| Brasília (DF)
30 de agosto de 2026
Luciano Hang, dono das Lojas Havan, disse a funcionários que reduzir a jornada sem cortar salário é “estelionato eleitoral” e projetou alta de 15% no custo da mão de obra da rede.
A fala viralizou neste domingo (30/ago), no momento em que o Senado analisa a PEC que acaba com a escala 6×1.
O que Hang disse aos funcionários da Havan?
No registro que circulou nas redes, o empresário descreve o modelo interno da companhia e trata a jornada como escolha individual, e não como regra definida pelo Congresso Nacional.
“Quer trabalhar 8 horas, sábado, domingo, feriado? Tenha folga que vocês têm que ter, e nós, da Van, temos folga, não é isso? Se você trabalhar sábado, trabalha domingo, folga na outra semana; se você trabalhou no feriado, folga também”, afirmou.
Em seguida, deslocou o centro da decisão da legislação para o ambiente da loja: “Agora, vai dar pessoa a liberdade do trabalho, é de vocês, não é do Congresso Nacional. Eles querem ganhar o voto de vocês e depois, sabe o que vai acontecer? No caso da Van, o custo da mão de obra vai crescer 15%.”
Hang sustentou que o impacto seria ainda maior em empresas menores. “Tem empresa que tem um funcionário, cresce o dobro, 100%. Tem empresa que tem dois funcionários, cresce 50%. E aonde vai essa diferença? No preço dos produtos.”
O trecho de maior repercussão veio quando ele encadeou salário nominal, inflação e informalidade: “Ah, mas eu vou trabalhar 5×2 e vou ganhar a mesma coisa. Ok. Se você ganha a mesma coisa e os produtos vão subir 10% a 15%, vocês vão ter um poder de compra menor. Aí, sabe o que vocês vão ter que fazer? Como vocês não vão poder trabalhar mais de 5 dias aqui na Van e vão ficar com o mesmo salário, e o salário de vocês vai comprar menos produtos, vocês vão ter que arranjar outro emprego, um subemprego, um emprego que não é cadastrado como nós aqui, que tem tudo certinho.”
“Aí vocês não ganham décimo terceiro, não ganham férias, ou seja, vocês vão ter que trabalhar mais para comprar o que estão comprando hoje. Isso não é nada mais, nada menos do que um estelionato eleitoral.”
“Mau caráter”, diz jornalista
Ao compartilhar a gravação em suas redes sociais, o jornalista Guga Noblat escreveu: “O mau caráter do Luciano Hang apavorando seus funcionários para fazer campanha contra a diminuição da jornada de trabalho. Essa cara é o esgoto do empresariado. Ele quer a liberdade de poder chantagear funcionário para trabalhar por horas pagas.”
A publicação de Noblat, neste domingo (30/ago), tornou-se um dos vetores da circulação do material. Até a apuração desta matéria, o post acumulava milhares de visualizações e centenas de interações.
O mau caráter do Luciano Hang apavorando seus funcionários para fazer campanha contra a diminuição da jornada de trabalho. Essa cara é o esgoto do empresariado. Ele quer a liberdade de poder chantagear funcionário para trabalhar por horas pagas. pic.twitter.com/RUnVn81HjJ
— GugaNoblat (@GugaNoblat) August 30, 2026
Por que a fala caiu agora, com a PEC no Senado?
A declaração reaparece quando a proposta deixa o terreno abstrato e entra em calendário legislativo. A Câmara dos Deputados aprovou, em 27 de maio, a PEC 221/2019, que reduz a jornada constitucional de 44 para 40 horas semanais e prevê dois dias de repouso remunerado, sem corte de salário.
Segundo a Agência Senado, o relator Omar Aziz (PSD-AM) apresentou, na quinta-feira (27/ago), parecer favorável na Comissão de Constituição e Justiça e manteve o texto aprovado pelos deputados. A estratégia, conforme o g1 e a BBC News Brasil, evita devolver a matéria à Câmara.
A transição prevista no texto é gradual: 60 dias após a promulgação, a jornada máxima cairia para 42 horas, já com dois descansos semanais; 12 meses depois, o teto passaria a 40 horas.
IMPORTANTE:
A PEC ainda não é lei. A Câmara aprovou o texto em maio; no Senado, o parecer da CCJ é favorável, mas a proposta precisa ser votada na comissão e, depois, em dois turnos no plenário, com apoio de 49 dos 81 senadores.
Enquanto isso não ocorrer, a jornada constitucional permanece em 44 horas semanais.
