| Brasília (DF)
24 de agosto de 2026
Há uma pergunta que parece simples, mas que ganha outra dimensão quando colocada diante do avanço tecnológico das últimas décadas: se a humanidade consegue produzir cada vez mais em menos tempo, por que o trabalho continua ocupando uma parcela tão grande da vida?
É a partir dela que o portal Voz Trabalhadora constrói o editorial da quinta edição da Revista Vozes da América e do Sul Global, publicada em 23 de agosto.
O texto recupera a antiga luta pela jornada de oito horas e a coloca diante de um cenário completamente diferente daquele do século XIX.
Computadores, robôs, satélites, internet, automação e inteligência artificial ampliaram enormemente a capacidade de produção.
Para a publicação, entretanto, o aumento da produtividade não produziu automaticamente mais tempo livre.
O motivo, segundo o editorial, está menos nas máquinas do que na forma como a sociedade organiza a produção e distribui a riqueza gerada por ela.
A máquina produz mais. Mas quem ganha o tempo?
O raciocínio apresentado pela Voz Trabalhadora parte de uma distinção importante.
Uma tecnologia pode permitir que determinada quantidade de produtos seja fabricada em quatro horas em vez de oito. Isso significa que quatro horas de trabalho deixaram de ser necessárias para alcançar o mesmo resultado.
Mas o que acontece com essas quatro horas?
O editorial apresenta duas possibilidades.
O ganho pode ser incorporado à lógica econômica da empresa, seja pela redução de custos, pelo aumento da produção ou pela ampliação do excedente apropriado pelos proprietários.
Também pode significar uma redução da jornada para quem trabalha.
É nesse segundo caminho que o texto concentra sua atenção.
As horas que deixam de ser necessárias à produção poderiam voltar para a vida cotidiana: convivência com os filhos, estudo, esporte, cultura, participação política, descanso ou simplesmente tempo livre.
A questão colocada pela publicação, portanto, não é se a tecnologia aumenta a produtividade. Isso já aconteceu.
A questão é quem fica com o benefício desse aumento.
O avanço tecnológico não determina sozinho o futuro do trabalho
A Voz Trabalhadora recorre a uma interpretação marxista para explicar essa contradição.
O editorial diferencia o desenvolvimento das chamadas forças produtivas — máquinas, conhecimento, tecnologia e capacidade de produção — das relações sociais que definem como esses recursos são utilizados.
A mesma máquina pode ter efeitos diferentes sobre quem trabalha.
Pode reduzir o esforço físico e eliminar tarefas repetitivas. Mas também pode resultar em demissões, intensificação do ritmo, vigilância ou cobrança por uma produção maior no mesmo período.
É nesse ponto que o editorial apresenta uma de suas principais ideias: produtividade não significa automaticamente liberdade.
Uma sociedade pode tornar-se tecnicamente capaz de produzir mais com menos trabalho e, ainda assim, manter jornadas extensas.
A tecnologia cria a possibilidade de fazer diferente. Ela não decide, por conta própria, qual caminho será escolhido.
A pergunta aparece também fora das fábricas
O editorial não trata essa questão como um problema exclusivo das economias industrializadas.
Na edição, a Voz Trabalhadora reúne exemplos de diferentes partes do Sul Global.
Mineiros africanos aparecem em disputas com multinacionais responsáveis pela exploração de minerais necessários às novas tecnologias. Agricultores indonésios recorrem a cooperativas para ampliar o controle sobre a riqueza produzida no campo. No Iraque, o texto chama atenção para jovens formados que não encontram trabalho apesar do peso da indústria petrolífera na economia do país.
Também aparecem sindicatos africanos que procuram calcular o custo de uma vida digna como instrumento para a luta salarial.
São situações diferentes, mas o editorial procura enxergar nelas uma questão comum: quem controla os recursos e quem consegue transformar a riqueza produzida em melhores condições de vida.
A China entra nessa análise como um caso de aumento acelerado da capacidade produtiva.
A publicação destaca investimentos públicos, planejamento, industrialização e domínio tecnológico como elementos que contribuíram para ampliar as forças produtivas chinesas.
Mas o exemplo serve para recolocar a mesma pergunta: quanto maior a capacidade de produzir, mais importante se torna decidir para que essa capacidade será utilizada.
Quando a discussão chega à escala 6×1
É no Brasil que o argumento do editorial encontra uma disputa política imediata.
A Voz Trabalhadora apresenta a luta contra a escala 6×1 como uma disputa pelo tempo — não apenas como uma discussão sobre a distribuição dos dias de trabalho e descanso.
A conexão ganha força justamente porque a PEC 221/2019, que prevê a redução da jornada máxima para 40 horas semanais, avançou no Senado.
Em 21 de agosto, o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, encaminhou a proposta à Comissão de Constituição e Justiça. O senador Omar Aziz (PSD-AM) foi designado relator. A PEC havia sido aprovada pela Câmara em 27 de maio.
Aziz afirmou que pretende apresentar seu relatório no início de setembro.
A tramitação acontece justamente quando o governo Lula tenta acelerar a discussão antes da janela eleitoral. Reportagem da Folha de S.Paulo registra que o governo trabalha com a possibilidade de votação entre 31 de agosto e 4 de setembro.
O debate, portanto, deixa de ser apenas uma formulação sobre o futuro do trabalho.
Passa a envolver uma decisão concreta sobre quanto tempo os brasileiros deverão dedicar ao emprego.
