Brasília (DF)
25 de setembro de 2026
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) gravou nesta sexta-feira (25/set) um vídeo para assegurar a católicos que as tradições religiosas do país permanecerão resguardadas enquanto ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) estiverem no governo. A mensagem chegou no mesmo dia em que Lula percorreu o centro do Recife com aliados, a nove dias do primeiro turno de 4 de outubro.
No material divulgado em suas redes, o vice afirmou ter recebido recados de fiéis inquietos com o que chamou de “notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem”. Sem nomear o adversário, prometeu continuidade às devoções.
“Tenho recebido mensagens de católicos preocupados com os rumos do país e com as notícias lamentáveis que estão circulando desde o dia de ontem. Preciso esclarecer que, enquanto o presidente Lula e eu estivermos governando esse país, as tradições religiosas tão sagradas para as famílias brasileiras estarão protegidas e preservadas. Defendemos que o Brasil é um país que tem respeito por todas as religiões e capaz de conservar pacificamente as tradições católicas”, disse Alckmin:
A escolha do recado não é casual. Alckmin é católico, frequenta o Santuário Nacional de Aparecida e, desde 2023, atua como ponte do Palácio do Planalto com lideranças religiosas. Nesta sexta, enquanto o presidente concentrava a caminhada “Brasil Pronto pra Mais” entre o Cais de Santa Rita e o Marco Zero, o vice ocupou o terreno simbólico da padroeira.
COMO NOSSA SENHORA APARECIDA ENTROU NA DISPUTA?
A cadeia começou na noite de quinta-feira (24/set). No Em Pauta, da GloboNews, a comentarista Maria Cristina Fernandes falou de uma reação na Igreja Católica a um suposto movimento evangélico em torno de projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Ela avaliou que o episódio poderia favorecer Lula entre católicos. Na fala original, segundo a BBC News Brasil e a CNN Brasil, a jornalista não atribuiu a proposta ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O recorte, porém, circulou nas redes com a afirmação de que o candidato do PL pretendia cassar o título da santa. Na madrugada de sexta-feira (25/set), a própria emissora corrigiu o ponto na Edição da Meia-Noite. A apresentadora Marcelly Setúbal leu o recado: a proposta citada é de dezembro de 2007 e foi arquivada em agosto de 2008. “Nós pedimos desculpas pelo erro”, disse a casa, conforme a BBC e o Estado de Minas.
O QUE FLÁVIO BOLSONARO TEM A VER COM ISSO?
Em vídeo gravado durante agenda em Minas Gerais, ainda na quinta, Flávio classificou a versão como invenção da militância petista.
“Estamos aqui na correria de agenda em Minas Gerais e sou surpreendido com uma mentira, uma fake news daquela, para variar, que a milícia do PT está inventando na internet: que eu iria tirar a padroeira do Brasil. Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, afirmou, segundo a CNN Brasil.
Na legenda, escreveu: “Respeito todas as religiões e também quem não tem religião!” Depois da retratação da GloboNews, republicou o desmentido e acrescentou: “O projeto SEQUER EXISTE! Fiquem espertos, pois a máfia do pt vai espalhar várias mentiras ao longo de todos os dias até as eleições.”
Não há, nas bases da Câmara dos Deputados, projeto de autoria de Flávio sobre o tema. A associação ganhou força por dois fios paralelos: o texto antigo de um aliado posterior de Jair Bolsonaro e uma promessa do próprio senador, feita em 24 de agosto, de que um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, conforme O Tempo e a BBC.
QUAL É O PROJETO DE 2007 E QUEM É VICTÓRIO GALLI?
O texto que voltou a circular é o PL 2.623/2007, apresentado em 12 de dezembro de 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli (PMDB-MT). A ementa altera a Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que instituiu o feriado de 12 de outubro “para culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil”.
A nova redação proposta era: feriado “para homenagem oficial a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos.” O feriado permaneceria. Mudavam o alcance do título e a expressão “culto público e oficial”. Galli argumentou que o país, por ser Estado laico, “não deve ter este ou aquele padroeiro”, segundo a Agência Câmara.
A Comissão de Educação e Cultura rejeitou o mérito. Sem recurso, a Mesa Diretora arquivou a proposição em 22 de agosto de 2008, nos termos do art. 133 do Regimento Interno. Em 2018, quando o mesmo texto ressurgiu contra Jair e Eduardo Bolsonaro, a Câmara e o G1 já haviam certificado o arquivamento. Eduardo, à época, observou que em 2007 sequer era deputado.
