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Presidente respondeu a jornalista e comentou sobre negociações de paz na Ucrânia, crise em Gaza e reforma do Conselho de Segurança da ONU – SAIBA MAIS
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Paris, 07 de junho de 2025
Durante coletiva em Paris, neste sábado (7/jun), o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), respondeu a pergunta de um jornalista francês sobre a participação do presidente russo Vladimir Putin na cúpula dos BRICS, a ser realizada no Rio de Janeiro, nos dias 6 e 7 de julho.
O estadista aproveitou para comentar sobre as negociações para o fim da guerra entre Rússia e Ucrânia, a crise humanitária em Gaza e a necessidade de reformar o Conselho de Segurança da ONU.
O jornalista também questionou Lula sobre sua relação com o presidente francês Emmanuel Macron e possíveis esforços conjuntos para mediar a guerra entre Rússia e Ucrânia.
O francês considerou as acusações contra o líder russo no Tribunal Penal Internacional (TPI):
“Duas questões. Vocês não têm os mesmos métodos para isso. Eu queria saber se vocês se encontraram, se saíram com Macron para tratar desses dois assuntos. Vocês falaram de alguma solução para colocar as duas partes para concordar e reunir numa mesa de negociações sobre a crise e falar com Putin? Eu queria saber se Putin será convidado para os BRICS no Brasil ou não”, questionou o jornalista.
“Putin é membro nato dos BRICS. Ele é um dos criadores dos BRICS. Ele pode participar ou não. Ele está condenado por um tribunal internacional, e ele sabe que corre risco. Mas a decisão é dele. Ele está convidado porque é membro e criador dos BRICS, junto com o Brasil, a Rússia, a Índia e a China“, respondeu Lula.
Os BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (com expansão recente para incluir Irã, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos), é uma aliança econômica e política criada em 2006.
Putin, como líder da Rússia, é figura central no grupo. No entanto, em 2023, o TPI emitiu um mandado de prisão contra ele por crimes de guerra na Ucrânia, o que limita sua participação em eventos internacionais em países signatários do Estatuto de Roma, como o Brasil.
Lula enfatiza a relevância de Putin nos BRICS, mas deixa a decisão de comparecer ao próprio líder russo, reconhecendo os riscos legais.
O Presidente do Brasil busca manter a neutralidade do governo federal no conflito e reforçar a soberania dos BRICS como espaço de cooperação, sem interferir diretamente nas questões judiciais de Putin.
Sobre a Guerra entre Rússia e Ucrânia
Lula reconheceu que a proximidade geográfica da Europa com a Ucrânia (compartilhando fronteiras e impactos diretos, como refugiados e crise energética) gera uma perspectiva mais emocional entre líderes europeus, como Macron.
“Eu tenho a percepção de que é normal que um governante europeu sinta diferente de mim, que estou muito mais longe, separado por um oceano. Eu compreendo o calor, a veemência de um dirigente europeu. Mas quero que eles compreendam também o meu comportamento”, disse Lula.
O Brasil, distante do conflito, adota uma postura neutra, focada em diplomacia. Segundo o Instituto de Pesquisa de Paz Internacional de Estocolmo (SIPRI), a guerra iniciada em 2022 já causou mais de 500 mil vítimas, entre mortos e feridos, intensificando a pressão por soluções.
“Comecei fazendo uma crítica contundente à Rússia pela ocupação do território da Ucrânia, e até hoje continuo fazendo essa crítica“, afirmou o Presidente.
Desde o início do conflito, Lula criticou a invasão russa, mas evitou sanções unilaterais, alinhando-se à política de não intervenção do Brasil.
Ele defende a soberania da Ucrânia, mas busca evitar escaladas que prejudiquem o diálogo.
“Brasil faz parte de um grupo de países que, junto com a China, elaborou um documento propondo a constituição de um grupo de 13 países em desenvolvimento, que não estão diretamente relacionados ao conflito, para tentar encontrar uma proposta de acordo entre a Rússia e a Ucrânia e pôr fim à guerra”, disse Lula.
Em 2023, Brasil e China propuseram um grupo de nações neutras, incluindo países como Índia, África do Sul e Indonésia, para mediar negociações.
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O documento, segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, foca em cessar-fogo e diálogo, sem alinhamento com potências ocidentais ou Rússia.
Lula acredita que países em desenvolvimento têm maior imparcialidade.
“Quem ainda não acredita são os dois países, tanto a Rússia quanto a Ucrânia“, acrescentou Lula. Tanto Volodymyr Zelensky (presidente da Ucrânia) quanto Putin rejeitaram propostas que não atendam suas demandas principais.
A Ucrânia exige a retirada total das tropas russas, enquanto a Rússia busca reconhecimento de territórios anexados. Dados da ONU indicam que negociações diretas em 2024 falharam por falta de consenso.
Reflexão sobre Acordo de Paz
Lula sugere que as condições para um acordo (como cessar-fogo, reconhecimento parcial de territórios ou garantias de segurança) já são conhecidas, mas líderes hesitam por razões políticas internas. Ele compara a situação a uma greve, onde o orgulho ou compromissos públicos dificultam recuos:
“Companheiro que fez a pergunta, pelo que percebi, você é um cidadão que entende de geopolítica internacional. Sinceramente, acho que, no inconsciente de todos os líderes políticos do mundo, todos sabem o que vai acontecer. Todos sabem que as condições do acordo já estão colocadas. O que falta é coragem para dizer o que querem”, disse o estadista.
