| Brasília (DF)
07 de setembro de 2026
Um vídeo da jornalista Daniela Lima viraliza nas redes sociais nesta segunda-feira (07/set). A fala da comentarista descreve a concentração dos inquéritos do Banco Master e do INSS no mesmo gabinete de André Mendonça, do STF, e o atrito com a Polícia Federal em ano eleitoral.
Sobre a análise, uma conta na plataforma de microblog X conclui que o ministro “está sim interferindo nas eleições do Brasil e deveria ser destituído”.
A postagem na rede social é embasada no diagnóstico institucional feito pela jornalista. Assim, o perfil acrescenta seu juízo político, ainda que ele não tenha sido formulado no trecho reproduzido.
O vídeo, de cerca de cinco minutos, circulou com a tese de que o relator dos dois inquéritos de maior ruído nacional disputa com a corporação o acesso a dados “antes das perícias”.
O perfil no X afirma que Daniela Lima “destacou que o ministro André Mendonça vem concentrando casos de grande repercussão, como Master e INSS, e disputando com a PF o acesso a dados antes das perícias”. A dona da conta opina que “Mendonça está, sim, interferindo nas eleições do Brasil e deveria ser destituído”.
O que Daniela Lima descreveu no vídeo?
No trecho usado nas redes, a apresentadora do Pulso Político, no UOL, afirma que duas investigações de “forte potencial lesivo” para “todos os espectros políticos” estão “nas mãos de um mesmo personagem”: André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Ela descreve “uma queda de braço bastante efusiva” com a Polícia Federal. Segundo a jornalista, o ministro “tá tentando puxar para si o controle” dos casos do Master e do “Escândalo do INSS”, “a ponto de tá reivindicando a posse para o gabinete dele de todos os dados levantados pela Polícia Federal, seja antes de perícia, seja antes de qualquer coisa”.
Daniela Lima compara o movimento ao que Dias Toffoli teria feito “lá no início do escândalo do Master”, ao mandar que materiais apreendidos no caso ligado a Daniel Vorcaro fossem “enviadas diretamente ao Supremo” e analisadas por peritos “escolhidos por ele”. A formulação da comentarista é direta: “André Mendonça não foi tão longe, mas tá quase.”
No mesmo trecho, ela diz que a repercussão “dentro da PF” levou a corporação a “buscar maior autonomia” e a acionar a Advocacia-Geral da União.
Os dois casos com Mendonça
Reportagens da CNN Brasil, do g1 e da Folha de S.Paulo registram que Mendonça herdou de Toffoli a relatoria das fraudes do INSS e, em 12 de fevereiro, foi sorteado relator do Banco Master depois que o colega deixou o caso.
A saída de Toffoli do Master ocorreu após a PF encaminhar ao STF material extraído do celular de Daniel Vorcaro com menções ao então relator. A CNN Brasil noticiou o sorteio entre os ministros, sem Toffoli e sem o presidente Edson Fachin.
O cruzamento dos dois inquéritos não é apenas simbólico. Há pontes factuais no crédito consignado, nas fraudes contra aposentados e na trajetória do próprio Master, liquidado pelo Banco Central.
Atrito com a Polícia Federal
O g1 descreveu “desconfiança recíproca” entre o gabinete de Mendonça e o diretor-geral Andrei Rodrigues. Uma das primeiras decisões do ministro no Master restringiu o compartilhamento de informações com superiores da corporação.
No caso do INSS, a CNN Brasil mostrou que a PF pediu à AGU recurso contra ordem de Mendonça para compartilhar dados brutos da apuração — inclusive material ligado a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — e contra a exigência de comunicar mudanças de equipe. O advogado-geral Jorge Messias resistiu a judicializar o conflito.
O O Globo listou os mesmos pontos de atrito: fluxo de provas, sigilo interno da polícia e ritmo das diligências. Em 3 de setembro, o jornal registrou que a PF atribuiu ao ministro “efetiva participação nas tratativas de colaboração premiada” das operações Compliance Zero (Master) e Sem Desconto (INSS).
