Brasília (DF)
01 de outubro de 2026
Emendas do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pagaram um instituto classificado pela Receita Federal como inexistente de fato, com indício de fraude fiscal e documento assinado por pessoa morta desde 2017, além de empresas alvo da Polícia Federal.
O rastreamento, publicado pelo UOL nesta quinta-feira (1/out), recoloca o uso de verba federal no centro da disputa de 2026.
O que o UOL rastreou?
Desde 2020, o gabinete de Flávio Bolsonaro teve mais de R$ 300 milhões reservados em emendas no Orçamento federal, segundo o levantamento. Em 2024, R$ 3,1 milhões foram destinados à atenção básica de Mesquita (RJ), município governado pelo PL. Desse montante, R$ 666 mil foram pagos em agosto de 2025 ao Instituto de Medicina e Projeto (IMP).
Em junho de 2026, a Receita enquadrou o IMP na categoria “inexistente de fato”. O documento do órgão registra “razões que evidenciam que a empresa foi constituída para prática de fraude fiscal, inclusive em proveito de terceiras empresas”. O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro já examinava o instituto.
Acórdão de 2025 apontou ausência de estudos técnicos da prefeitura antes da transferência da gestão da saúde e indícios de conluio na concorrência vencida pelo IMP. O mesmo acórdão registrou que uma das pessoas que assinavam documentos da entidade estava morta desde 2017. O tribunal aplicou multa de R$ 3 milhões e declarou a entidade inidônea por dois anos para outros municípios.
Em abril, a Prefeitura de Mesquita decretou que o IMP não poderia assinar novos contratos por dois anos. O UOL também informa que os contratos do instituto com o município somaram mais de R$ 580 milhões entre 2019 e o fim de 2024.
Reportagem do G1, de 2023, já descrevia o presidente da entidade como idoso, beneficiário de programa social e morador de favor. O instituto está sem site desde 2021.
O pagamento de emenda a uma entidade investigada não significa, por si, que o parlamentar tenha sido denunciado ou condenado por fraude. No caso do IMP, a classificação de inexistência de fato é da Receita, e as irregularidades formais estão no acórdão do TCE-RJ.
A nota do senador afirma que a escolha das empresas cabe aos beneficiários da verba, não ao gabinete.
Quais firmas sob investigação receberam recurso?
A Glágio do Brasil, alvo de busca da PF, recebeu R$ 569 mil entre maio e junho em convênios com emendas de Flávio Bolsonaro. A maior parte saiu de um convênio que também reuniu recursos de Daniela do Waguinho (Republicanos) e Hélio Lopes (PL), para modernização da Polícia Militar do Rio.
No mesmo convênio, a Inbra-Tecnologia recebeu R$ 1,1 milhão, destinados à compra de 342 capacetes balísticos. As duas empresas foram alcançadas pela Operação Perfídia, de setembro de 2023.
A PF apura suspeita de divisão de contratos públicos de proteção balística, com alternância de vitórias por tamanho do equipamento e por região do país. Há indícios de conluio já nas contratações da intervenção federal de 2018, para coletes da PM e da administração penitenciária fluminense.
Mensagem apreendida na investigação registra um representante da Glágio dizendo que o general Walter Braga Netto “prometeu interferir” para sacramentar a aquisição de coletes. Braga Netto foi ministro de Jair Bolsonaro entre 2020 e 2021, candidato a vice em 2022 e condenado na trama golpista.
A investigação da Perfídia corre sob sigilo. Não há, nas fontes consultadas, denúncia formal contra Flávio nesse inquérito. Outra emenda do senador, destinada a Resende (RJ), gerou nove pagamentos à Valle Sul, no total de R$ 6,61 milhões, para a revitalização do aeroporto municipal.
Uma emenda de R$ 4 milhões, de 2025, ligada a projeto esportivo do Vasco da Gama, também entrou no radar da Controladoria-Geral da União, conforme coluna de Juca Kfouri no UOL. Desse valor, R$ 684 mil foram pagos entre março e maio de 2025 à Luiz Armando Marcondes de Oliveira ME, de Sapopemba (SP).
Procurado, Flávio respondeu por nota:
“Sobre a destinação de emendas parlamentares, nem o senador ou qualquer assessor do gabinete indicam empresas para os beneficiários. A atuação do gabinete limita-se às atribuições institucionais relacionadas à indicação das emendas, de acordo com a legislação e critérios de cada ministério. As decisões e procedimentos relativos à contratação são de responsabilidade dos respectivos beneficiários, observadas as normas legais e os procedimentos aplicáveis. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei.”
