Brasília (DF)
15 de outubro de 2026
Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro revelam que o ex-CEO do Banco Master revisava e alterava reportagens do portal Metrópoles antes da publicação. O fato, divulgado nesta quarta-feira (15/out) pelo UOL, reacende o debate sobre influência privada sobre a imprensa e sobre o risco de que o mesmo poder se estenda à Presidência em caso de vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2026.
O QUE AS MENSAGENS DA PF MOSTRAM SOBRE O METRÓPOLES?
Segundo o levantamento do UOL com base nos dados da PF, a linha direta entre Vorcaro e a CEO do grupo Metrópoles, Lilian Tahan, foi estabelecida em 2024, ano em que o banco fechou contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o portal. Pelo menos 14 textos foram enviados previamente ao então banqueiro. Destes, 11 sofreram alterações após pedidos dele, e duas reportagens foram publicadas a pedido do dono do Master.
Em abril de 2025, ao encaminhar um perfil sobre Vorcaro, Lilian Tahan escreveu: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. Outros diálogos mostram o ex-banqueiro pedindo remoção de trechos, como menções a falência, ajustes em comparativos de balanços com o BRB e até “freada” em cobertura de opositores políticos. Em 17 de novembro de 2025, dia da primeira prisão de Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, Lilian ainda enviou textos sobre a venda à Fictor e confirmou: “Publicada hahahaha”.
Questionada, Lilian Tahan afirmou que checar com a fonte se a matéria reflete o contexto é prática adotada com personalidades empresariais, da política e do Judiciário. Ela sustenta que o contrato não interferiu na cobertura e aponta matérias do Metrópoles que expuseram empresas ligadas a Vorcaro, como Ambipar, Fictor e Oncoclínicas. O portal é de propriedade de Luiz Estevão, ex-senador condenado por desvio de recursos públicos.
IMPORTANTE: A prática de enviar textos para fontes antes da publicação não é, por si só, ilegal. Porém, o volume de alterações atendidas a um único anunciante, em paralelo a um contrato milionário, levanta questões sobre independência editorial. As mensagens estão no material da PF e foram reportadas pelo UOL.
COMO TABET CONECTA O CASO À ELEIÇÃO DE FLÁVIO BOLSONARO?
O humorista e ator Antonio Tabet repercutiu a reportagem em sua conta no X. Em um dos posts, afirmou: “Ou seja, Daniel Vorcaro mandava em empresários, em advogados, em deputados, em senadores, em ministros do STF, em artistas e em jornalistas. Agora, cabe a você, eleitor, decidir se ele vai também mandar no presidente do Brasil.”
A observação de Tabet ocorre a dez dias do segundo turno, marcado para domingo (25/out), que opõe o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao senador Flávio Bolsonaro (PL). Investigações da PF e reportagens de veículos como Intercept Brasil, piauí e Valor já documentaram a proximidade entre Flávio e Vorcaro: mensagens em que o senador trata o banqueiro de “irmão” e “irmãozão”, negociações para financiar o filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro (valores negociados em torno de US$ 24 milhões/cerca de R$ 134 milhões na época), registros de contato no celular e uso de aeronave ligada ao grupo. Flávio negou inicialmente qualquer relação e depois reconheceu parte dos contatos, afirmando que se tratava de patrocínio privado sem contrapartida. A PF o descreveu, em documentos, como interlocutor direto de Vorcaro.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Estimativas de fraude e rombo ao sistema (incluindo Fundo Garantidor de Créditos) circulam em dezenas de bilhões de reais. Vorcaro permanece preso preventivamente no âmbito da Operação Compliance Zero.
ANTECEDENTES E CONTEXTO DA INFLUÊNCIA
A relação com o Metrópoles se soma a outras conexões já mapeadas: contratos com escritórios ligados a familiares de ministros do STF, pagamentos a ex-autoridades, encontros com parlamentares e tentativas de viabilizar a venda ao BRB. A análise aponta que o padrão de aproximação de Vorcaro com veículos de comunicação e agentes públicos ilustra o risco de captura de espaços de poder quando instituições de controle não conseguem conter a tempo estruturas de influência financeira.
No Brasil, casos de pressão publicitária sobre redações não são novos, mas a combinação de volume de dinheiro, acesso direto à CEO e alterações sistemáticas em textos, documentada em mensagens da PF, diferencia o episódio.
O QUE ACONTECE AGORA?
O segundo turno ocorre em 25 de outubro. O caso Master continua a gerar depoimentos e novos vazamentos de mensagens. Vorcaro depôs à PF nesta quinta-feira (15/out) sobre os negócios com o BRB. Qualquer desdobramento político dependerá do resultado eleitoral e das decisões judiciais sobre sua prisão e eventuais colaborações.
A questão colocada por Tabet permanece aberta: se o mesmo padrão de influência documentado na imprensa e em outros setores se repetiria em escala institucional maior.
FAQ Rápido
Vorcaro realmente editava textos do Metrópoles?
Sim, segundo mensagens da PF analisadas pelo UOL: pelo menos 14 textos foram enviados antes da publicação e 11 sofreram alterações a pedido dele.
Qual a relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro?
Há mensagens, contatos telefônicos e negociações de financiamento para o filme Dark Horse documentadas em investigações da PF e reportagens. Flávio reconheceu parte dos contatos após negar inicialmente.
Vorcaro está solto?
Não. Ele permanece preso preventivamente no âmbito da Operação Compliance Zero.
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