IMPORTANTE: A destinação de inquéritos a um relator do STF não equivale, por si só, a interferência eleitoral. Relatoria é função prevista no regimento da Corte. O que está em disputa pública é o modo de condução: acesso a material bruto antes da perícia, limites impostos à cadeia de comando da PF e o fato de os dois processos de maior carga política do ano estarem no mesmo gabinete.
Pedido de destituição nas redes também não produz efeito jurídico automático. Ministro do STF só perde o cargo por impeachment no Senado, por crime de responsabilidade, nos termos da Constituição.
Lulinha e o eleitor em disputa
Daniela Lima separa duas frentes. Na primeira, afirma que Lula mantém o discurso de que “não vai ter blindagem” e que o filho “se errou, vai ter que pagar”. Em seguida, pergunta se a linha “vai colar”.
Para o eleitorado que já rejeita o presidente, ela avalia que o episódio “é mais um escândalo a adornar” a tese de governo “ultracorrupto”. Para o campo de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva, diz que ainda prevalece o dado de que “nem a CPI, nem a própria Polícia Federal e nem mesmo o Supremo Tribunal Federal encontraram indícios ou provas de que Lulinha tenha recebido dinheiro ilegal” por serviços ligados ao esquema do INSS.
A comentarista desloca o centro da nova apuração: não se trata mais, nesse recorte, de desvio comprovado de benefício previdenciário na conta do filho do presidente, e sim de saber se houve “advocacia administrativa” — “lobby usando o sobrenome da família do presidente da República para obtenção de contratos mais vantajosos na esfera federal”.
Ela cita a conexão entre um personagem do escândalo do INSS e “uma amiga do filho do presidente” que “advogava a favor de empresas” na esfera federal. A imprensa identificou Roberta Luchsinger nesse papel, apontada pela PF como elo com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conforme Folha de S.Paulo e Veja. A defesa da empresária nega irregularidade e pede arquivamento.
Os 20%
Daniela Lima ancora o efeito político no eleitor “não polarizado” da pesquisa Nexus/BTG Pactual: “São 20%, Felipe, de cada 10, dois”. Nesse grupo, afirma, “os novos desdobramentos e a posição que o ministro André Mendonça vai assumir, ou os novos dados que a PF vai trazer”, podem produzir impacto. Nos polos já fechados, prevê narrativa de acusação de um lado e de blindagem do outro.
A CNN Brasil e a CartaCapital confirmaram o recorte de cerca de 20% e o peso desse segmento na margem da disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Crise no STF altera o quadro
A repercussão do vídeo ocorre depois de uma semana em que o próprio Supremo virou palco da briga. Em 3 de setembro, Alexandre de Moraes pediu apuração contra Mendonça no inquérito das fake news. Em 4 de setembro, Fachin retirou esse pedido daquela apuração, conforme a Reuters. No mesmo período, o g1 informou que Mendonça não pretende abrir mão da relatoria do Master.
O portal Urbs Magna já registrou a escalada em crise no STF após Moraes pedir investigação de Mendonça e o recado cruzado de Davi Alcolumbre sobre impeachment, em outra matéria, também no Urbs Magna. Outra matéria relevante do Urbs Magna doi a do historiador qie classificou o ministro como ameaça à democracia. São leituras editoriais e declarações públicas, não sentença judicial.
O vídeo de Daniela Lima ganhou força nas redes porque traduz, em linguagem de campanha, um conflito já descrito pela imprensa institucional: um ministro indicado por Jair Bolsonaro, relator simultâneo de dois inquéritos capazes de atingir governo e oposição, em tensão aberta com a polícia investigativa, a menos de um mês do primeiro turno.
O ponto que permanece aberto é o mesmo isolado pela comentarista: o que a PF ainda pode trazer sobre advocacia administrativa e o que o gabinete de Mendonça fará com esses dados. É nessa zona que a urna dos não polarizados pode se mover.
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