Brasília (DF)
27 de setembro de 2026
Usuários pró-Lula relatam, nas redes, uma enxurrada de comentários hostis, contas repetitivas e respostas instantâneas em publicações favoráveis ao Presidente do Brasil. O tema importa porque a disputa de 2026 já mistura militância real, impulsionamento pago, conteúdo sintético e automação — e essa mistura distorce o que parece “opinião espontânea”.
O QUE OS RELATOS NAS REDES DESCREVEM?
A queixa recorrente é conhecida de quem acompanha o debate digital brasileiro: um post elogioso ao governo, um vídeo de campanha ou uma live do petista recebe, em minutos, dezenas de mensagens padronizadas. Muitas repetem as mesmas acusações, usam contas com foto genérica e volume incompatível com uso humano comum.
Esse tipo de relato não nasceu agora. Em 2022, a Revista Fórum descreveu o experimento do jornalista Ricardo Corrêa, então editor-chefe de O Tempo. Ele publicou um texto sobre um suposto técnico chamado Lula Pereira. Minutos depois, a postagem foi tomada por comentários contra o então pré-candidato Luiz Inácio Lula da Silva. O teste indicava robôs programados para reagir à palavra-chave “Lula”, independentemente do contexto.
Esse exemplo permanece o caso mais didático e viral sobre o mecanismo: não era necessário defender o presidente para ser atacado. Bastava a palavra.
O QUE SAIU DE FATO NOS ÚLTIMOS DIAS?
Nos últimos dias, o material jornalístico mais denso não é uma auditoria exclusiva de replies em posts pró-Lula. É um mapa de produção em escala no campo da extrema direita.
Na quarta-feira (23/set), a Agência Pública publicou levantamento do Instituto Democracia em Xeque, obtido por Aos Fatos. A rede reuniu 255 perfis no Instagram, com 1.204 posts entre 15 de agosto e 15 de setembro, 58 milhões de visualizações e 5 milhões de curtidas e comentários.
O conteúdo não se limita a elogiar a família Bolsonaro. Há ataques ao STF, desinformação eleitoral, violência política de gênero e um bloco específico sobre Lula, o PT e a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, equivalente a 16% das interações medidas. No núcleo da rede aparece o perfil ligado a Leonardo Rodrigues de Jesus, o Léo Índio, primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, foragido na Argentina.
No mesmo dia, a coluna de Ramiro Brites no Metrópoles mostrou outra camada, desta vez financeira. O investimento diário para impulsionar publicações contra Lula no Instagram e no Facebook subiu de R$ 15,4 mil para R$ 34,5 mil em setembro. Entre 1º e 21 de setembro, o gasto chegou a R$ 1,2 milhão. A média por pessoa passou de R$ 199 para R$ 499. Segundo a reportagem, a maior parte veio de candidaturas, não de páginas anônimas.
IMPORTANTE: Relato de usuário nas redes não prova, sozinho, que o comentário veio de um robô. Conta automatizada, fazenda de IA, impulsionamento pago, grupo de WhatsApp com frase pronta e militante real podem produzir o mesmo efeito visual: uma avalanche de ataques. Sem auditoria da plataforma ou de laboratório, o que se pode afirmar com segurança é o padrão documentado — não a identidade de cada perfil.
QUAIS EXEMPLOS TIVERAM MAIOR REPERCUSSÃO?
Além do teste de Ricardo Corrêa, três episódios recentes ajudam a entender por que a sensação de “enxurrada” se espalhou.
O primeiro é a rede de collabs no Instagram denunciada pela Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) ao TSE em 30 de julho. A ação, relatada pela Folha de S.Paulo e pelo g1, aponta pelo menos 31 perfis, 1,46 milhão de seguidores compartilhados e mais de 23 mil publicações com conteúdo sintético contra Lula. A peça cita Flávio Bolsonaro, os deputados Mario Frias, Gustavo Gayer e Gilvan da Federal, o pré-candidato André Marinho e o perfil de Léo Índio.
