Brasília (DF)
08 de outubro de 2026
A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) disse em Brasília que o ódio ao PT está impedindo parte da sociedade de examinar o que significaria eleger Flávio Bolsonaro (PL) presidente. A fala entrou na estratégia de comunicação de Lula para o segundo turno, marcado para 25 de outubro.
O QUE ANA ELISA DISSE?
Segundo o Congresso em Foco, a petista afirmou: “Acho que talvez a sociedade, o ódio que a sociedade está pelo lulismo, pelo petismo, não está deixando a sociedade enxergar o que significa ter Flávio Bolsonaro como presidente da república.”
O O Tempo registrou formulação equivalente: “O ódio que a sociedade está pelo lulismo, pelo petismo, não está deixando a sociedade enxergar o que significa ter Flávio Bolsonaro como presidente da República.”
À Terra, Ana Elisa foi além e nomeou o que, na avaliação dela, o eleitor deveria recordar: “A sociedade precisa lembrar quem é Flávio Bolsonaro. É o momento de lembrarmos o que seria Flávio Bolsonaro assumindo a Presidência da República. É trazer a imagem de quem é Flávio Bolsonaro, é uma pessoa trazida com milícia, está envolvida com ‘rachadinha’. O ódio que a sociedade tem com o lulismo não está deixando mostrar o que significa ter Flávio como presidente.”
POR QUE ISSO IMPORTA NO SEGUNDO TURNO?
Ana Elisa não falou como observadora. Ela confirmou que passou a colaborar com a equipe de comunicação do presidente. O Tempo informa que a reunião se estendeu até o fim da noite de terça-feira (6/out). A Terra relata que o encontro foi até as 23h e que, na manhã seguinte, Lula publicou um vídeo em formato de selfie.
A prioridade descrita por ela é dupla: levar a voz de Lula às redes e aos interiores, e colocar no centro da conversa o histórico político e judicial do senador. O Congresso em Foco lista três frentes citadas pela deputada eleita: a investigação do Banco Master, o projeto do filme Dark Horse e o antigo caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
IMPORTANTE: Citar esses casos não equivale a condenação. A denúncia das rachadinhas, apresentada pelo Ministério Público do Rio em 2020, não teve o mérito julgado: provas foram invalidadas pelo STJ e pelo STF, a denúncia foi retirada e o procedimento foi encerrado, conforme reconstrução publicada pelo Brasil de Notícias / BN Amazonas. Flávio sempre negou as acusações. No caso Dark Horse, o Congresso em Foco informa que a Polícia Federal investiga a atuação do senador na busca de recursos junto a Daniel Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro; Flávio admitiu o contato e negou irregularidade. São investigações e acusações, não sentenças.
QUEM É A DEPUTADA QUE ENTROU NA COMUNICAÇÃO DE LULA?
Ana Elisa Santos Silva tem 21 anos, nasceu em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, é estudante de Direito e filha de mãe solo. Filiou-se ao PT em março de 2026 e disputou a primeira eleição neste ano, pela Federação Brasil da Esperança.
O g1, com base no Tribunal Superior Eleitoral, registra 524.216 votos. A CNN Brasil, em texto automático também atribuído ao TSE, aponta 524.219. A diferença é de três votos. Nos dois registros, ela foi a segunda mais votada do estado, atrás de Nikolas Ferreira (PL), que teve 3.119.318 votos, e a mulher mais votada da história de Minas para a Câmara. O g1 a descreve como a deputada federal mais jovem já eleita no país.
Antes da eleição, reunia cerca de 2 milhões de seguidores no Instagram e quase 1 milhão no TikTok. Ao Congresso em Foco, atribuiu cerca de 90% da votação ao trabalho nas redes. A O Tempo reproduz outra fala dela: “Eu fui votada nos 853 municípios de Minas Gerais e rodei cerca de 20 municípios. Então, é a prova que a rede social chega muito antes do que o nosso próprio corpo nos territórios.”
O QUE A CAMPANHA PRETENDE FAZER COM ESSA VOTAÇÃO?
A CNN Brasil relata que a campanha de Lula passou a tratar Ana Elisa como símbolo do eleitor jovem e da estratégia digital que o PT considera necessária para tentar a virada. Em áudio divulgado a jornalistas, ela disse que ser a primeira mulher preta eleita aos 21 anos para a Câmara, em 200 anos de Casa, “significa muita coisa”, e que não quer ser a única.
