Brasília (DF)
30 de setembro de 2026
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou como “inaceitável” o ataque do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e à Igreja Católica. A nota, lida nesta terça-feira (29/set) no horário eleitoral, desloca o caso da padroeira para o centro da reta final rumo a 4 de outubro.
O QUE LULA ESCREVEU?
“Diante dos ataques de Flávio Bolsonaro à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e à Igreja Católica, manifestamos o nosso repúdio. É inaceitável que um candidato desrespeite religiosos por interesses eleitoreiros. Quando um político ataca uma religião, todas as religiões são atacadas também. O Brasil é um país diverso e marcado pelo respeito a todas as crenças. Nossa solidariedade aos bispos, aos devotos de Nossa Senhora Aparecida e aos brasileiros de todas as religiões.”
A campanha à reeleição do estadista leu o comunicado na televisão e acusou o adversário de promover ataques contra a religião. O programa de Flávio Bolsonaro, na mesma faixa, não tratou do episódio e insistiu no voto útil contra o PT.
COMO O ATAQUE À CNBB COMEÇOU?
O conflito nasceu de um boato segundo o qual o candidato do PL defenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. A versão circulou com força a partir da noite de quinta-feira (24/set). Flávio nega qualquer proposta nesse sentido e afirma que jamais existiu movimento seu para alterar o título.
No domingo (27/set), em agenda em Goiânia, o senador foi além da negativa. Conforme a Folha de S.Paulo e o UOL, ele declarou: “O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news. Conseguiu com a ajuda de gente dentro da CNBB. Infelizmente, essa é a realidade.”
O QUE A CNBB RESPONDEU?
A CNBB divulgou nota de esclarecimento no próprio domingo (27/set). O PDF reproduzido pelo Poder360 e o texto da Band registram:
“A CNBB não produziu, autorizou ou participou da elaboração ou divulgação de informações falsas relacionadas ao atual processo eleitoral. A Conferência repudia a produção e a utilização de informações falsas, independentemente de sua origem ou de quem possam beneficiar ou prejudicar. A CNBB não integra qualquer estrutura político-partidária, de partido ou candidatura. Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição. A mentira não se combate com outra mentira.”
A nota de Lula não afirma que Flávio Bolsonaro tenha apresentado projeto para destituir Nossa Senhora Aparecida. O objeto do comunicado é a acusação do senador contra a CNBB e o tratamento dado à Igreja Católica. A conferência, por sua vez, não confirmou a versão do candidato nem a versão que ele atribui ao PT. O que está documentado é a inexistência, nas fontes consultadas, de prova da participação institucional da entidade na disseminação do boato.
FLÁVIO RECUOU NO DIA SEGUINTE?
Na segunda-feira (28/set), em São Paulo, o senador mudou o tom. O Metrópoles e o UOL relatam que ele classificou a nota da CNBB como “boa e esclarecedora” e agradeceu à entidade. Disse que o comunicado “confirma que essa história da Nossa Senhora Aparecida deixar de ser a padroeira do Brasil era uma grande mentira”.
Questionado se se arrependia da acusação contra a conferência, segundo o UOL, não respondeu. Ergueu imagem da santa e afirmou respeitar “todas as religiões”, contrapondo a própria postura à fala anterior de Lula sobre o celibato católico.
Aliados do candidato, segundo o O Globo, avaliaram a ofensiva contra a CNBB como o principal erro da gestão da crise: transformou um boato contra o próprio nome em confronto com um braço da Igreja Católica, segmento que reúne mais da metade da população.
QUEM MAIS SE POSICIONOU NO GOVERNO?
Antes da nota presidencial, o advogado-geral da União, Jorge Messias, já havia se manifestado. Em publicação no X reproduzida pelo Estadão e pelo Urbs Magna, Messias falou em “ataques e agressões” injustos à conferência e citou o Estado laico previsto na Constituição.
A campanha de Lula, segundo o O Globo na segunda-feira (28/set), já preparava uma defesa pública da CNBB. A peça de terça-feira (29/set) cumpriu esse movimento e evitou, na TV, repetir o detalhe do título de padroeira, concentrando-se no respeito a religiosos.
POR QUE O EPISÓDIO PESA NA RETA FINAL?
Nossa Senhora Aparecida é padroeira do Brasil por lei. O rumor tocou um símbolo católico de massa a menos de uma semana do primeiro turno das eleições 2026. A Justiça Eleitoral e o STF também passaram a interferir na circulação de posts sobre o tema, com decisões sucessivas de André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux, o que ampliou o alcance institucional da disputa.
A análise aponta que a nota de Lula opera em dois planos simultâneos. No plano factual, responde a uma acusação sem prova contra uma instituição religiosa. No plano eleitoral, ocupa o terreno do respeito à fé católica depois de o adversário ter chamado “gente de dentro” da CNBB para o palanque. A distinção importa: o desgaste de Flávio não decorre apenas do boato original, e sim da decisão de transformar a conferência em alvo.
O que permanece aberto é se o recuo de segunda-feira (28/set) e os acenos à imagem da santa serão suficientes para desfazer, entre eleitores católicos, a frase dita em Goiânia.
FAQ Rápido
O que Lula considerou inaceitável?
O desrespeito a religiosos “por interesses eleitoreiros”, após a acusação de Flávio Bolsonaro contra a CNBB e a Igreja Católica.
A CNBB admitiu ter ajudado o PT?
Não. A entidade negou ter produzido, autorizado ou participado de informações falsas sobre a eleição e cobrou provas.
Flávio apresentou evidências da acusação?
Nas matérias consultadas, o senador não apresentou nomes, documentos ou outros elementos que comprovem a participação de integrantes da CNBB.
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