| Brasília (DF)
04 de setembro de 2026
Trinta e um por cento dos eleitores da Geração Z que votaram em Donald Trump em 2024 dizem hoje se arrepender da escolha, segundo levantamento da Navigator Research. O índice é o mais alto entre as gerações que apoiaram o republicano e surge às vésperas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, colocando sob pressão uma parcela do eleitorado jovem que ajudou Trump a ampliar sua presença entre os mais novos em 2024.
O relatório Anything But Apathy, Young Americans Digest and Dissect Politics Differently, publicado em 25 de agosto, reúne 3.000 entrevistas com eleitores registrados, realizadas entre 4 de junho e 27 de julho. O levantamento combina três ondas de aproximadamente 1.000 entrevistas cada, conduzidas a cada três semanas pela Global Strategy Group.
Para a amostra total, a margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, dentro de um intervalo de confiança de 95%. Como ocorre em pesquisas com subdivisões da amostra, as margens de erro são maiores nos recortes geracionais.
Entre os eleitores de Trump em 2024, o arrependimento varia de maneira significativa conforme a geração:
- Geração Z, nascidos entre 1998 e 2008: 31%
- Millennials, nascidos entre 1981 e 1997: 28%
- Geração X, nascidos entre 1965 e 1980: 20%
- Baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964: 10%
O mesmo levantamento, quando organizado por faixa etária, mostra 31% de arrependimento entre os eleitores de Trump de 18 a 34 anos, 25% entre aqueles de 35 a 54 anos e 11% entre os que têm 55 anos ou mais.
A reportagem publicada pelo The Hill em 28 de agosto levou esses números ao debate público norte-americano. No mesmo dia, o Daily Caller destacou o outro lado da pergunta: 69% da Geração Z que votou em Trump afirma não se arrepender da escolha. Entre os millennials, esse índice é de 72%; entre a Geração X, 80%; e entre os baby boomers, 90%.
O que o número de 31% realmente significa?
Os 31% não representam toda a Geração Z dos Estados Unidos. O percentual corresponde exclusivamente aos jovens dessa geração que votaram em Donald Trump em 2024 e que, agora, dizem se arrepender dessa decisão.
Isso significa que, dentro desse grupo específico, a maioria, 69%, ainda afirma não se arrepender do voto.
Também é necessário considerar a natureza da fonte. A Navigator Research é um projeto de pesquisa liderado por profissionais da Global Strategy Group e da GBAO, firmas que possuem histórico de trabalho para campanhas e organizações democratas. O resultado, portanto, deve ser interpretado como uma fotografia da opinião dos entrevistados, e não como uma previsão do comportamento eleitoral.
Por que o recorte jovem chama atenção?
A importância do dado está no contexto da eleição de 2024.
Trump conseguiu ampliar seu desempenho entre eleitores mais jovens em comparação com eleições anteriores. O The Hill, citando dados do Pew Research Center, lembrou que Trump recebeu 42% dos votos entre eleitores nascidos nas décadas de 1990 e 2000, enquanto Kamala Harris obteve 55%.
A análise posterior do próprio Pew indicou que parte dessa mudança esteve relacionada ao maior comparecimento de jovens republicanos e à menor presença de jovens democratas nas urnas.
Agora, a pesquisa da Navigator aponta uma possível fragilidade dentro desse avanço.
A aprovação de Trump aparece em seu menor nível justamente entre os eleitores da Geração Z. Apenas 33% aprovam seu desempenho. Entre os millennials, o índice chega a 38%; na Geração X, a 39%; e entre os baby boomers, a 41%, segundo o The Hill.
No relatório original, a aprovação líquida do presidente é de -32 pontos entre a Geração Z, contra -21 pontos no conjunto do eleitorado.
O dado revela outro contraste: embora 40% dos integrantes da Geração Z classifiquem a política como “muito importante” para sua identidade pessoal, 68% afirmam que os Estados Unidos seguem na direção errada. Apenas 26% consideram que o país está no rumo certo.
Tina Tang, diretora de pesquisas e análises da Navigator, resumiu a contradição em declaração ao The Hill: “Os jovens americanos estão nos dizendo que a política é profundamente importante para quem eles são, mas isso não significa que estejam felizes com o sistema político atual, ou mesmo otimistas em relação aos rumos do país como um todo.”
Em outra declaração ao mesmo veículo, Tang acrescentou: “Os jovens americanos estão desproporcionalmente representados entre as pessoas insatisfeitas com Trump e com a economia. Isso não significa que estejam migrando para um partido ou outro.”
O que está levando eleitores de Trump ao arrependimento?
A pesquisa mais recente não surgiu isoladamente.
Em 23 de abril, a Navigator havia publicado o relatório One in Five Trump 2024 Voters Regret Their Vote, que já apontava que aproximadamente um em cada cinco eleitores de Trump em 2024 se arrependia da escolha. Naquele levantamento, a maioria dos arrependidos tinha menos de 45 anos.
A nova onda, intitulada Feeling Duped: Trump Voters Go From Hope to Regret, publicada nesta quinta-feira (3 de setembro), mantém o índice geral em 20%. Quase um em cada dez entrevistados afirma que já não apoia Trump e que mudaria seu voto se pudesse voltar às urnas de 2024.
