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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    27 de setembro de 2026

    A Anvisa analisa 13 notificações de suspeita de neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica em pacientes que usaram canetas emagrecedoras à base de semaglutida e tirzepatida. A apuração, repercutida neste domingo (27/set), importa porque a lesão pode deixar perda visual permanente, embora continue classificada como evento muito raro e ainda sem nexo causal comprovado.

    O QUE A ANVISA ESTÁ APURANDO?

    Segundo reportagens deste domingo (27/set) de O Tempo, da Band e do Mixvale, o painel de farmacovigilância da agência reúne 13 comunicações de suspeita da doença ocular conhecida como NOIA, NOIANA ou NAION.

    A distribuição informada pela imprensa, a partir de esclarecimentos da própria agência, é a seguinte:

    • Ozempic: 5 registros
    • Wegovy: 3 registros
    • Wegovy FlexTouch: 2 registros
    • Rybelsus: 2 registros
    • Mounjaro: 1 registro

    Doze ocorrências estão ligadas à semaglutida, presente em Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Uma está ligada à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro. A Anvisa esclareceu que as notificações são agrupadas por princípio ativo e que um mesmo caso pode aparecer associado a mais de um produto.

    Desde 2018, o painel da agência acumula 24 suspeitas de neuropatia isquêmica óptica, termo que agrupa esse tipo de lesão. Além das 13 notificações agora em evidência, há 74 registros de outros transtornos visuais em usuários dessas canetas, com 37 queixas de visão turva e 29 de comprometimento visual, conforme as mesmas reportagens.

    O QUE É A NOIA E POR QUE ELA PREOCUPA?

    A neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica ocorre quando o fluxo sanguíneo para o nervo óptico se reduz de forma abrupta. O quadro costuma surgir como piora súbita e, em geral, indolor da visão em um olho. Parte do tecido nervoso pode morrer, e a perda visual tende a ser permanente. Não há tratamento específico capaz de reverter o dano já instalado.

    A Organização Mundial da Saúde descreveu a NAION, em 27 de junho de 2025, como uma das principais causas de perda visual em adultos e a segunda neuropatia óptica mais comum depois do glaucoma.

    IMPORTANTE: Notificação ao sistema de farmacovigilância não prova que o medicamento causou a lesão. A Anvisa trata os 13 registros como suspeitas. Diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono, idade avançada e características do disco óptico já são fatores clássicos da NOIA. O uso do fármaco e o diagnóstico posterior, isoladamente, não estabelecem relação de causa e efeito.

    O RISCO JÁ ESTAVA NA BULA?

    Sim, no caso da semaglutida. Em 12 de junho de 2025, a Anvisa alertou que a substância, presente em Ozempic, Rybelsus e Wegovy, pode causar, em frequência muito rara, perda de visão repentina associada à NOIANA. A agência pediu a inclusão da reação nas bulas.

    A decisão brasileira seguiu a conclusão do Comitê de Avaliação de Risco em Farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos, publicada em 6 de junho de 2025. O PRAC classificou a NAION como efeito adverso muito raro da semaglutida, o que significa atingir até 1 em cada 10 mil pessoas tratadas.

    Estudos epidemiológicos avaliados pelo órgão europeu sugeriram risco relativo cerca de duas vezes maior de NAION em adultos com diabetes tipo 2 expostos à semaglutida, o equivalente a aproximadamente um caso adicional a cada 10 mil pessoas-ano de tratamento. A orientação regulatória é inequívoca: perda súbita ou piora rápida da visão exige atendimento imediato; se a NAION for confirmada, o tratamento com semaglutida deve ser interrompido.

    No sistema VigiMed, até 8 de junho de 2025, a Anvisa havia computado 52 notificações de suspeitas de distúrbios oculares relacionadas à semaglutida, entre elas quatro de neurite óptica isquêmica, nove de visão turva, oito de comprometimento visual, sete de cegueira e uma de acuidade visual reduzida, segundo o alerta oficial e a reprodução do g1.

    No Reino Unido, a MHRA atualizou, em 5 de fevereiro de 2026, a mesma advertência para Wegovy, Ozempic e Rybelsus.

    O QUE DIZEM OS ESTUDOS — E O QUE ELES NÃO PROVAM

    O alerta científico ganhou força após um estudo observacional de 2024 publicado no JAMA Ophthalmology, frequentemente citado pela imprensa brasileira, inclusive pela CNN Brasil. A pesquisa associou a semaglutida a risco maior de NAION em coortes de um centro especializado, sem estabelecer causalidade.

