Brasília (DF)
26 de setembro de 2026
O TSE registra quase 17 milhões de eleitores com 70 anos ou mais aptos a votar em 4 de outubro. O voto nesse grupo é facultativo. Nesta quinta-feira (24/set), em São Gonçalo (RJ), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu que eles saiam de casa. Não há ordem jurídica. Há um apelo de campanha, num eleitorado em que o petista costuma ir melhor do que Flávio Bolsonaro.
O QUE LULA DISSE
No ato fluminense, O Presidente, de 80 anos, disse: “Nós precisamos convencer as pessoas de 70 anos a votar. Se eu, que tenho 80, estou aqui pulando e sou candidato, por que um cara de 70 anos não vai votar? Desistiu da vida?”
E prosseguiu: “Não tem mais motivação para viver? Tem mulher, filho, neto, bisneto. Levanta a bunda e vai votar, meu filho. O Brasil precisa de você. Idade não é motivo para não votar.”
O recado já tinha aparecido em Guarulhos (SP) e Florianópolis (SC). Na capital catarinense, Lula disse: “A gente não tem obrigação de votar: mas queria pedir para votar pelo seu neto, pelo seu filho, pelo futuro deste país. […] Se podemos escolher o melhor, vamos escolher o melhor.”
Ninguém com 70 anos ou mais é obrigado a votar. A Constituição e o Código Eleitoral tornam o voto facultativo para essa faixa, para analfabetos e para jovens de 16 e 17 anos. O presidente pediu comparecimento. O eleitor decide. Pesquisas medem intenção, não urna.
QUANTOS SÃO E POR QUE O NÚMERO IMPORTA
A nota do TSE de 4 de setembro fala em “quase 17 milhões” com mais de 70 anos, “mais de um em cada dez” dos 158,7 milhões aptos, com alta de 15,75% sobre 2022. A Folha precisou 17.251.915 nesse recorte (10,8% do eleitorado). O grupo 60+ chega a 37,5 milhões, 23,6% do total.
Em 2022, a abstenção 70+ no primeiro turno ficou perto de 59%, segundo o Christian Science Monitor e a Agência Brasil: cerca de 8 milhões desse grupo não votaram, de um total de 25 milhões de ausentes. No segundo turno, a presença 70+ subiu a 45,3% — a maior da série do TSE desde 2014, ainda assim minoria.
A eleição de 2022 foi decidida por cerca de 2 milhões de votos. O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves lembrou ao Monitor que o 70+, se mobilizado, cabe nessa margem.
O QUE AS PESQUISAS MOSTRAM — E O QUE NÃO MOSTRAM
O Datafolha agregado de agosto e setembro apontou, no 70+: 46% para Lula e 35% para Flávio Bolsonaro. No mesmo instituto, 76% desse grupo disseram que votariam mesmo se o voto não fosse obrigatório — índice maior do que o dos jovens. Entre 60 e 69 anos, o petista tinha 44% e o senador, 31%.
Em julho, o Datafolha de segundo turno deu a Lula 55% a 37% no 60+, único recorte etário em que Flávio liderava era o de 35 a 44 anos (53% a 38%), a chamada “geração Lava Jato”, conforme a BBC News Brasil com a diretora Luciana Chong.
A Quaest da terça-feira (22/set), citada pelo Correio, apertou o 60+: Lula 45%, Flávio 39%, margem de 5 pontos no recorte. No geral, o mesmo instituto mostrou empate técnico. Ou seja: o idoso ainda pende mais ao presidente, mas o quadro não é uniforme nem congelado.
COMO ESSE ELEITOR COSTUMA ESCOLHER
O subtítulo desta matéria descreve o que a literatura de campanha e os próprios institutos repetem. A escolha 70+ pesa:
- o bolso visível: salário mínimo, aposentadoria, Farmácia Popular, fila do INSS
- a identificação com liderança conhecida — Lula é o candidato octogenário da chapa
- a memória de governos anteriores, citada por Guilherme Russo, da Quaest, ao InfoMoney
- o cuidado concreto: PADI Brasil, centros-dia, Hospital Comunitário do Idoso, anunciados pelo próprio presidente em agosto
Chong descreveu o 60+ como possível “novo Nordeste” do PT: volume crescente, definição maior, interesse declarado em política. Isso é leitura de pesquisa, não sentença de urna.
O “ALGORITMO FLÁVIO” E O VOTO QUE NÃO PASSA PELO FEED
O título contrapõe o eleitor analógico ao aparato digital da campanha adversária. Há base factual para o contraste, sem transformar metáfora em prova de fraude.
Flávio Bolsonaro publicou vídeo gerado por inteligência artificial que associa Fábio Luís Lula da Silva (Lulinha) a desvio contra idosos do INSS. Lulinha processou o senador, conforme Veja e O Tempo. O plano de governo do candidato do PL usa a “farra do INSS” contra o petista, segundo a Folha. O vice Alfredo Gaspar foi relator da CPI da Previdência.
Este portal já publicou a apuração do ICL sobre a Bravo Grafeno e o Careca do INSS e o estudo de robôs na polêmica do Ypê. Rede, IA e operação coordenada existem. Não substituem o voto de quem escolhe pelo reajuste do benefício, pelo Bolsa Família ou pelo posto de saúde.
A campanha de Lula, pela CNN, responde com cadastro da “geração Lula” e com a prova de vida automática: quem votar tem o procedimento do INSS reconhecido. O Ministério da Previdência fala em alcançar 40 milhões de aposentados e pensionistas. É incentivo administrativo, não troca de voto.
O QUE A ANÁLISE APONTA
A análise deste portal separa três coisas que o título junta. Primeiro, o fato demográfico: o Brasil envelheceu o eleitorado; o 70+ é maior do que em 2022 e maior do que o colégio de 16 e 17 anos. Segundo, o fato político: Lula pediu esse comparecimento porque a abstenção histórica desse grupo pode valer mais do que um comício. Terceiro, a projeção: “devem ir às urnas contra Flávio” é desejo de campanha, não resultado. A Quaest já mostrou o 60+ mais dividido do que o Datafolha de julho.
O desfecho aberto é simples. Se o 70+ repetir a ausência de 2022, o recado de São Gonçalo vira peça de palanque. Se uma fração relevante dos 8 milhões que faltaram voltar à seção, a conta de outubro muda — a favor de quem esse eleitor, e não o algoritmo, escolher.
FAQ Rápido
Os 17 milhões são obrigados a votar?
Não. A partir de 70 anos o voto é facultativo. Não há multa por ausência.
Lula deu uma ordem?
Deu um pedido público de campanha. Não existe ordem legal para esse grupo votar.
Esse eleitor já está decidido contra Flávio?
Pesquisas recentes mostram vantagem de Lula no 70+ e no 60+, com margem menor na Quaest. Intenção de voto não é urna.
Novas rodadas de pesquisa e o comparecimento real em 4 de outubro poderão ser incorporados quando institutos e o TSE divulgarem números oficiais.
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