António Guterres, líder da ONU, tem mediado esforços humanitários na guerra. “Ontem, propus ao Macron fazer uma conversa com Guterres, secretário-geral da ONU, para visitar a Ucrânia e a Rússia, junto com alguns países emergentes, que poderiam formar um grupo de amigos para ouvir o que Zelensky tem a dizer, ouvir o que Putin tem a dizer e construir uma proposta de acordo para colocar na mesa”, disse Lula.
A proposta de Lula visa criar um grupo neutro, com países como Brasil, China e Índia, para facilitar o diálogo. Ele reforça a necessidade de consentimento mútuo, já que Rússia e Ucrânia rejeitam imposições externas.
Lula participou das comemorações do 80º aniversário pelo Dia da Vitória na Rússia, quando a Federação comemorou em 9 de maio a derrota da Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial para a antiga União Soviética da vitória. O Presidente brasileiro usou a oportunidade para dialogar com Putin.
Ele também se reuniu com o presidente chinês Xi Jinping, reforçando o papel do Brasil como mediador.
Fui aos 80 anos da Segunda Guerra Mundial na Rússia e conversei com Putin sobre isso. Conversei muito com ele. Fui à China, conversei muito com Xi Jinping. Voltei à Rússia, parei no aeroporto e fiz um longo telefonema para Putin, dizendo que ele deveria ir à mesa de negociação em Istambul.
A menção a Istambul refere-se a um desafio feito por Zelensky para que Putin comparecesse pessoalmente às negociações na Turquia, que se propôs a mediar um acordo.
“Se fosse eu, teria ido. Acho, companheiro, que está mais próximo de um acordo do que parece. Por enquanto, os dois líderes têm dificuldade de explicar ao seu próprio povo os seus limites”, disse Lula, apostando que um acordo é viável, mas a pressão interna (nacionalismo na Rússia e resistência na Ucrânia) impede avanços. Ele sugere que ambos os lados sabem que concessões serão necessárias.
Crise em Gaza
“Agora, tão grave quanto a guerra entre Rússia e Ucrânia, que envolve dois exércitos formais brigando, é Gaza“, afirmou Lula, “virando o lado do disco” e acrescentando que “Gaza não é um exército formal; é um exército altamente profissionalizado matando mulheres e crianças”.
No enclave de Israel ocupado por palestinos, as Forças de Defesa do país liderado por Benjamin Netanyahu o enfrentam o Hamas, grupo classificado como terrorista por vários países. Segundo a ONU, desde outubro de 2023, mais de 40 mil palestinos morreram em Gaza, majoritariamente civis. Lula critica a desproporcionalidade da resposta israelense.
“Fico pasmo com o silêncio do mundo. Parece que não existe mais humanismo nas pessoas. Palestinianos podem morrer? Palestinianos não são seres inferiores”, aponta Lula para a falta de ação global diante da crise humanitária.
Relatórios da Human Rights Watch confirmam violações de direitos humanos em Gaza, incluindo ataques a civis. Lula defende a igualdade de direitos dos palestinos: “Eles têm o direito de ter seu terreno, demarcado em 1967, para construir seu país. E essa terra está sendo tomada”.
O Presidente se referiu às fronteiras de 1967, estabelecidas pela Resolução 242 da ONU, que prevê a criação de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia. A expansão de assentamentos israelenses é criticada por violar acordos internacionais.
“Nossa briga por governança é isso. A ONU, que teve coragem de criar o Estado de Israel, não tem força para criar o Estado palestino”, disse Lula, citando a aprovação da criação de Israel em 1947 (Resolução 181), mas a criação de um Estado palestino permanece estagnada devido a vetos no Conselho de Segurança, especialmente dos EUA.
“Também criticamos o Hamas quando fez a invasão a Tel Aviv. Mas ninguém responde como a inteligência de Israel permitiu que alguém de asa-delta invadisse Tel Aviv?“, indagou Lula, que condenou o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1.200 israelenses, mas também questiona falhas na inteligência de Israel, que não previu o ataque. Relatórios do New York Times apontam erros operacionais em Israel.
Reformas na ONU e Conflitos Globais
“E tem outras guerras. Não sei se você sabe, mas hoje vivemos o período com mais conflitos desde a Segunda Guerra Mundial“, disse Lula. Segundo o Global Peace Index 2024, o mundo enfrenta mais de 50 conflitos armados, o maior número desde 1945, incluindo Sudão, Iêmen e Mianmar:
“Por isso, defendemos urgentemente mudar o estatuto da ONU e criar um Conselho de Segurança mais representativo, com a presença do continente africano, do continente latino-americano, da Alemanha, do Japão, do Oriente Médio“, completou o Presidente criticando a estrutura do órgão dominado por EUA, Rússia, China, Reino Unido e França.
Lula propõe incluir países como Nigéria (226 milhões de habitantes), Etiópia (126 milhões) e Egito (106 milhões) para maior representatividade.
“Como eu disse ao Trump, ao Macron, ao Xi Jinping, ao Putin e ao primeiro-ministro da Inglaterra [Keir Starmer]: abram seus corações no Conselho de Segurança e deixem outros países entrarem para ver se conseguimos mudar um pouco o mundo”, afirmou Lula.
O Presidente defende uma reforma para democratizar a governança global, alinhando-se a propostas de países como Alemanha e Japão, que buscam assentos permanentes. A resistência vem de membros permanentes, que detêm poder de veto.
Lula posiciona o Brasil como mediador global, defendendo diálogo na Ucrânia, justiça em Gaza e reformas na ONU. Suas declarações refletem a busca por um papel ativo do Brasil na geopolítica, mantendo neutralidade e promovendo multilateralismo. A cúpula dos BRICS em 2025 será um teste para sua diplomacia, especialmente com a possível presença de Putin.