Entre os principais motivos apresentados pelos arrependidos aparecem a guerra no Irã, citada por 45%; os preços e o custo de vida, por 43%; os cortes na área da saúde, por 38%; e a percepção de que o governo está priorizando questões consideradas inadequadas, como a reforma do salão de baile da Casa Branca, mencionada por 36%.
A pesquisa de setembro utilizou uma amostra diferente: 1.000 eleitores registrados entrevistados entre 21 e 24 de agosto, com margem de erro de 3,1 pontos percentuais.
As faixas etárias também são diferentes das utilizadas no levantamento de junho e julho. Entre os eleitores de Trump, 30% dos entrevistados de 18 a 34 anos dizem se arrepender do voto; entre os de 35 a 54 anos, o índice é de 18%; e entre aqueles com mais de 55 anos, 12%.
O levantamento também encontrou diferenças relevantes entre grupos raciais e partidários. O arrependimento chega a 34% entre eleitores negros que votaram em Trump e a 32% entre latinos, enquanto fica em 16% entre brancos.
Entre independentes e republicanos que não se identificam como MAGA, o índice chega a 25%.
O arrependimento pode alterar as eleições de novembro?
O Congresso dos Estados Unidos será renovado nas eleições de meio de mandato de novembro. É nesse ponto que o dado sobre a Geração Z ganha relevância política imediata.
A leitura apresentada pelo The Hill é que o desgaste entre jovens que votaram em Trump pode representar um risco para candidatos republicanos nas eleições legislativas.
Mas existe uma ressalva importante: insatisfação não significa automaticamente transferência de votos para os democratas.
A própria Tina Tang evitou estabelecer essa relação direta.
A Navigator identificou um grupo denominado “argumentos econômicos persuasivos”, formado por eleitores que desaprovam a maneira como Trump conduz a economia, mas que também desconfiam dos democratas nesse mesmo tema.
Esse grupo corresponde a 18% do eleitorado geral e a 22% da Geração Z.
“A Geração Z não é um grupo difícil de entender”, disse Tang. “Politics are important to them, but they are also pessimistic about the economy right now.”
O que o dado pode significar para Trump?
A principal conclusão não é que a Geração Z abandonou Trump, tampouco que os jovens migraram em bloco para o Partido Democrata.
A pesquisa não permite afirmar isso.
O que ela mostra é mais específico: entre os jovens que escolheram Trump em 2024, a proporção dos que hoje se arrependem da decisão é maior do que entre as demais gerações que votaram no republicano.
Essa diferença pode ter consequências nas urnas de novembro, mas dependerá de como esses eleitores transformarão sua insatisfação em comportamento eleitoral.
Um eleitor arrependido pode votar em um candidato republicano ao Congresso, escolher um democrata, optar por outro candidato ou simplesmente não comparecer às urnas.
Por isso, o dado funciona melhor como um termômetro político de curto prazo do que como uma previsão para 2028.
Para o debate internacional, há ainda uma questão mais ampla. A mesma coalizão jovem que Trump apresentou como sinal de renovação geracional agora registra a maior taxa de arrependimento entre as gerações analisadas.
O episódio oferece uma lição metodológica também para países latino-americanos que acompanham a política norte-americana, Brasil incluído: conquistar apoio jovem em uma eleição presidencial não significa necessariamente preservá-lo durante o mandato.
Quando preços, custo de vida, guerras, políticas públicas e promessas de campanha entram em choque com a experiência cotidiana do eleitor, a decisão tomada nas urnas pode ser reavaliada.
FAQ Rápido
A pesquisa diz que 31% de toda a Geração Z se arrepende de ter votado em Trump?
Não. Os 31% correspondem somente aos eleitores da Geração Z que votaram em Donald Trump em 2024. Entre esse grupo, 31% afirmam se arrepender da escolha, enquanto 69% dizem não se arrepender.
Quem realizou a pesquisa?
A Navigator Research realizou o levantamento com trabalho de campo da Global Strategy Group. O relatório de junho e julho reúne 3.000 entrevistas com eleitores registrados, realizadas entre 4 de junho e 27 de julho de 2026.
O arrependimento significa que esses jovens votarão nos democratas nas midterms?
Não necessariamente. A própria Navigator ressalta que a insatisfação com Trump e com a economia não significa adesão automática a um dos partidos. Os eleitores podem mudar de voto, manter o apoio aos republicanos ou deixar de votar.
Atualização
Nesta quinta-feira (3/set), a Navigator Research publicou uma nova onda de pesquisa, intitulada Feeling Duped: Trump Voters Go From Hope to Regret.
O levantamento mantém em 20% o índice geral de arrependimento entre os eleitores que votaram em Trump em 2024 e continua apontando o custo de vida e a guerra no Irã entre os principais motivos apresentados pelos arrependidos.
O dado que abre esta matéria permanece sendo o do relatório geracional divulgado em agosto, referente às entrevistas realizadas entre junho e julho: 31% de arrependimento na Geração Z, 28% entre os millennials, 20% na Geração X e 10% entre os baby boomers.
A questão que ficará para as urnas de novembro é menos se a Geração Z “virou” contra Trump e mais se o arrependimento de parte de seus antigos eleitores será suficiente para alterar seu comportamento nas urnas.
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