| Brasília (DF)
27 de agosto de 2026
O Tesouro Nacional divulgou nesta quinta-feira (27/ago) superávit primário de R$ 10,783 bilhões do Governo Central em julho.
O saldo é da gestão de Luiz Inácio Lula da Silva e importa porque entra na prévia das eleições com um recorte de manchete que apaga o nome do presidente.
A análise parte de um fato simples e verificável. A primeira onda de textos reproduziu o jargão técnico — “governo central” — e deixou de fora o titular do Palácio do Planalto.
A Folha de S.Paulo, em despacho de Bernardo Caram a partir da Reuters, publicou exatamente: “Governo central tem superávit primário de R$ 10,78 bi em julho”. O Valor Econômico, com Giordanna Neves e Jéssica Sant’Ana, repetiu a fórmula. A CNN Brasil e O Globo falaram em “contas do governo”. Nenhum desses títulos associa o resultado a Lula.
Há rigor estatístico nisso: Governo Central é a soma de Tesouro, Previdência Social e Banco Central, sem juros da dívida.
Há também escolha editorial. A Gazeta do Povo , dois dias antes, ao tratar da arrecadação recorde de julho (R$ 289,3 bilhões, alta real de 9%), não hesitou no enunciado: “Governo Lula bate recorde de arrecadação”. O mérito fiscal ganha nome quando o veículo decide dá-lo.
Sob a ótica deste portal, o silêncio onomástico na virada mensal das contas públicas não é neutro em ano de disputa.
O número de julho reverte o déficit de R$ 59,070 bilhões de julho de 2025. Receitas líquidas chegaram a R$ 226,305 bilhões, alta real de 7,7%. Despesas totais recuaram 20,7%, a R$ 215,522 bilhões.
O Imposto de Renda subiu R$ 7 bilhões (9,1%). Receitas de exploração de recursos naturais avançaram R$ 5 bilhões (29,4%), no rastro do petróleo, segundo o Tesouro citado por O Globo. Benefícios previdenciários líquidos cresceram R$ 4,2 bilhões (7,4%).
A queda da despesa não é milagre de tesoura permanente. Conforme a Folha, o calendário de precatórios concentrou pagamentos em março de 2026, e não em julho, como em 2025.
Sentenças judiciais despencaram 99% na comparação mensal; o desembolso foi R$ 37,1 bilhões menor. Benefícios previdenciários recuaram R$ 18,1 bilhões (−17,7%) e pessoal, R$ 4,2 bilhões (−8,9%).
O Valor classifica o mês como o sétimo melhor julho em termos reais da série iniciada em 1997. O Globo registra o melhor julho desde 2022 (R$ 22,614 bilhões).
O ano não virou com o mês. De janeiro a julho, o déficit primário é de R$ 81,305 bilhões, ante R$ 70,347 bilhões no mesmo intervalo de 2025.
Em 12 meses, o rombo é de R$ 71,6 bilhões, ou 0,55% do PIB. A meta de 2026 é superávit de R$ 34,3 bilhões (0,25% do PIB), com tolerância que admite resultado zero.
O Tesouro teve superávit de R$ 33,320 bilhões em julho; a Previdência, déficit de R$ 22,234 bilhões; o BC, déficit de R$ 302 milhões. Investimentos caíram 29,9% no mês (R$ 6,677 bilhões) e sobem 42,7% no acumulado (R$ 56,510 bilhões).
O contraste político é o que a cobertura técnica deixa na sombra. Enquanto o título institucional some com o presidente, o apelido do filho sobe. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, virou o principal vetor de desgaste digital do governo, segundo levantamento da consultoria Bites publicado por O Globo: 3,88 milhões de menções ligadas ao escândalo do INSS em 2026 e 1,2 milhão só nos últimos 30 dias.
A coluna de Mônica Bergamo na Folha descreveu pesquisas internas do PT em que a vantagem de Lula sobre Flávio Bolsonaro encolheu de 7 a 10 pontos para 2 a 3. O Datafolha, na leitura do Valor, ainda não via efeito claro na intenção de voto (39% a 33% no 1º turno), mas já registrava desaprovação (50%) acima da aprovação (47%).
A simetria de cobrança é o ponto cego. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do campo bolsonarista, teve áudios e mensagens publicados pelo The Intercept Brasil sobre pedidos de dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco Master, para o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.
Reportagens da BBC News Brasil, da Deutsche Welle e de O Globo descrevem acordo na casa dos R$ 134 milhões e repasses apontados de cerca de R$ 61 milhões.
Em 23 de julho, o ministro André Mendonça, do STF, autorizou inquérito da Polícia Federal após parecer da PGR. Há segunda frente com o ministro Flávio Dino, sobre emendas.
Nesta quinta-feira (27/ago), O Globo voltou ao tema: lançamento após a eleição, perícia e apuração no Supremo.
Não há, nas fontes consultadas, prova de arquivamento nem de “baixa” formal no gabinete de Mendonça. O que se mede é o volume da conversa pública.
A Veja mostrou, com dados da Datrix, que a esquerda empurrou Dark Horse para o centro do debate e reduziu o saldo positivo de Flávio dentro da conversa sobre corrupção.
Ainda assim, o caso do filho do presidente ocupa mais espaço nas redes e nas internas petistas do que o filme ocupa nas capas econômicas do dia em que o Tesouro entrega superávit.
Prestação de contas, neste ponto, é regra de democracia, não de torcida. O governo que arrecada e gasta precisa do nome no mérito e no déficit.
O candidato que pediu dinheiro para um filme sobre o pai precisa do mesmo escrutínio que o empresário investigado por tráfico de influência.
Mas julho no azul não lava o vermelho de R$ 81,3 bilhões no acumulado. E nem Lulinha nas menções deveria anular o inquérito do filme.
O leitor que recebe só o título “governo central” recebe metade do fato.
Nesta quinta-feira (27/ago), O Globo publicou novos detalhes sobre lançamento pós-eleição e perícia de Dark Horse. A AtlasIntel, segundo a Veja, prevê pesquisa sobre o efeito Lulinha para 31 de agosto.
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