O paradoxo da inteligência artificial
O avanço da inteligência artificial torna a questão ainda mais difícil de ignorar.
A tecnologia é apresentada diariamente como instrumento capaz de acelerar processos, automatizar tarefas e aumentar a produtividade.
Mas aumentar a produtividade não significa necessariamente diminuir a jornada.
Essa é a contradição que o editorial procura expor.
Se uma empresa consegue realizar em menos tempo aquilo que antes exigia mais horas de trabalho, o ganho pode aparecer como maior produção. Pode aparecer como redução de custos. Pode ser apropriado pelos proprietários.
Ou pode aparecer no relógio de quem trabalha.
A diferença entre essas possibilidades não está no código da máquina.
Está nas relações de trabalho.
O Brasil já tem um problema de automação diante de si
Um levantamento do McKinsey Global Institute citado pela CNN Brasil estima que 56% das horas trabalhadas no Brasil poderiam ser automatizadas com as tecnologias disponíveis.
É importante não confundir esse dado com a ideia de que 56% dos empregos poderiam desaparecer. A estimativa se refere às horas e às atividades que compõem o trabalho, e não a uma previsão direta de desemprego.
Ainda assim, o número ajuda a dimensionar o tamanho da transformação tecnológica em curso.
Se uma parcela significativa das tarefas pode ser automatizada, a sociedade terá de decidir o que fazer com o tempo liberado.
Essa decisão pode significar mais produção.
Pode significar mudanças nas funções exercidas pelos trabalhadores.
Pode significar substituição de mão de obra.
E também pode abrir espaço para jornadas menores.
A tecnologia, por si só, não escolhe.
Uma contradição dentro da própria indústria de IA
Há outro aspecto que torna o debate particularmente atual.
Enquanto a inteligência artificial é vendida como promessa de eficiência e economia de tempo, profissionais ligados ao próprio setor relatam jornadas muito longas.
Reportagem publicada pelo G1, com informações da BBC, mostrou relatos de trabalhadores de empresas de inteligência artificial submetidos a jornadas que chegam a 90 horas semanais.
O contraste é significativo.
A tecnologia mais recente pode reduzir o tempo necessário para determinadas tarefas, mas isso não impede que organizações continuem exigindo jornadas extensas de pessoas.
A questão levantada pela Voz Trabalhadora aparece novamente: a capacidade técnica de trabalhar menos não garante que as pessoas efetivamente trabalharão menos.
De quanto trabalho uma sociedade realmente precisa?
O editorial propõe, no fundo, uma mudança no modo de medir o desenvolvimento.
Em vez de olhar apenas para o volume produzido, sugere observar também quanto tempo de vida é necessário para produzir aquilo de que uma sociedade precisa.
É uma mudança de perspectiva.
Uma economia pode aumentar sua produtividade e continuar exigindo muito tempo de seus trabalhadores.
Também pode utilizar parte desse ganho para reduzir a jornada.
Nesse sentido, a luta pela redução do tempo de trabalho não seria uma resistência ao avanço tecnológico. Seria uma disputa sobre o destino do avanço tecnológico.
A pergunta deixa de ser apenas:
quanto conseguimos produzir?
E passa a ser:
quanto tempo precisamos trabalhar para produzir o que precisamos?
A disputa pelo tempo
É essa questão que aproxima o editorial da discussão brasileira sobre a escala 6×1.
Para a Voz Trabalhadora, o tempo não deve ser tratado apenas como mais uma variável econômica. É uma parte irrecuperável da existência.
Uma hora que não foi trabalhada pode ser usada para viver. Uma hora que passou não pode ser guardada para depois.
Por isso, quando trabalhadores reivindicam uma jornada menor, a disputa não se resume à folha de pagamento ou à organização da semana.
Há uma disputa sobre o destino de uma parcela da vida.
A PEC que avança no Senado coloca essa questão em termos concretos: se aprovada, a proposta reduzirá a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e garantirá dois dias de repouso semanal remunerado, sem redução salarial, conforme o texto aprovado pela Câmara.
O desfecho político ainda depende da tramitação no Congresso.
Mas o problema levantado pelo editorial permanece mesmo além dessa votação.
O que fazer com o progresso?
A Voz Trabalhadora não questiona a importância do avanço tecnológico. Seu argumento vai em outra direção.
Quanto maior a capacidade de uma sociedade produzir, maior deveria ser sua capacidade de discutir o que fazer com aquilo que deixou de ser necessário produzir pelo trabalho humano.
Se a produtividade aumenta, há mais de uma maneira de utilizar o ganho.
Uma delas é produzir ainda mais.
Outra é ampliar a riqueza acumulada.
Outra é reduzir o tempo de trabalho.
O editorial escolhe colocar a terceira possibilidade no centro da discussão.
Não porque a tecnologia determine que as pessoas devam trabalhar menos, mas porque ela torna essa possibilidade cada vez mais concreta.
A disputa passa, então, por uma pergunta que continua sem resposta automática:
se já conseguimos produzir muito mais do que no passado com uma parcela cada vez menor de trabalho humano, por que o ganho dessa produtividade ainda não se transforma, de maneira mais ampla, em tempo de vida?
É essa pergunta que a Voz Trabalhadora leva para o debate sobre a escala 6×1.
E talvez seja também uma das perguntas mais importantes que a tecnologia coloca para o mundo do trabalho: o futuro servirá para produzir mais ou para permitir que as pessoas precisem trabalhar menos para viver?
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