    Trabalhos posteriores ampliaram o quadro, com resultados heterogêneos:

    • Análise de 2025 no JAMA Network Open encontrou risco aumentado, porém baixo em termos absolutos, de NAION e de outros distúrbios do nervo óptico em pacientes com diabetes tipo 2 que usavam semaglutida ou tirzepatida.
    • Estudo com veteranos dos Estados Unidos, publicado em 2026 no JAMA Ophthalmology, apontou risco 2,33 vezes maior de NAION em quem iniciou semaglutida na comparação com inibidores de SGLT2, com incidência absoluta ainda baixa.
    • Avaliação de relatos do sistema FAERS da FDA, divulgada em 2026 no British Journal of Ophthalmology e repercutida pelo The Guardian e pelo MedPage Today, encontrou sinal mais forte para Wegovy do que para Ozempic. Os autores interpretaram o padrão como possível efeito dependente de dose e formulação. Nessa base de relatos espontâneos, não surgiu sinal claro para Rybelsus nem para tirzepatida. Relatos espontâneos, contudo, sofrem viés de notificação e não medem incidência real.
    • Análises de ensaios clínicos controlados da própria classe, sintetizadas em 2026, não reproduziram o mesmo aumento observado em estudos observacionais.

    Há, portanto, sinal de segurança suficiente para atualizar bulas e orientar pacientes. Não há, até aqui, prova definitiva de que a semaglutida ou a tirzepatida provoquem a lesão por toxicidade direta. Parte da literatura levanta a hipótese de que a correção rápida da hiperglicemia, e não um efeito tóxico do fármaco, possa contribuir em alguns casos.

    COMO REAGIRAM AS FABRICANTES?

    De acordo com o Mixvale e o O Tempo, a Novo Nordisk, responsável por Ozempic, Wegovy e Rybelsus, afirmou que análises de ensaios clínicos controlados com semaglutida e liraglutida não demonstraram aumento da incidência de NAION em comparação com placebo e que o balanço entre benefícios e riscos permanece favorável. A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, declarou que monitora de forma contínua os dados de segurança de seus produtos, inclusive eventos oftalmológicos.

    Nos Estados Unidos, reportagens recentes descreveram ações judiciais de pacientes que atribuem perda visual a esses medicamentos. Processos em tribunal não substituem avaliação regulatória nem comprovam nexo causal.

    O QUE O PACIENTE DEVE FAZER AGORA?

    A orientação das agências sanitária brasileira, europeia, britânica e da OMS converge:

    • Não interromper o tratamento por conta própria.
    • Procurar atendimento imediato em caso de perda súbita, visão turva de instalação rápida ou piora visual.
    • Informar o prescritor e o oftalmologista sobre o uso de semaglutida ou tirzepatida.
    • Suspender o fármaco se a NOIA for confirmada, conforme a bula atualizada da semaglutida.

    No Brasil, a venda de agonistas de GLP-1 passou a exigir retenção de receita médica a partir de 23 de junho de 2025. A regra busca conter o uso fora de indicação, cenário em que efeitos raros tendem a aparecer com mais frequência simplesmente porque mais pessoas se expõem ao medicamento.

    A discussão também atravessa o SUS. O acesso público a esses fármacos está em debate no país, o que torna ainda mais necessária a informação clara sobre benefícios comprovados — controle glicêmico, redução de peso e proteção cardiovascular em grupos selecionados — e sobre riscos raros, mas graves.

    QUAL É A LEITURA EDITORIAL DESTE CASO?

    A análise aponta que o episódio expõe a tensão entre dois fatos simultâneos. De um lado, as canetas redesenharam o tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. De outro, a farmacovigilância pública precisa acompanhar, com transparência, sinais raros que só se tornam visíveis quando milhões de pessoas usam o mesmo fármaco. A divulgação das 13 notificações não autoriza pânico nem autoriza silêncio. O direito à informação sanitária é parte da proteção à saúde.

    O ponto que permanece aberto é o nexo causal. Enquanto ele não for esclarecido por estudos desenhados para isso, a conduta responsável é vigiar sintomas, registrar eventos adversos e preservar a prescrição médica como filtro contra o uso indiscriminado.

    FAQ Rápido

    As canetas emagrecedoras causam cegueira?
    Não há comprovação de causa e efeito. Há associação estatística em estudos observacionais e classificação regulatória de reação muito rara para a semaglutida. A maior parte das pessoas tratadas não desenvolve a lesão.

    Quem corre mais risco?
    A NOIA já é mais frequente em pessoas com mais de 50 anos, diabetes, hipertensão, distúrbios do sono e disco óptico anatomicamente predisposto. Homens apareceram com sinal mais forte em uma análise de relatos do FAERS envolvendo Wegovy, mas isso não define, sozinho, um grupo de contraindicação.

    Devo parar Ozempic, Wegovy ou Mounjaro?
    Só com orientação médica. A interrupção abrupta sem avaliação pode prejudicar o controle do diabetes e do peso. Perda súbita de visão, porém, exige procura imediata por serviço de urgência oftalmológica.

    Atualização: novas informações poderão ser acrescentadas à medida que fontes confiáveis confirmarem novos desdobramentos da apuração da Anvisa.



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