Brasília (DF)
20 de setembro de 2026
O ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes afirmou no sábado (19/set) que o risco mais grave às eleições de 2026 não está só na inteligência artificial ou na interferência externa, e sim na politização da Justiça Eleitoral. O recado importa porque o TSE conduz o pleito e o STF se apresenta como instância de supervisão.
A publicação saiu no perfil oficial do decano no X. Gilmar defendeu o prestígio histórico da Justiça Eleitoral, das urnas eletrônicas e da atuação apartidária do Tribunal Superior Eleitoral. Em seguida, descreveu três frentes de risco: conteúdos sintéticos capazes de enganar o eleitor, pressão estrangeira sobre o processo e o que chamou de “risco que vem de dentro”.
O texto não cita nomes de ministros da cúpula do TSE. Veículos que repercutiram a fala no mesmo sábado, como Estadão, CNN Brasil e Valor Econômico, associaram o recado à tensão recente com André Mendonça e Kassio Nunes Marques, hoje vice-presidente e presidente do TSE. Essa leitura é dos veículos, não uma atribuição feita pelo próprio post.
O QUE GILMAR ESCREVEU
Gilmar afirmou que a Justiça Eleitoral “sempre gozou de enorme prestígio entre os brasileiros” e que, a cada dois anos, todos os municípios recebem urnas eletrônicas “confiáveis e auditáveis”. Segundo o ministro, o TSE, “com atuação apartidária e fiel à Constituição”, teria garantido “a paridade de armas entre candidatos e a legitimidade das eleições”.
O desenvolvimento tecnológico, escreveu, criou dificuldades novas. Ferramentas de inteligência artificial “permitem a criação de vídeos, áudios e peças de propaganda capazes de enganar o eleitor e desequilibrar as disputas eleitorais”.
OS ANÚNCIOS FALSOS QUE PASSARAM NA META
Gilmar ancorou o alerta numa reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 17 de setembro pela jornalista Patrícia Campos Mello.
O estudo da organização britânica Ekō submeteu à Meta 15 peças de propaganda eleitoral falsa, geradas com IA e pagas por conta nos Estados Unidos, o que a legislação eleitoral brasileira proíbe. Treze anúncios, 87%, foram aprovados pela moderação automática de Instagram e Facebook. Nenhum chegou a ser exibido ao público, segundo a Folha.
Entre as peças aceitas havia imagem sintética do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, alterando a data do primeiro turno; montagem com Donald Trump pedindo voto em Flávio Bolsonaro; anúncio de seções fechadas e eleição adiada; e convocação a “retomar Brasília, como fizemos em 8 de janeiro”. As imagens foram geradas com chatbots como ChatGPT, Grok e Gemini e não traziam o rótulo de conteúdo sintético exigido pelo TSE.
A Meta afirmou à Folha que reforça o comprometimento em proteger o processo eleitoral. A empresa não classificou os anúncios do teste como conteúdo eleitoral.
O RELATÓRIO RESERVADO DA ABIN
Gilmar também citou “relatório reservado da Abin, revelado hoje pelo mesmo jornal”, sobre “risco crítico de interferência externa nas eleições”, “movida pelo objetivo de assegurar controle sobre nossos ativos estratégicos e riquezas naturais”.
A revelação saiu na coluna de Mônica Bergamo, na Folha, em sábado (19/set), e foi confirmada por O Globo. O documento, intitulado nas reportagens “Ameaças ao processo eleitoral de 2026”, teria sido enviado no fim de agosto à Presidência da República, ao TSE e ao Ministério da Justiça.
Segundo as reportagens, a Abin elevou a possibilidade de influência ou interferência dos Estados Unidos a um “nível de criticidade” e apontou “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”. O texto relaciona o movimento à estratégia do governo de Donald Trump para a América Latina: reduzir a influência de potências rivais, sobretudo a China, e negar a esses países acesso a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. O relatório também descreve apoio à ascensão de governos conservadores alinhados a Washington.
O Urbs Magna já registrou o alerta da agência em matéria específica sobre o documento.
O RISCO QUE VEM DE DENTRO
Depois de tratar de IA e de ingerência externa, Gilmar escreveu: “Mais grave, porém, é o risco que vem de dentro: o da politização da Justiça Eleitoral.”
A frase seguinte é o núcleo político do post: “Quem tenta engajar o Tribunal em proselitismo partidário deve avaliar se reúne condições de nele permanecer. E os partidos políticos e o Ministério Público Eleitoral devem fiscalizar atentamente se essas condições estão presentes, arguindo a suspeição nos casos em que ela se configure.”