O Metrópoles informa que Lula se reuniu com jovens parlamentares eleitos, entre eles Ana Elisa, Pedro Rousseff (PT-MG), Rick Azevedo (PSol-RJ), Guilherme Cortez (PSol-SP) e Fábio Félix (PSol-DF). No vídeo publicado por ela, o presidente afirmou: “Depois de eleger essa jovem deputada federal em Divinópolis, o que falta para a gente eleger Lula presidente em Minas Gerais? É só a gente fazer algumas atividades, falar mais na rede digital e esperar que a gente vai derrotar o bolsonarismo de Minas Gerais como derrotamos da outra vez.”
O mesmo veículo aponta que Flávio terminou o primeiro turno em Minas 588.612 votos à frente de Lula. A petista respondeu a esse mapa com uma frase direta ao O Tempo: “É possível reverter o quadro, sim. A voz do presidente Lula precisa chegar nos interiores de Minas, nos lugares mais escondidos.”
O QUE JÁ SE SABE SOBRE OS CASOS QUE ELA QUER RECOLOCAR NO DEBATE?
A investigação das rachadinhas começou quando Flávio era deputado estadual. O Ministério Público do Rio o denunciou, em 2020, por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita, com Fabrício Queiroz apontado como operador da devolução de salários do gabinete. Flávio negou. O processo não chegou a julgamento de mérito.
No caso Master, reportagem do Congresso em Foco de 11 de setembro descreve inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, em julho, para apurar se o senador atuou na obtenção de recursos de Daniel Vorcaro para Dark Horse. A Polícia Federal o trata, segundo a reportagem, como interlocutor direto do banqueiro. Paulo Gonet, procurador-geral da República, viu indícios consistentes para a abertura do inquérito. Flávio admitiu ter procurado Vorcaro e negou ilícito.
Em setembro, o Grupo Prerrogativas e o deputado Rui Falcão (PT-SP) pediram ao MP-RJ a reabertura das rachadinhas, conforme o Correio Braziliense. O pedido não significa reabertura automática.
COMO ISSO SE LIGA AO QUE O URBS MAGNA JÁ ACOMPANHOU?
A disputa que Ana Elisa tenta recolocar em termos de biografia já aparecia, antes do primeiro turno, como empate técnico. O Urbs Magna registrou, em 17 de setembro, Datafolha com Lula a 39% e Flávio a 36%, dentro da margem de erro. Outra leitura da casa, baseada em análise da Eurasia, apontava modelos em 50% a 50% e probabilidade ainda favorável a Lula pelo peso da incumbência e pelas fragilidades ainda não testadas da campanha do senador.
A análise aponta que a frase de Ana Elisa nomeia o obstáculo que essa estratégia enfrenta: se o voto se organiza primeiro contra o PT, o exame do currículo do adversário chega tarde, ou não chega. Isso não apaga o desgaste do governo nem transforma acusação em condenação. Delimita o campo em que a campanha petista decidiu brigar até 25 de outubro.
O QUE ACONTECE AGORA?
Ana Elisa segue em Brasília como uma das vozes digitais escaladas para o segundo turno. A resposta de Flávio à fala específica não foi localizada nas fontes consultadas até o fechamento deste texto. O senador, em outros momentos da campanha, tem atribuído ao PT o uso político do ódio e negado irregularidades nos casos que o cercam.
Atualização: na quinta-feira (8/out), o g1 e a CBN informaram que a Polícia Civil investiga e-mail de 5 de setembro, com ameaças de morte e estupro, enviado por autor que se diz integrante de grupo supremacista branco. O caso é anterior à fala sobre Flávio e não se confunde com ela.
FAQ Rápido
Ana Elisa já tomou posse?
Não. Foi eleita em 4 de outubro. A CNN Brasil informa que os deputados federais eleitos tomam posse em 1º de fevereiro de 2027.
Flávio Bolsonaro foi condenado na rachadinha?
Não. Houve denúncia em 2020. O mérito não foi julgado. Provas foram invalidadas, a denúncia foi retirada e o caso foi encerrado. Ele nega as acusações.
Quantos votos Ana Elisa teve?
O g1, citando o TSE, registra 524.216. A CNN Brasil registra 524.219, também com base no TSE. Ela foi a segunda mais votada de Minas, atrás de Nikolas Ferreira.
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