O governo federal tratou o tema como política pública de tempo de vida. Em campanha oficial de maio, a Secom afirmou que, entre 50,2 milhões de celetistas, 14,8 milhões trabalham em escala 6×1.
Hang já projetava alta de custos desde maio. A tese de agora não é nova. Em 27 de maio, após a votação na Câmara, Hang disse à imprensa que o fim da 6×1 elevaria os custos da Havan entre 15% e 20% e que a diferença iria para o preço.
“Essa diferença de 15% a 20% vai para os preços. E a inflação vai comer o salário do cara”, declarou, segundo o jornal local catarinense ND Mais. Naquela ocasião, o empresário, que mora no estado, ironizou a tramitação e sugeriu a escala 4×3 para, segundo ele, acelerar o que chamou de “quebradeira”.
O recorte de agora, dirigido a empregados da própria rede, muda o endereço da mensagem: sai da entrevista e entra no chão de loja.
A Havan, fundada em 1986 em Brusque (Santa Catarina), opera dezenas de megalojas e emprega cerca de 25 mil pessoas, conforme números repetidos pelo próprio Hang e por reportagens de 2026.
Em 2025, a rede registrou faturamento da ordem de R$ 18,5 bilhões e lucro líquido de cerca de R$ 3,5 bilhões, segundo veículos que acompanham a expansão da marca.
Qual é o histórico de Hang com funcionários e política?
A tensão entre o discurso de “liberdade do trabalho” e o uso da hierarquia da empresa em temas políticos tem registro judicial. Em 31 de janeiro de 2024, a 7ª Vara do Trabalho de Florianópolis condenou Hang e a Havan a pagar R$ 85 milhões por assédio eleitoral nas eleições de 2018.
A ação do Ministério Público do Trabalho, relatada pelo g1, descreveu reuniões em que o empresário questionou votos e afirmou que, a depender do resultado presidencial, poderia demitir 15 mil pessoas.
A sentença é de primeira instância e cabe recurso.
Em 2025, o TSE declarou Hang inelegível até 2028 por abuso de poder econômico e político nas eleições municipais de 2020 em Santa Rosa (Rio Grande do Sul). O ministro André Ramos Tavares entendeu que o empresário usou estrutura da Havan e avião para influenciar o pleito. Esses antecedentes não comprovam, por si, ilícito na fala de agora.
Compõem, porém, o contexto em que a crítica de Noblat foi lida: o de um empregador que conversa sobre voto, custo e emprego diante de quem depende dele para o salário.
O que a fala muda no debate da jornada?
Na análise, uma inversão típica desse embate: Hang apresenta a redução da jornada como perda futura de poder de compra. A PEC, no texto aprovado pela Câmara, veda o corte salarial e trata o descanso de dois dias como direito, não como favor da loja.
O empresário fala em “liberdade”; o trabalhador, no recorte filmado, ouve o dono calcular o preço do próprio descanso.
Há um segundo deslocamento. Ao dizer que o Congresso quer “ganhar o voto” e que o empregado teria de buscar “subemprego”, Hang transforma uma alteração constitucional — ainda em tramitação — em ameaça concreta à rotina de quem está na plateia.
O argumento econômico (custo, preço, margem) existe e é repetido por parte do empresariado desde maio. A forma escolhida, perante a folha da própria empresa, é o que reacendeu a acusação de pressão.
O portal Urbs Magna já tratou o tema da jornada no debate público em Se produzimos mais, por que trabalhamos tanto?. A pergunta que permanece aberta neste caso é outra: se a redução da jornada deve ser decidida na Constituição ou no palanque interno da empresa.
O que acontece agora?
A CCJ do Senado tem a PEC na pauta do esforço concentrado que começa na segunda-feira (31/ago). Sem alteração de texto, a matéria pode ir ao plenário sem retorno à Câmara. Hang não detalhou, no trecho circulado, se a Havan mudará escalas antes de qualquer promulgação.
FAQ Rápido:
O que Luciano Hang disse no vídeo?
Que a redução da jornada sem corte de salário elevaria em 15% o custo da mão de obra da Havan, empurraria preços para cima e forçaria funcionários a um segundo emprego informal. Chamou a proposta de “estelionato eleitoral”.
A escala 6×1 já acabou?
Não. A Câmara aprovou a PEC 221/2019 em 27 de maio. No Senado, há parecer favorável na CCJ, mas o texto ainda precisa ser votado.
Por que Guga Noblat criticou a fala?
O jornalista afirmou que Hang apavorava funcionários para fazer campanha contra a diminuição da jornada e que o empresário queria “a liberdade de poder chantagear funcionário para trabalhar por horas pagas”.
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