colar o Master à campanha de Flávio. segundo o G1:“O Banco Master financiou a campanha do Jair Bolsonaro e do Tarcísio de Freitas, não foi a minha e nem a do presidente Lula. […] Quem liquidou o Banco Master foi o governo Lula. Quem prendeu o Daniel Vorcaro foi a Polícia Federal do governo Lula.”
E: “Se o Flávio Bolsonaro for eleito, o Vorcaro não fica na cadeia. Pode anotar o que eu estou falando.”
Haddad atribuiu o crescimento do banco ao período de Roberto Campos Neto no BC, indicado por Jair Bolsonaro, e citou ministros daquela gestão e doações do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. São declarações de campanha, não sentença judicial.
Por que Fachin pediu a queda do sigilo agora?
O presidente do STF vinculou o pedido à organização da sessão extraordinária de terça. A Petição 16.662 deriva da Petição 15.556. Sem cópia comum e sem publicidade mínima, o plenário julgaria material que só o relator conhecia por inteiro.A solicitação chega depois de uma semana de choque institucional: relatório da PF sobre mensagens atribuídas a Moraes, pedido de investigação contra Mendonça, afastamento e recondução do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e intervenção de Flávio Dino, episódio já registrado neste portal.
O Estadão descreveu o movimento de Fachin como tentativa de conter a crise aberta pela divulgação seletiva de relatórios.
A análise aponta o seguinte recorte, distinto dos despachos: a Corte publicou o que precisa para o julgamento de terça e manteve opaco o capítulo que mais pressiona a candidatura de Flávio. Isso não prova, por si, proteção eleitoral. Prova uma escolha de alcance.
Em ano de Eleições 2026, a diferença entre o que o eleitor pode ler e o que permanece nos gabinetes passa a ser fato político, mesmo quando o vocabulário do despacho é apenas administrativo.
O que acontece agora?
Os ministros devem receber o HD com a cópia dos autos. Na terça-feira (15/set), o plenário discute o relatório da PF sobre as mensagens atribuídas a Moraes e o pedido da PGR relativo a esse material. Diligências ainda consideradas imprescindíveis podem continuar secretas.
O inquérito de Dark Horse segue, até nova decisão, fora da vitrine.
A apuração sobre antecipação da operação pela PF também não se encerra com a publicidade: saber que Vorcaro conhecia vara, juiz e equipe não identifica quem vazou.
FAQ rápido
O sigilo do caso Master acabou de vez?
Não. Mendonça levantou o segredo da Petição 15.556 e de 14 procedimentos relacionados. Frentes como Dark Horse permaneceram reservadas, conforme G1 e JOTA.
A PF afirma que Vorcaro soube da operação antes?
Sim. Documento de novembro de 2025, agora público, fala em “indícios veementes” de que ele conhecia a existência do inquérito, a vara, o juiz e integrantes da equipe, segundo CNN Brasil e G1.
O pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro foi incluído na abertura?
Não. O financiamento de Dark Horse ficou de fora do pacote destampado na quinta. O senador admitiu o pedido de patrocínio em maio; o inquérito específico sobre os repasses continua sob reserva.
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