Vamos reagir juntos ao vídeo do ministro André Mendonça? Poucas vezes na história tanto absurdo foi cometido em menos de 1 minuto. Assista ao vídeo e vamos conversar? pic.twitter.com/DA9JlDWYW2
— João Cezar de Castro Rocha (@joaocezar1965) September 6, 2026
| Rio de Janeiro (RJ)
06 de setembro de 2026
O historiador João Cezar de Castro Rocha publicou no domingo (06/set) um vídeo em que rebate, frase a frase, a mensagem gravada pelo ministro André Mendonça, do STF.
O professor titular de Literatura Comparada da UERJ afirma que o magistrado falou apenas ao público evangélico, misturou toga e púlpito e se tornou “uma ameaça à democracia”.
O recado chega no meio da crise no STF e depois da revelação de contratos milionários do Instituto Iter com o poder público.
O que o ministro disse e a quem se dirigiu?
Na sexta-feira (04/set), André Mendonça divulgou um vídeo curto, reproduzido por lideranças religiosas e pela deputada Bia Kicis. A fala, confirmada por VEJA e pelo G1, começa assim:
“Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer.”
O ministro agradece “tantas mensagens de oração e de carinho”, diz que as preces “têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família” e encerra: “Que Deus os abençoe e que Deus abençoe o nosso país.” Relatos jornalísticos descrevem o gesto de bênção ao final da gravação.
João Cezar de Castro Rocha corta a primeira frase:
“O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não está falando com o Brasil, não está falando com a cidadania. Não se trata de dirigir uma mensagem aos cidadãos e cidadãs brasileiras, mas aos irmãos e às irmãs, isto é, ele decidiu falar exclusivamente com o público evangélico.”
Por que o historiador fala em enriquecimento e no Instituto Iter?
Quando Mendonça atribui às preces o sustento da família, o professor pergunta para que Deus teria sido “fundamental” e aponta o Instituto Iter — “caminho, percurso, jornada em latim”, na explicação do próprio historiador.
“Deus tem sido fundamental para o quê, ministro? Para o seu enriquecimento à frente do instituto Iter […] o caminho para o enriquecimento do seu próprio bolso? O senhor realizou no seu instituto serviços para órgãos públicos sem licitação, no valor de 11.5 milhões de reais, ministro! Isto não é nada evangélico. O senhor não calça sandálias da humildade, o senhor veste ternos de grifes caríssimas.”
Os números usados por João Cezar encontram eco em apurações publicadas na quinta-feira (03/set). A Folha de S.Paulo informou que o instituto fundado pelo ministro firmou 68 contratos sem licitação com órgãos de 15 estados desde 2024 e recebeu R$ 11,5 milhões, segundo dados do Ministério da Gestão e da Inovação. A Revista Fórum mapeou 55 contratos que somam cerca de R$ 10,8 milhões, 54 deles sem pregão. A BBC News Brasil apontou R$ 10,7 milhões em contratações diretas.
No mesmo 3 de setembro, Mendonça anunciou que deixará a sociedade do Iter e cederá as cotas suas e da esposa, Janei Mendonça, sem contrapartida financeira, segundo a Agência Brasil. O gabinete e o instituto afirmam que o ministro “jamais auferiu lucro”, que não houve distribuição de dividendos e que a contratação direta de cursos se apoia na Lei nº 14.133/2021. O Iter será convertido em entidade sem fins lucrativos; o ministro permaneceria apenas como professor.
IMPORTANTE: Contratação por inexigibilidade ou dispensa não é, por si só, crime. A Lei de Licitações admite essa via para serviços técnicos de natureza intelectual. O que as reportagens documentam é a concentração recorrente de contratos públicos, em valores elevados, numa instituição recém-criada e ligada a um ministro do STF. A acusação de “enriquecimento pessoal” é de João Cezar de Castro Rocha; o ministro e o instituto a contestam.
A solidariedade de quem vale para um ministro da Corte?
Mendonça louva “a generosidade e solidariedade” recebidas. O historiador devolve a pergunta ao plano republicano:
“Quer dizer que para o senhor apenas conta a solidariedade dos evangélicos e das evangélicas? E os brasileiros e as brasileiras que professam outras religiões ou que não professam religião alguma? Para eles, o senhor não tem nenhuma palavra?”
Nessa passagem está o núcleo político do vídeo: um integrante da Corte máxima reduz o destinatário da fala pública à comunidade de fé, no instante em que o tribunal atravessa um conflito interno ligado ao caso Banco Master e ao embate com Alexandre de Moraes.
O gesto de bênção e a laicidade do Estado
O ponto mais áspero vem no encerramento. João Cezar registra o cenário — várias Bíblias ao fundo, inclusive a Nova Almeida Atualizada, herdeira do trabalho de João Ferreira de Almeida — e o gesto de bênção:
“O senhor, ao dizer isso, o senhor fez o gesto da bênção. O senhor não é ungido para abençoar ninguém no Supremo Tribunal Federal. Na sua igreja, no seu templo, o senhor pode ser ungido a abençoar a quem quiser. Como juiz da Suprema Corte, o senhor é o guardião da Constituição.”
E conclui:
“Ministro, o senhor é uma ameaça à democracia. O senhor, fundamentalismo religioso associado a um lavajatismo anacrônico torna o senhor uma verdadeira ameaça. O senhor não tem que falar com irmãos e irmãs, mas com cidadãos e cidadãs do Brasil, ministro.”
A Constituição federal veda à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou relações de dependência com igrejas. O artigo 19 não proíbe a fé privada de um magistrado. Impõe, porém, que o exercício do cargo não confunda a autoridade do Estado com o rito de uma denominação. Sob a ótica deste portal, o conflito não está na oração caseira; está no uso da posição de ministro do STF para abençoar a nação em chave confessional.
Quem é João Cezar de Castro Rocha e por que essa fala pesa
João Cezar de Castro Rocha é professor da UERJ, pesquisador do CNPq e autor de livros sobre a retórica da extrema-direita e a chamada guerra cultural. Já havia escrito e falado, em veículos como Revista Fórum e Brasil 247, sobre o lugar de André Mendonça e Nunes Marques no tabuleiro do bolsonarismo dentro do tribunal. O vídeo deste domingo (06/set) não inventa essa linha: desloca-a para o terreno concreto da linguagem religiosa e dos contratos do Iter.
O que acontece agora?
O Iter anunciou conversão em entidade sem fins lucrativos. Os contratos já firmados seguem nos portais de compras. A crise entre Mendonça e Moraes permanece aberta no colegiado. A fala do historiador não produz efeito jurídico por si. Produz um registro público: o ministro que pede preces aos “irmãos” foi cobrado a falar com cidadãos.
FAQ Rápido
O que João Cezar de Castro Rocha criticou no vídeo de André Mendonça?
A escolha de falar a “irmãos e irmãs”, o gesto de bênção feito por um ministro do STF, o cenário com Bíblias e os contratos do Instituto Iter com órgãos públicos sem licitação.
Os R$ 11,5 milhões citados pelo historiador foram confirmados?
A Folha publicou o mesmo patamar (R$ 11,5 milhões em 68 contratos). Outros veículos chegaram a cifras próximas, entre R$ 10,7 milhões e R$ 10,8 milhões, conforme o recorte da base consultada.
Mendonça ainda é sócio do Instituto Iter?
Segundo nota de quinta-feira (03/set), o ministro decidiu deixar a sociedade e doar as cotas do casal, sem contrapartida, e o instituto passará a atuar sem fins lucrativos.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
