| Brasília (DF)
04 de setembro de 2026
O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou as denúncias do Banco Master como gravíssimas e cobrou investigação imediata sobre o pedido de dezenas de milhões de dólares feito por um senador candidato à Presidência a um banqueiro preso, para um filme gravado no Brasil cujo dinheiro foi parar nos Estados Unidos.
O que Alckmin disse?
Em texto publicado nas redes sociais, Alckmin escreveu que “as denúncias envolvendo o Banco Master são gravíssimas e precisam ser investigadas imediatamente”. Sem citar o nome do parlamentar no trecho inicial, descreveu o episódio em detalhes:
“Há mais de 120 dias, foi revelado que um senador candidato à Presidência da República pediu a um banqueiro, preso por operar fraudes financeiras e desviar dinheiro de aposentados, dezenas de milhões de dólares pra bancar um filme de forma, no mínimo, suspeita.”
O vice-presidente acrescentou que a obra foi “gravado no Brasil”, que “o dinheiro foi parar nos Estados Unidos” e que, “até agora não se sabe pra que foi usado, sem notas fiscais ou contratos apresentados”.
A descrição corresponde ao caso do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel. A reportagem original saiu no The Intercept Brasil em 13 de maio. O G1 e a Folha de S.Paulo confirmaram o conteúdo das mensagens e do áudio.
Quem pediu o dinheiro e o que as mensagens mostram?
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do partido à Presidência, confirmou depois o pedido de patrocínio a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo o Intercept, o acerto chegou a cerca de US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões à época). Relatos confirmados pelo G1 e pela Folha apontam que ao menos R$ 61 milhões teriam sido liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Em áudio de 8 de setembro de 2025, reproduzido pela imprensa, Flávio cobra parcelas atrasadas e fala em “momento muito decisivo do filme”. Em mensagem de 16 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro, o senador escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. A Folha registrou que, meses antes, o parlamentar havia negado contato com o banqueiro.
Flávio passou a sustentar que se tratava de “patrocínio privado para um filme privado”, com “zero de dinheiro público”. Em 28 de agosto, segundo a Folha e a Veja, recusou-se a detalhar contratos, planilha de gastos e demais investidores. O Estadão já havia registrado a ausência de prestação de contas pública meses após a promessa inicial.
Como o dinheiro gravado no Brasil foi para os Estados Unidos?
A pergunta de Alckmin encontra respaldo nas apurações jornalísticas. O Intercept publicou comprovantes de transferências a um fundo no Texas, o Havengate Development Fund LP, ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. A CBN informou que a Polícia Federal passou a investigar o destino de milhões de dólares enviados a esse fundo. O The New York Times descreveu o mesmo percurso financeiro.
Perícia apresentada pela produtora Go Up Entertainment, relatada pelo Estadão e pela Folha, aponta custos no Brasil e nos Estados Unidos, com o grosso da despesa no exterior. A perícia privada não substitui a apresentação pública de notas fiscais e contratos cobrada por Alckmin.
Em julho, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou inquérito da Polícia Federal sobre os repasses, conforme a BBC News Brasil.
IMPORTANTE: A fala de Alckmin não equivale a sentença. O vice-presidente descreveu o pedido de dinheiro e a ausência de explicação pública. Flávio Bolsonaro admite o patrocínio e nega irregularidade, contrapartida ou uso de recurso público. A Polícia Federal e o Ministério Público apuram o destino dos valores. Até o fechamento desta matéria, não havia condenação do senador por esse episódio.
Por que Alckmin pede o fim do sigilo?
Depois de tratar do filme, Alckmin ampliou o alvo:
“Para além disso, temos acompanhado vazamentos seletivos de investigações sobre sigilo legal. É preciso levantar o sigilo de todas as investigações e processos sobre o Banco Master, doa a quem doer, independente do cargo ou da função pública.”
A fórmula ecoa o vídeo de Lula na quinta-feira (03/set), no qual o presidente classificou o caso Master como “o maior roubo da história do Brasil” e pediu investigação “sem blindagem de ninguém, doa a quem doer”, segundo Folha, Reuters e Valor Econômico.
Alckmin afirmou que o governo, a Polícia Federal e o Ministério Público “têm atuado com total autonomia e independência, sem qualquer interferência, e seguirá assim”. E concluiu: “O presidente Lula está correto: o Brasil precisa conhecer a verdade”.
O pedido de publicidade ocorre depois de o ministro André Mendonça retirar, na terça-feira (01/set), o sigilo de autos que citam mensagens atribuídas a Alexandre de Moraes. O Banco Central, em outro extremo, impôs sigilo de oito anos a documentos da liquidação do Master, segundo a CNN Brasil.
Qual é o tamanho do caso Master?
Vorcaro foi preso na Operação Compliance Zero. O Banco Central liquidou o Banco Master em novembro de 2025. A Polícia Federal apura fraude financeira de dimensão bilionária, com prejuízo a investidores e fundos de pensão — o que sustenta a menção de Alckmin a dinheiro de aposentados. O G1 resume o esquema como inflação artificial do valor do banco para atrair aplicações sem lastro correspondente.
O caso atravessa a disputa presidencial. Reportagens da Folha e do Financial Times, repercutido pela BBC, trataram o filme como fator de desgaste da candidatura de Flávio. Em maio, Alckmin já havia dito que o “clã Bolsonaro” gerava “factoides” para sair do tema Master, conforme UOL e Estadão.
A declaração de agora desloca o debate do sigilo seletivo para uma exigência simétrica: se há interesse público nas mensagens envolvendo autoridades do STF, o mesmo padrão deveria valer para o rastro do dinheiro do filme e para o conjunto das apurações do Master. A diferenciação importa. Fato é o pedido documentado de recursos e a transferência a fundo nos Estados Unidos. Interpretação política é tratar o episódio como risco à candidatura do PL. Isso último não está na sentença de nenhum tribunal.
O que acontece agora?
Alckmin encerrou o recado cobrando celeridade das instituições:
“Queremos que todos os fatos venham à tona o mais rápido possível e que as instituições cumpram com seus deveres institucionais. O fortalecimento e a credibilidade das nossas instituições são indispensáveis para que o nosso país siga adiante com confiança.”
A estreia de Dark Horse foi anunciada por Jim Caviezel para 11 de setembro, segundo o G1. A campanha de Lula já usou o áudio de Flávio em peça digital, conforme o JC. A pergunta deixada pelo vice-presidente permanece aberta: para que o dinheiro enviado aos Estados Unidos foi usado, e por que a documentação completa não foi apresentada ao público?
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