A Serra Verde tem produção estimada em pelo menos 5 mil t. de óxido de terras raras por ano / Foto: divulgação 2024 Serra Verde
Brasília (DF) · 20 de abril de 2026
Nesta segunda-feira (20/abr), a USA Rare Earth anunciou acordo definitivo para adquirir 100% do Grupo Serra Verde, proprietária da única mina ativa de terras raras em escala comercial no Brasil.
O valor da operação atinge US$ 2,8 bilhões, combinando US$ 300 milhões em dinheiro e a emissão de 126,849 milhões de novas ações da empresa norte-americana, conforme reportou a agência de notícias Reuters.
A Serra Verde opera a mina Pela Ema, localizada em Minaçu (Goiás), e é a única produtora fora da Ásia capaz de fornecer em volume os quatro elementos magnéticos pesados essenciais para ímãs de alto desempenho, veículos elétricos, turbinas eólicas e aplicações de defesa.
A transação deve ser concluída no terceiro trimestre de 2026, após aprovações regulatórias.
O negócio consolida uma cadeia verticalizada norte-americana que inclui mineração no Brasil, processamento nos Estados Unidos e fabricação de ímãs.
Segundo o comunicado oficial da USA Rare Earth, a aquisição cria o “líder global de terras raras” fora da Ásia.
A Serra Verde já havia encerrado contratos de longo prazo com compradores chineses em dezembro passado. O controle da produção brasileira por capital estrangeiro reforça a estratégia dos EUA de reduzir a dependência da China, que domina mais de 80% do mercado global de minerais críticos.
O acordo ocorre meses após o DFC (U.S. International Development Finance Corporation) conceder US$ 565 milhões em financiamento à Serra Verde, com opção de participação minoritária do governo americano.
A operação levanta legítimas questões de soberania mineral. Enquanto o Brasil possui reservas expressivas, a ausência de política industrial robusta para processamento local pode transformar o país em mero exportador de matéria-prima, em vez de protagonista na transição energética.
FAQ rápido
Por que isso foi acontecer em um momento de intenso debate sob o tema da soberania?
A Serra Verde é uma empresa 100% privada (inicialmente com capital brasileiro, britânico e outros investidores estrangeiros). A venda para a USA Rare Earth trata-se de uma transação entre particulares, anunciada em 20 de abril de 2026, e não uma “venda direta” realizada pelo governo federal ou estadual. O negócio ainda depende de aprovações regulatórias (principalmente da Agência Nacional de Mineração – ANM e do Ministério de Minas e Energia) e deve ser concluído apenas no terceiro trimestre de 2026. Nenhum político brasileiro “autorizou” ou “permitiu” a venda como ato discricionário; o que ocorreu foi a ausência de barreiras legais ou políticas que impedissem a transferência de controle de uma empresa privada.
Mas e a política interna do Brasil sobre os minerais críticos e terras raras?
O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, mas nunca desenvolveu uma política industrial consistente para exploração, processamento e agregação de valor local desses minerais estratégicos. A mina Pela Ema, em Minaçu (Goiás), é a única em operação comercial fora da Ásia, mas sua produção inicial está comprometida por contrato de 15 anos com uma estrutura financiada por agências americanas. O financiamento de US$ 565 milhões concedido pela U.S. International Development Finance Corporation (DFC) em fevereiro de 2026 já direcionava parte relevante da produção para o mercado norte-americano (com cláusulas de offtake e opção de participação minoritária dos EUA). Esse aporte ocorreu durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem resistido a acordos exclusivos com os EUA, mas não impôs condições mais rígidas de processamento local ou retenção de controle acionário.
Mas nada foi feito neste sentido, o de promover a produção interna?
Deputados do Partido dos Trabalhadores e da base aliada, como Pedro Uczai (PT) e Rodrigo Rollemberg (PSB), apresentaram projetos recentes para criar uma estatal chamada Terrabras, voltada à exploração e industrialização de minerais críticos. Essas propostas ainda tramitam no Congresso e não foram transformadas em política efetiva até o momento da venda. O vice-presidente Geraldo Alckmin manifestou cautela quanto à criação de nova estatal, defendendo papel regulatório do Estado.
Foi noticiado que o entao governador de Goiás, Ronaldo Caiado, incentivou a venda e o Presidente Lula o criticou. O que dizer disso?
Ronaldo Caiado (então governador de Goiás, do União Brasil / PSD) incentivou ativamente a aproximação com os Estados Unidos no setor de minerais críticos e terras raras. Ele assinou, em março de 2026, um memorando de entendimento (MoU) com o governo norte-americano para cooperação em pesquisa, mapeamento geológico, transferência de tecnologia e possível industrialização de terras raras no estado. Goiás abriga a mina Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu, a única operação comercial ativa de terras raras no Brasil. Caiado também participou de reuniões em Washington e defendeu que o estado pudesse atrair investimentos estrangeiros com incentivos fiscais e agilidade, argumentando que o governo federal demorava para definir uma política nacional. Ele posicionou Goiás como polo estratégico para agregar valor local (separação, ligas e ímãs), gerando empregos e royalties para o estado. O Presidente Lula criticou publicamente Caiado em 8 de abril de 2026, durante entrevista ao ICL Notícias. Lula classificou o acordo como “uma vergonha” e afirmou que Caiado fez “concessão de coisa que ele não pode fazer porque é da União”. O presidente disse ainda que “se a gente não tomar cuidado, essa gente vai vender o Brasil” e reforçou que os recursos minerais do subsolo pertencem à União (artigo 20 da Constituição). Lula citou Caiado e o senador Flávio Bolsonaro no mesmo contexto, acusando-os de quererem entregar terras raras aos EUA sem controle federal.
E agora? Qual o impacto imediato para o Brasil?
A mina Pela Ema continuará operando em Goiás, mas a produção inicial será direcionada prioritariamente ao mercado norte-americano por meio de contratos de offtake de 15 anos.
A aquisição já está concluída?
Não. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026 e depende de aprovações regulatórias em Brasil e Estados Unidos.
Por que a disputa EUA-China importa aqui?
Os minerais críticos são vitais para tecnologias verdes e defesa. O controle da única operação brasileira fora da Ásia altera o equilíbrio geopolítico e exige do Brasil uma estratégia soberana de agregação de valor.
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