Brasília (DF)
04 de novembro de 2026
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva não representa simplesmente uma vitória da China sobre os Estados Unidos. Para o analista Wenran Jiang, ela funciona como um teste de resistência para o Sul Global: Donald Trump ainda dispõe de instrumentos para punir o Brasil por manter uma política externa independente, e resta saber se Pequim conseguirá oferecer alternativas comerciais, investimentos e mecanismos financeiros capazes de sobreviver ao mandato de Lula.
Publicado nesta quarta-feira (4 de novembro) pela Al Jazeera, o artigo de Wenran Jiang — diretor fundador do China Institute e titular emérito da cadeira de pesquisa Mactaggart da Universidade de Alberta — parte das reações contrastantes à vitória brasileira. Donald Trump afirmou que a eleição “parecia mais uma eleição fraudada”. Sua administração concedeu vistos americanos a Flávio Bolsonaro e a integrantes de sua família, que se refugiaram em Miami, de onde o senador se declarou o verdadeiro líder do Brasil. Do outro lado, Xi Jinping congratulou Lula e descreveu as relações entre China e Brasil como “um modelo de solidariedade e cooperação entre países do Sul Global”.
Jiang observa que a China é o maior parceiro comercial do Brasil e que Lula fortaleceu os laços com Pequim e com o BRICS, enquanto resistia aos esforços de Washington para aproximar a América Latina de sua esfera de influência. Ainda assim, o autor sustenta que o resultado eleitoral representa menos um triunfo de Pequim do que uma prova para o conjunto dos países em desenvolvimento.
O QUE A NOVA DOUTRINA MONROE DE TRUMP SIGNIFICA PARA O BRASIL?
Segundo o artigo, o arsenal de Trump em seu segundo mandato vai muito além da diplomacia. Inclui tarifas punitivas de até 50% sobre as exportações brasileiras, sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e restrições de vistos a outros magistrados envolvidos no processo contra Jair Bolsonaro.
Em junho, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, designou as duas maiores organizações criminosas do Brasil como organizações terroristas estrangeiras. A medida havia sido solicitada publicamente por Flávio Bolsonaro e, na avaliação de Jiang, poderia abrir caminho para operações militares americanas em território brasileiro.
O analista menciona ainda o Escudo das Américas, uma estrutura de segurança que Washington está construindo na região. A mensagem, segundo ele, é clara: os Estados Unidos pretendem recuperar o hemisfério como uma zona de exclusão, na qual nenhum país importante poderia se aproximar da esfera de influência chinesa sem sofrer consequências.
A concessão de vistos a Bolsonaro e a integrantes de sua família sugere, na interpretação do autor, a intenção americana de manter o adversário derrotado como instrumento político contra o governo Lula.
LULA COMO CONTRAPESO, MAS FRÁGIL
Jiang descreve Lula não como um representante dos interesses chineses, mas como um nacionalista brasileiro que passou a vida defendendo a soberania do próprio país. Isso o transforma, neste momento, em um importante contrapeso ao poder americano na América Latina.
Sua vitória interrompe uma sequência de sete triunfos presidenciais consecutivos de forças conservadoras na região desde o retorno de Trump à Casa Branca. Também impede a formação de um governo Bolsonaro comprometido com a adesão ao Escudo das Américas.
O espaço de manobra, porém, é estreito. Partidos de direita conquistaram maiorias nas duas casas do Congresso que assumirá. Quase metade dos brasileiros afirma que a economia piorou no último ano. Juros elevados, dívidas no cartão de crédito e os efeitos dos jogos de apostas pela internet alimentam o descontentamento social.
Um presidente de 81 anos, diante de um Legislativo hostil e de uma administração americana adversária, terá margem limitada para implementar sua agenda.
A VANTAGEM CHINESA ESTÁ NA INFRAESTRUTURA, NÃO NA IDEOLOGIA
O autor destaca que o Brasil exportou aproximadamente US$ 100 bilhões em mercadorias para a China no ano passado, quase três vezes o volume destinado aos Estados Unidos.
A relação bilateral já não se limita à soja, ao minério de ferro e ao petróleo. Empresas chinesas constroem redes elétricas, parques de energia solar e fábricas de veículos elétricos. Brasil e China também estudam a construção de uma ferrovia transcontinental que ligaria o litoral atlântico brasileiro ao porto de Chancay, no Peru, construído com participação chinesa.
A disputa se estende aos minerais críticos. Um documento estratégico elaborado por um aliado de Bolsonaro propunha direcionar o processamento desses minerais para uma cadeia de abastecimento alinhada aos Estados Unidos. A vitória de Lula permite que o governo continue defendendo o processamento nacional, conforme a legislação sobre minerais críticos assinada pelo presidente neste ano.
No campo financeiro, uma linha de troca de moedas no valor de 190 bilhões de yuans, equivalente a US$ 28,5 bilhões, oferece ao Brasil uma proteção contra o uso do dólar como instrumento de pressão econômica.
Os acordos comerciais em moedas locais e a ampliação dos empréstimos do Novo Banco de Desenvolvimento para além da dependência do dólar também integram uma agenda de redução da dependência da moeda americana, à qual Bolsonaro se opunha.