O ministro pediu que o TSE continue a coibir “práticas abusivas e deturpadoras da vontade popular”, com “atuação altiva, imparcial e apartidária, cujo único compromisso seja com a Constituição e com as leis”. O STF, “por sua vez, continuará a atuar como instância de supervisão, com a firmeza que o momento exige, intervindo sempre que necessário à preservação de seus próprios precedentes e da Constituição”.
O Consultor Jurídico reproduziu o texto integral no mesmo sábado.
ANTECEDENTES DO EMBATE NO STF
A fala ocorre quatro dias depois da sessão de terça-feira (15/set), quando Gilmar e André Mendonça trocaram acusações no plenário sobre o caso do Banco Master. Naquela sessão, segundo a Agência Brasil, Gilmar afirmou haver “viés político-eleitoral” na condução do tema e chamou a divulgação de “pixuleco” e “boneco eleitoral”. Mendonça rebateu e classificou o colega de leviano.
Na quinta-feira (17/set), Gilmar voltou ao X para comparar o levantamento de sigilo no caso Master a métodos da Lava Jato. O Urbs Magna publicou a íntegra daquela mensagem em Gilmar: “Já vimos esse filme”. O Estadão registrou ainda que Kassio Nunes Marques teria bloqueado Gilmar no WhatsApp após discussão. O post de sábado (19/set) não menciona esses episódios.
Kassio preside o TSE; Mendonça é o vice. Ambos foram indicados ao STF no governo de Jair Bolsonaro. O contexto institucional das eleições de 2026 inclui regras do TSE sobre rótulo de conteúdo gerado por IA e proibição de anúncio eleitoral contratado do exterior.
REPERCUSSÃO IMEDIATA
O post de Gilmar acumulou, nas primeiras horas, milhares de respostas. Romeu Zema, candidato à Presidência pelo Novo, replicou: “A foto do senhor Paulo Gonet foi IA também, Gilmar? Estou no aguardo do seu textão explicando isso.” A provocação remete a uma imagem envolvendo o procurador-geral da República que circulou nas redes; o conteúdo e a origem dessa foto não foram verificados nesta apuração e não constam do texto de Gilmar.
A análise indica que o recado funciona em duas camadas. Na superfície, reitera a defesa das urnas e o combate a deepfakes e a anúncios irregulares. Na segunda camada, desloca o centro da crise para a imparcialidade de quem comanda o TSE e antecipa intervenção do STF se a Corte eleitoral se afastar de precedentes constitucionais.
IMPORTANTE: Gilmar não pediu o afastamento nominal de nenhum ministro. A avaliação sobre “condições de permanecer” e a possibilidade de arguição de suspeição foram formuladas em tese, cabendo a partidos e ao Ministério Público Eleitoral eventual provocação formal.
CONSEQUÊNCIAS E DESDOBRAMENTOS
Até o fechamento desta reportagem, não havia pronunciamento oficial do TSE, de Kassio Nunes Marques ou de André Mendonça sobre o post de sábado. Também não havia petição pública de suspeição protocolada a partir da fala.
O calendário eleitoral segue sob as regras do TSE. O teste da Ekō mostra falha de filtro em anúncios pagos do exterior, mas não comprova que as 13 peças tenham alcançado eleitores. O relatório da Abin, pelo que foi publicado, é avaliação de inteligência enviada a autoridades, não prova consumada de interferência no resultado.
O debate internacional entra pelo mesmo eixo: sanções, tarifas e exigências americanas sobre “dissidentes políticos” já haviam sido registradas em reportagens anteriores. Lula afirmou, na quarta-feira (16/set), que pediria a Trump, na Assembleia Geral da ONU, que não interferisse nas eleições brasileiras, conforme repercussão da TV Brasil e da CBN.
FAQ Rápido
O que Gilmar Mendes disse sobre o TSE?
Afirmou que a politização da Justiça Eleitoral é o risco mais grave às eleições, pediu atuação apartidária e disse que quem tenta engajar o tribunal em proselitismo partidário deve avaliar se reúne condições de permanecer.
Qual fato concreto ele usou para falar de inteligência artificial?
Uma reportagem da Folha de 17 de setembro sobre teste da Ekō: 13 de 15 anúncios eleitorais falsos com IA, pagos dos Estados Unidos, passaram nos filtros da Meta, sem chegar a ser exibidos.
O ministro citou Kassio Nunes Marques ou André Mendonça?
Não. O post não nomeia a cúpula do TSE. A associação com os dois ministros aparece na cobertura de veículos e no contexto do embate da semana no STF.
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Gilmar Mendes está atento