Galli não se reelegeu em 2018. Em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência na Casa Civil de Onyx Lorenzoni, no governo Jair Bolsonaro. Foi exonerado depois de condenação a indenização de R$ 100 mil por manifestações preconceituosas contra pessoas homossexuais, conforme a Folha de S.Paulo. Esse vínculo posterior, e não a autoria de 2007, é o elo documental entre o projeto e o clã Bolsonaro.
O PL 2.623/2007 não apaga o feriado de 12 de outubro nem “acaba” com Nossa Senhora Aparecida. Troca o título legal de padroeira do Brasil pelo de padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos. O texto foi rejeitado e arquivado em 2008. Não tramita. Flávio Bolsonaro não é autor da proposição. A proclamação papal de 1930, feita por Pio 11, é ato da Santa Sé e não se confunde com a lei brasileira de 1980, sancionada por João Figueiredo.
POR QUE O TEMA PESA A NOVE DIAS DA URNA?
Datafolha divulgado na quinta-feira (24/set), citado pela BBC, mostra o fosso religioso da campanha: entre católicos, Lula tem 45% e Flávio, 33% no primeiro turno; entre evangélicos, Flávio chega a 47% e Lula, a 27%. A padroeira é o maior símbolo católico popular do país. A imagem negra encontrada no rio Paraíba do Sul em 1717 foi proclamada padroeira do Brasil em 1930. O feriado nacional veio em 1980.
Bispos têm falado em soberania, pobreza e recusa a transformar templo em curral. O cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, disse em vídeo desta semana: “Nós não temos partido. Mas temos uma causa: o Evangelho e os pobres. Vote pela democracia.” Dom Guilherme Werlang, bispo de Lages, advertiu: “As igrejas não são currais eleitorais.” Na quarta-feira (23/set), o presidente da CNBB, Dom Jaime Spengler, afirmou em café com jornalistas que a mistura de religião e política, na história, “não foi positivo”, segundo a CNN.
Flávio, batizado no rio Jordão e frequentador de cultos evangélicos, constrói campanha no lema “Deus, pátria, família e liberdade”. A frase de agosto sobre decretar que “o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” foi lida por críticos — e por colunistas da Folha — como atrito com o artigo 19 da Constituição, que veda ao poder público estabelecer culto ou aliança com igreja. O senador apresenta a fala como profissão de fé, não como cassação da padroeira. A campanha dele, segundo a CNN, avalia levar o caso ao TSE.
NADA MUDA
Nada muda na lei de 1980. Não há proposição em tramitação. O que se move é o calendário: 4 de outubro. Lula busca consolidar o voto católico popular e o Nordeste; Flávio, o bloco evangélico que já o favorece. Alckmin, peça da chapa para o eleitor conservador moderado, ocupou o vácuo com a garantia de que as tradições “estarão protegidas e preservadas”.
A análise aponta que o episódio revela menos um projeto legislativo vivo e mais o uso eleitoral da fé num país em que a laicidade do Estado convive com a maior basílica mariana do mundo. O fato comprovado é o arquivo de 2008. A disputa que permanece aberta é outra: quem fala em nome da padroeira — e com qual alcance institucional — na reta final de 2026. O vice já havia cobrado de Flávio explicações sobre outros episódios da campanha, como o financiamento do filme Dark Horse, em matéria anterior do Urbs Magna.
FAQ Rápido
Flávio Bolsonaro quer tirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida?
Não há projeto de sua autoria nem declaração pública nesse sentido. Ele negou a intenção na quinta-feira (24/set) e disse que o projeto “sequer existe”. O texto que circula é de 2007 e está arquivado desde 2008.
O que o PL 2.623/2007 realmente propunha?
Manter o feriado de 12 de outubro e alterar a Lei 6.802/1980 para chamar a santa de padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos, em vez de padroeira do Brasil.
Por que o nome de Victório Galli voltou agora?
Porque ele é o autor do projeto antigo e, em 2019, foi assessor especial da Presidência no governo Jair Bolsonaro, o que reativou o vínculo político nas redes, embora Flávio não tenha assinado a proposição.
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