Segundo Jiang, a vitória de Lula evita uma divisão interna no BRICS e mantém em andamento a agenda do bloco para desenvolver sistemas próprios de pagamentos.
O autor reconhece que os investimentos chineses são orientados pelo lucro, frequentemente assimétricos e, em alguns casos, recebidos com resistência. Ainda assim, a existência de um grande parceiro econômico alternativo amplia a capacidade de negociação dos países submetidos à pressão americana.
O ponto central, portanto, não é o alinhamento com a China, mas a autonomia em relação a Washington.
O QUE ESTÁ EM JOGO PARA O SUL GLOBAL
O resultado brasileiro, argumenta Jiang, influenciará a maneira como outras capitais do Sul Global observarão a rivalidade entre Estados Unidos e China.
Se Washington conseguir deslegitimar um governo eleito, sancionar seus magistrados, oferecer abrigo à oposição e ameaçar sua economia, sem apresentar um pacote comparável de comércio e investimentos, a mensagem para os demais países será clara: alinhem-se ou paguem o preço.
Se, ao contrário, o Brasil conseguir preservar sua autonomia estratégica, aprofundar parcerias industriais com a China e outros integrantes do BRICS e demonstrar que soberania é compatível com a competição entre grandes potências, a mensagem será diferente: a era da Doutrina Monroe estará chegando ao fim porque o hemisfério finalmente dispõe de alternativas.
O QUE SOBREVIVE A UM PRESIDENTE
Lula não permanecerá no cargo para sempre. O verdadeiro teste da estratégia chinesa na América Latina, segundo o analista, será verificar se os vínculos econômicos que Pequim ajuda a construir — redes elétricas, ferrovias planejadas, instalações de processamento e sistemas de pagamento — conseguirão sobreviver às mudanças de governo no Brasil.
Se o país utilizar esses investimentos para construir relações comerciais e financeiras menos vulneráveis à pressão americana, a estratégia chinesa de estabelecer estruturas econômicas duradouras, em vez de depender de relações pessoais com governantes, terá alcançado seu objetivo.
Jiang encerra sua análise com uma distinção clara: o erro de Washington é tratar o Brasil como seu quintal. O erro de Pequim seria tratá-lo como um cliente.
O Sul Global não precisa de tutores. Precisa de infraestrutura, contratos e poder de decisão sobre o próprio futuro.
A vitória de Lula compra tempo. Mas o tempo, por si só, não garante a independência do Brasil.
IMPORTANTE: O artigo de Wenran Jiang é uma análise de opinião publicada pela Al Jazeera. As avaliações sobre tarifas, sanções, o Escudo das Américas e os limites da estratégia chinesa refletem a interpretação pessoal do autor e não constituem posicionamento oficial da Al Jazeera nem do Urbs Magna.
OUTRAS ANÁLISES NA MESMA DIREÇÃO
Publicações recentes em diferentes países apresentam interpretações convergentes sobre o significado internacional da vitória de Lula.
No Mail & Guardian, da África do Sul, a vitória brasileira é apresentada como uma afirmação de que soberania nacional e cooperação internacional podem caminhar juntas. O artigo também destaca o fortalecimento do multilateralismo e da participação do Sul Global nas decisões internacionais.
No Daily Maverick, a jornalista Redi Tlhabi descreve o resultado como um alívio para o multilateralismo, a ação climática e a possibilidade de fortalecimento do Sul Global, com consequências importantes para a África do Sul e o BRICS.
Na Índia, o ex-chanceler Kanwal Sibal afirmou que a reeleição fortalece o BRICS e o Sul Global, além de frustrar os esforços de Trump para ampliar a influência americana na América Latina. Sua avaliação foi publicada pelo Business Today.
Também na Índia, o parlamentar Shashi Tharoor ressaltou que a liderança de Lula fortalece o compromisso brasileiro com a multipolaridade e amplia o papel do BRICS como voz do Sul Global na reorganização do comércio e da governança internacionais. A declaração foi noticiada pelo The Tribune.
Essas avaliações convergem com o argumento central de Jiang: a reeleição preserva um importante ator do Sul Global, capaz de defender sua autonomia em meio à pressão americana. Entretanto, a sustentabilidade dessa independência econômica e diplomática permanece como o principal desafio.
FAQ Rápido
Quem é Wenran Jiang?
É diretor fundador do China Institute e titular emérito da cadeira de pesquisa Mactaggart da Universidade de Alberta. Também atua como conselheiro do Institute for Peace and Diplomacy e preside o Fórum Canadá-China de Energia e Meio Ambiente.
Por que Jiang não considera a vitória de Lula um triunfo chinês?
Porque Donald Trump ainda dispõe de instrumentos econômicos e diplomáticos para pressionar o Brasil. Além disso, a questão central é saber se a China conseguirá oferecer acordos comerciais, investimentos e mecanismos financeiros capazes de sobreviver ao mandato de Lula.
Qual é a principal vantagem chinesa apontada pelo artigo?
A infraestrutura econômica e financeira: redes elétricas, parques solares, fábricas de veículos elétricos, projetos ferroviários, acordos de troca de moedas, comércio em moedas locais e ampliação dos financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento. Esses instrumentos podem ampliar a capacidade de negociação brasileira sem exigir alinhamento ideológico com Pequim.
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