Washington (US)
27 de setembro de 2026
Agentes do ICE em todo o território dos EUA teriam sido instruídos neste fim de semana a interromper prisões de pessoas sem condenação ou acusação criminal e a encerrar as chamadas prisões colaterais. A informação, ainda sem confirmação oficial, foi publicada com exclusividade pelo Daily Wire neste sábado (26/set).
O QUE ACONTECEU?
Segundo fontes da agência ouvidas sob anonimato pela jornalista Jennie Taer, o Immigration and Customs Enforcement passou a autorizar, por ora, apenas a prisão de imigrantes sem status legal que já tenham condenação criminal ou acusação formal. Quem possui ordem final de deportação, mas não registra condenação nem denúncia, também deixaria de ser preso nessa fase.
A mesma orientação, de acordo com essas fontes, extinguiria as “collateral arrests”: se os agentes encontrarem o alvo criminal ao lado de outras pessoas em situação irregular, só o alvo poderia ser detido.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) não respondeu de imediato ao pedido de comentário do Daily Wire. A Casa Branca também não havia se manifestado publicamente sobre o relato até o fechamento desta edição.
O relato descreve uma orientação interna atribuída a fontes anônimas. Não há, até agora, memorando público, comunicado oficial do ICE ou confirmação do DHS. A permanência irregular nos Estados Unidos continua sendo, em regra, infração civil da legislação de imigração, distinta de um crime comum. A matéria não afirma que a política permanente do governo tenha sido revogada por decreto.
A mudança, se confirmada, inverteria a lógica recente da operação de deportação em massa do presidente Donald Trump, que ampliou prisões de pessoas sem antecedentes penais para elevar o volume de detenções. Dados obtidos pelo CBS News indicaram que julho foi o primeiro mês do segundo mandato em que mais da metade dos presos pelo ICE tinha apenas infração civil de imigração, sem condenação nem acusação pendente.
O Washington Post registrou, em 28 de agosto, que o órgão detinha mais imigrantes sem ficha criminal do que em qualquer outro ponto desde o retorno de Trump à Casa Branca.
Levantamento do The New York Times apontou 43 mil prisões em junho, mais de 49 mil em julho e cerca de 51 mil em agosto. A maior parte dos detidos, segundo o jornal, não havia sido acusada nem condenada por crime.
O QUE SÃO AS PRISÕES COLATERAIS?
Prisão colateral ocorre quando agentes vão atrás de um alvo específico e detêm outras pessoas encontradas no mesmo local — casa, veículo, rua ou local de trabalho — apenas por estarem sem autorização migratória. Análise do Times of San Diego, com dados do Deportation Data Project, contabilizou cerca de 64 mil prisões colaterais entre agosto e o início de março, um quarto das 253 mil prisões do ICE no período. Menos de 2% desses casos colaterais envolviam condenação por crime violento.
A administração de Joe Biden havia restringido essa prática para concentrar a força do órgão em ameaças à segurança pública. O segundo governo Trump a restabeleceu e a combinou com metas diárias de prisão. O The Hill informou que 55% dos presos em meses recentes não tinham qualquer passagem pela polícia, e outros 24% enfrentavam acusações sem condenação.
O DHS contesta a leitura desses números. Em nota ao CBS News, um porta-voz afirmou que o alvo da fiscalização é quem está no país de forma irregular e que parte dos classificados como “não criminosos” pode ter histórico no exterior que não aparece em fichas americanas.
COMO AGENTES DO ICE INTERPRETAM A ORDEM?
Vários oficiais, segundo o Daily Wire, reagiram com irritação à virada abrupta. Um deles ligou o recuo às eleições de meio de mandato de novembro: “Acreditamos que tem a ver com as midterms que se aproximam. Eles estão tentando acalmar as coisas antes das eleições.”
Outra fonte previu efeito operacional imediato: “Vamos ver os números de prisões caírem.”
A reportagem situa o recuo num momento em que a opinião pública endureceu contra o manejo da imigração. Pesquisa da Fox News apontou aprovação de Trump no tema em 43%, abaixo do pico de 48% no verão passado. Cinquenta e três por cento dos eleitores registrados disseram que a fiscalização “foi longe demais”. Entre esses, 45% citaram uso excessivo de força e 49%, o alvo errado.
QUAL O CONTEXTO IMEDIATO DA ORIENTAÇÃO?
O relato chega uma semana depois de um agente do ICE ter baleado um migrante venezuelano em Austin, no Texas. O policial, descrito como contratação recente com passagem pela Patrulha da Fronteira, tinha câmera corporal, mas não a usava no momento do disparo, segundo as fontes. A chefe da polícia de Austin, Lisa Davis, falou inicialmente em “pequena perseguição a pé”, conforme o Daily Wire atribuiu à NBC News. Depois do caso, oficiais em todo o país receberam aviso para usar a câmera corporal nas prisões.
No plano institucional, o secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, acumula desgaste. A Casa Branca retirou, em 17 de setembro, a indicação de Lance Schroyer, aliado de Mullin, para comandar o ICE, conforme o Washington Post e o Politico. A nomeação emperrou no Senado depois que o republicano Rand Paul cobrou mais informações sobre os tiros fatais contra cidadãos americanos em Minneapolis, em janeiro.
Uma fonte do ICE duvidou que a cúpula tenha informado Trump antes de restringir as prisões de não criminosos. Em julho, Mullin chegou a suspender abordagens de veículos após mortes em Biddeford, no Maine, e em Houston. O presidente restabeleceu a tática em seguida. A mesma fonte disse: “Espero que o Trump descubra essa merda e acabe com isso.”
ANÁLISE
Há um descompasso documentado entre o discurso de “os piores dos piores” e a composição real das prisões ao longo de 2026. Não se trata de opinião sobre o direito do Estado americano de aplicar sua lei de imigração. Trata-se do fato, registrado por veículos dos Estados Unidos, de que a busca por volume deslocou a operação para pessoas sem ficha criminal — e de que agora fontes internas descrevem um recuo tático às vésperas das midterms.
Se a orientação se sustentar, o efeito prático será duplo: menos detenções de quem só tem infração civil e menos varreduras de quem está no mesmo ambiente do alvo. Se for revertida por Trump, como ocorreu com as paradas de trânsito em julho, o episódio entra na série de correções de rumo da agência sob Mullin.
Brasileiros e outros latino-americanos que vivem nos Estados Unidos sem status regular, ou que convivem com familiares nessa condição, sentem de imediato qualquer oscilação dessas regras. Reportagens anteriores do Urbs Magna já registraram abordagens do ICE em que o exercício de direitos constitucionais interrompeu a prisão, e casos de detenção de brasileiros pelo mesmo órgão.
O QUE ACONTECE AGORA?
Sem nota oficial, a duração da ordem permanece em aberto. As midterms americanas ocorrem em novembro. Até lá, o contraste entre a fala de agentes, o silêncio do DHS e os dados de prisão de não criminosos deve continuar a alimentar o debate sobre limites da força federal, devido processo e o alcance da política de remoção.
FAQ Rápido
O ICE confirmou a nova ordem?
Não. A informação parte de fontes anônimas ouvidas pelo Daily Wire. O DHS não comentou de imediato.
O que muda nas prisões colaterais?
Pelas fontes, agentes que encontrarem o alvo criminal ao lado de outras pessoas sem status regular só poderiam deter o alvo, e não os demais.
Isso encerra as deportações?
Não. Mesmo no relato das fontes, permanece a prisão de quem tem condenação ou acusação criminal. A legislação de imigração dos Estados Unidos segue em vigor.
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