Como a emenda ao Ifop entrou na Operação Emendatio?
Antes do rastreamento desta quinta-feira (1/out), a PF já examinava outro repasse. Em 29 de novembro de 2023, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), da Taquara, na Zona Oeste do Rio, recebeu R$ 199.999,79 de emenda de Flávio.
O dinheiro passou pelo Ministério do Esporte, no Termo de Fomento nº 941246/2023, para o projeto “Jogadores do Futuro – Vibrando com o Time”.
O O Globo revelou em 20 de maio que a PF apurava o repasse. Segundo a investigação, a intermediação coube a Robson Calixto, o Peixe, policial militar da reserva e condenado por organização criminosa no assassinato de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. Calixto era homem de confiança dos irmãos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão, também condenados como mandantes do crime.
Em 21 de setembro, o Estadão publicou mensagens extraídas do celular de Calixto. A assessora Maria de Fátima Bezerra Castro, salva como “Fafá Flávio Bolsonaro”, negociou a liberação e chegou a orientá-lo a cobrar o senador pessoalmente.
A PF qualifica como possível vantagem indevida o pedido de quatro ingressos de camarote no Sambódromo, obtidos por Calixto junto a um empresário.
A Operação Emendatio, da PF e da CGU, foi deflagrada em 9 de julho, com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Houve dois mandados de prisão preventiva, entre eles o de Calixto, 21 buscas e bloqueio patrimonial de até R$ 100 milhões, sob suspeita de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Flávio não foi alvo de mandado.
Auditoria do Tribunal de Contas da União, incorporada ao inquérito, detectou que parte do valor enviado ao Ifop pagou escritório de advocacia dos próprios administradores da entidade. O relatório registrou que o instituto distribuiu o total recebido entre fornecedores sem demonstrar busca de economia.
O mesmo Ifop recebeu R$ 300 mil da deputada Chris Tonietto (PL-RJ) e R$ 1,5 milhão de Chiquinho Brazão, conforme o O Globo.
Esses foram os únicos recursos públicos da entidade. À época, a assessoria de Flávio afirmou ao Estadão que a emenda seguiu “a legislação vigente e os critérios técnicos do Ministério do Esporte”, que a entidade apresentou notas fiscais, devolveu valores não usados e que “a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar”.
O senador não comentou os diálogos da assessora. O caso já havia sido tratado pelo Urbs Magna na cobertura da cobrança de Anielle Franco.
O “pior dos Bolsonaros”
Em 1º de setembro, no horário eleitoral, o narrador da peça da campanha do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse “Flávio, o pior dos Bolsonaros”, depois de exibir notícias sobre mensagens do senador a Daniel Vorcaro e sobre relações políticas no Rio, conforme o Valor Econômico. A campanha registrou o site “O Pior dos Bolsonaros”.
Na terça-feira (29/set), o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, concedeu direito de resposta a Flávio por um texto desse site que descrevia a carreira do senador como “trajetória de rachadinha, milícia e corrupção”. A decisão, noticiada pelo Metrópoles, acolheu só o trecho sobre milícia e rejeitou outros dois pedidos. O conteúdo já não estava acessível no dia da decisão.
O pai do candidato, Jair Bolsonaro, foi condenado em 11 de setembro de 2025 pela Primeira Turma do STF a 27 anos e 3 meses por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Bolsonaro cumpre pena em prisão domiciliar e está com os direitos políticos suspensos, segundo a CNN Brasil. Nesta quinta-feira (1/out), a defesa voltou a pedir ao Supremo a anulação da condenação.
O apelido de campanha e o rastreamento de emendas tratam de planos distintos. Um é peça eleitoral. O outro é fluxo de dinheiro público já examinado por Receita, TCE-RJ, TCU, CGU e PF. O que permanece aberto é saber se algum desses inquéritos vai além das entidades e alcançará, com denúncia, o autor da indicação orçamentária.
O que acontece agora?
O deputado José Guimarães não é o único a pressionar por auditoria. O deputado Pedro Uczai (PT-SC) pediu ao STF que a CGU examine emendas de Flávio desde 2019, depois das mensagens com Calixto, conforme o Metrópoles.
A eleição presidencial está marcada para domingo (4/out). Até lá, o eleitor tem o dado fiscal, o acórdão de contas e a nota do senador.
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