| Brasília (DF)
04 de setembro de 2026
O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), fez circular entre parlamentares o recado de que, se a pressão para abrir impeachment de Alexandre de Moraes se tornar insustentável, autorizará também o processo contra André Mendonça. O aviso altera o cálculo da crise entre Congresso e STF.
O que Alcolumbre sinalizou aos senadores?
Segundo apuração do G1, publicada sexta-feira (4/set) no blog de Ana Flor, Alcolumbre comunicou a colegas que, caso a ofensiva contra Moraes deixe de ser contida, o pedido contra Mendonça caminhará na mesma trilha. A fórmula passou a ser descrita nos bastidores como “impeachment cruzado”.
O Correio Braziliense ouviu parlamentares do Centrão com o mesmo teor: o recado teria baixado a temperatura na Casa nos últimos dias, ao substituir uma ofensiva unilateral por um risco simétrico. Nenhum dos dois processos foi instaurado.
A coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, acrescentou que senadores já discutem protocolar representação contra Mendonça com base no material encaminhado por Moraes. Interlocutores de Alcolumbre preferem que o pedido nasça fora do plenário — de advogado, jurista ou entidade — para funcionar como ameaça que não precise ser disparada.
Por que o recado ganhou força agora?
O argumento do presidente do Senado ficou mais concreto na noite de quinta-feira (3/set), quando Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a apuração de Mendonça no inquérito das fake news. Na petição, o ministro apontou indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na relatoria dos casos Master e INSS.
A CNN Brasil registrou o trecho mais explosivo do relatório de inteligência da Polícia Federal citado por Moraes:
“Avalia-se que Davi Alcolumbre constitui provável alvo estratégico, considerada sua força política, o favoritismo para manter-se na presidência do Senado Federal e o consequente controle da pauta daquela Casa, notadamente quanto ao processamento de pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.”
O mesmo documento, reproduzido pela CNN, liga a hipótese a uma desavença antiga: Alcolumbre, então na CCJ, teria sido “grande empecilho” à indicação de Mendonça ao STF no governo Jair Bolsonaro.
A crise explodiu depois que Mendonça, na terça-feira (1/set), determinou o levantamento do sigilo de relatório da PF sobre mensagens e contatos entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O Urbs Magna já havia registrado o pedido de investigação e a abertura, por Fachin, de prazo para explicações.
Moraes e Alcolumbre se reuniram antes da ofensiva?
Sim. A coluna de Malu Gaspar, em O Globo, informou que Moraes passou cerca de três horas na casa de Alcolumbre, no Lago Sul, em Brasília, na quarta-feira (2/set), antes de protocolar o pedido contra o colega. O Metrópoles confirmou o encontro.
Fontes ouvidas pelo jornal afirmaram que o presidente do Senado, aliado de Moraes, vinha repetindo que, se alguém tivesse de responder a impeachment, seria Mendonça. A leitura política, segundo essas fontes, é que o despacho do ministro pavimentou o terreno para o recado simétrico.
Em público, Alcolumbre segue evasivo. Questionado sobre as mensagens de Vorcaro, disse que “não deve achar nada” e repetiu que há 109 pedidos de impeachment contra dez ministros do STF — 66 deles contra Moraes, segundo números que o próprio senador e a Gazeta do Povo citaram. “Isso não é normal”, afirmou.
IMPORTANTE: A sinalização de Alcolumbre não abre, por si só, nenhum processo. Impeachment de ministro do STF é julgamento político por crime de responsabilidade, previsto na Constituição e na Lei nº 1.079/1950. O rito passa pelo exame da denúncia no Senado. Não há, até aqui, comissão especial instalada nem afastamento de Moraes ou de Mendonça. Relatório de inteligência da PF é indício, não sentença.
Como o rito do impeachment funciona no Senado?
A Constituição reserva ao Senado processar e julgar ministros do STF por crime de responsabilidade. Na prática recente, o andamento esbarra na mesa da Presidência. A Lei do Impeachment fala em recebimento da denúncia pela Mesa da Casa, órgão colegiado. O Regimento Interno, porém, concentra no presidente o despacho inicial — arquivar ou seguir.
Essa ambiguidade explica por que a oposição cobra Alcolumbre e por que ele responde com o volume de representações paradas. Em 2025, chegou a dizer que não pautaria o afastamento de Moraes “nem com as assinaturas dos 81 senadores”. Agora o recado muda o tabuleiro: avançar contra um ministro reabre a porta contra o outro.
O que Fachin decidiu nesta sexta-feira?
Ainda na sexta-feira (4/set), conforme o G1, Fachin retirou o pedido de Moraes do inquérito das fake news, transferiu os casos para a Presidência da Corte e deu cinco dias para a PGR e para Mendonça se manifestarem. A manobra tira o confronto do gabinete de um dos envolvidos e devolve a condução ao centro da Corte.
O que acontece se o Senado abrir os dois processos?
Juridicamente, cada denúncia segue rito próprio: leitura, comissão especial, defesa, votação e, se admitida, julgamento que pode resultar em perda do cargo e inabilitação. Politicamente, o efeito é outro. Um processo isolado contra Moraes atenderia a campanha da direita por vagas no Senado em outubro. Um processo gêmeo contra Mendonça, indicado por Bolsonaro, divide essa base e expõe o custo de transformar a Corte em campo de retaliação.
A coluna de Andrea Jubé, no Valor, registrou avaliação de fonte próxima a Alcolumbre: o “momento adequado” para se posicionar viria depois do segundo turno, quando as urnas revelarem o novo presidente da República e os 54 senadores eleitos. O perfil do Executivo e da próxima legislatura definiria se o alvo seria Moraes, Mendonça — ou nenhum dos dois.
Há ainda o interesse pessoal do presidente da Casa. Alcolumbre pretende reconquistar a Mesa em fevereiro de 2027. Pautar um ministro e poupar o outro pode custar-lhe votos; pautar os dois, ou nenhum, redistribui o ônus.
Análise
O recado funciona, neste instante, menos como calendário de julgamento e mais como trava institucional. Ao amarrar o destino de Moraes ao de Mendonça, o presidente do Senado encarece a ofensiva contra a Corte e tenta impedir que o Legislativo vire tribunal de campanha às vésperas da eleição. A pergunta que permanece é se a trava segura a pressão — ou se a pressão rompe a trava.
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