O segundo é o fenômeno Dona Maria, avatar gerado por inteligência artificial que viralizou com críticas ao governo e ao STF. O portal já tratou do caso em matéria anterior sobre o perfil sintético. A personagem acumulou milhões de visualizações e levou a federação petista a pedir remoção no TSE.
O terceiro é o episódio Ypê, em maio. A coluna de Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo mostrou que cinco dos dez perfis de maior alcance no X tinham comportamento típico de robô ou conta falsa, todos voltados a pautas bolsonaristas. O Urbs Magna registrou o mesmo levantamento à época.
HÁ ROBÔS DOS DOIS LADOS?
Sim, e esconder isso seria distorcer o quadro. Em setembro de 2025, a VEJA divulgou monitoramento da Brandwatch com volume desproporcional de menções a Lula e perfis hiperativos, um deles com média de 214 postagens por dia. Em fevereiro de 2026, a mesma revista apontou padrões inorgânicos em defesa do presidente após o desfile da Acadêmicos de Niterói.
Em 6 de setembro, outra reportagem da VEJA tratou dos chamados neurobots. O sociólogo Marcelo Senise afirmou que boa parte dos personagens ativos em comentários “não são seres humanos”. O índice geral de “contaminação” ficou em 24%. No recorte por contas, o PL Nacional apareceu com 34% e o PT Brasil com 31%.
Nas últimas horas, posts virais no X inverteram a acusação. A publicação de Flavia Ferronato, no sábado (26/set), sobre “robôs do Lula” atacando youtubers que declararam voto em Flávio Bolsonaro ultrapassou 57 mil visualizações. O dado não prova automação petista, mas mostra como a narrativa de “exército de robôs do outro lado” também circula com força.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA A ELEIÇÃO E PARA A DEMOCRACIA?
A análise aponta que o problema central não é só o xingamento no comentário. É a fabricação de clima. Quando uma publicação pró-governo é coberta por respostas idênticas, o algoritmo entrega briga, não argumento. O eleitor comum passa a achar que “todo mundo” rejeita aquele conteúdo. O inverso também ocorre.
No Brasil, isso afeta diretamente a leitura da opinião pública a poucos dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. No plano institucional, o TSE já foi acionado por redes de IA, deepfakes e amplificação de perfis apócrifos. No plano social, o debate deixa de ser conversa e vira cerco.
A consequência prática é dupla. De um lado, apoiadores de Lula relatam intimidação e cansaço. De outro, qualquer crítica autêntica ao governo corre o risco de ser descartada como “trabalho de robô”. As duas distorções empobrecem o voto.
O QUE ACONTECE AGORA?
As plataformas continuam sendo o território da disputa. O Instagram concentra as fazendas mapeadas em setembro. O X segue como palco de replies em massa. O WhatsApp permanece o corredor invisível por onde circulam frases prontas.
Novas informações poderão ser acrescentadas à medida que laboratórios, o TSE ou as próprias empresas confirmarem auditorias específicas sobre comentários em posts pró-Lula. Até lá, o que está comprovado é o ecossistema: produção sintética, dinheiro de impulsionamento e um histórico documentado de automação reativa contra o nome do presidente.
FAQ Rápido
Os relatos de robôs bolsonaristas atacando posts pró-Lula são novos?
Não. O mecanismo reativo à palavra “Lula” foi demonstrado publicamente em 2022. O que 2026 acrescenta é escala: fazendas de IA, collabs e impulsionamento pago.
Existe matéria recente que prove um aumento isolado desses robôs?
Há matérias recentes sobre fazendas de IA da extrema direita e sobre a alta do impulsionamento contra Lula. Não foi encontrada, nos últimos dias, uma auditoria nova restrita a replies automatizados em posts pró-governo.
Só o bolsonarismo usa esse tipo de estrutura?
Não. Monitoramentos apontam automação e coordenação também em contas favoráveis a Lula. Os percentuais variam conforme o estudo, a plataforma e o recorte.
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Absolutamente nada, pode mudar a minha intenção de votar no Lula, e tenho dito!