| Buenos Aires (AR)
07 de setembro de 2026
O salário mínimo da Argentina perdeu 40,8% do poder de compra entre novembro de 2023 e setembro de 2026, segundo o Centro de Economía Política Argentina (CEPA). O piso legal voltou a um patamar real semelhante ao de abril de 2002, no auge da crise que derrubou a convertibilidade.
O salário mínimo, vital e móvel (SMVM) é a referência legal do mercado de trabalho argentino. Quando esse piso se descola dos preços de comida, transporte e energia, a perda atinge primeiro quem vive de jornada completa na base da pirâmide — e se espalha para informalidade, aposentadorias atreladas ao mínimo e negociações coletivas.
O que o CEPA mediu?
De acordo com a síntese divulgada pela Prensa Latina, o informe mais recente do CEPA compara o poder de compra do SMVM de novembro de 2023 — mês anterior à posse de Javier Milei — com setembro de 2026.
Para recuperar apenas o nível médio de 2023, o piso precisaria subir 271.315 pesos, ou 70,7%, a valores de setembro de 2026. A mesma conta, convertida pela agência, equivale a cerca de 176 dólares a mais por mês.
O recuo não se encerra na comparação com o início do governo. O CEPA afirma que o salário mínimo vigente está 12,3% abaixo da média da década de 1990 e 66,9% abaixo do pico histórico de setembro de 2011. Para voltar àquele teto, o SMVM deveria chegar a 1.158.888 pesos.
IMPORTANTE: A perda de 40,8% é uma medida de poder de compra — salário nominal deflacionado —, não uma queda do valor escrito no contracheque. O salário mínimo em pesos subiu. O que encolheu foi o que esse dinheiro compra. O número descreve o piso legal argentino, não o salário médio de todos os trabalhadores do país.
Como ler esses pesos a partir do Brasil
Em setembro de 2026, o governo argentino fixou o SMVM em 383.800 pesos para jornada completa, após o Conselho do Salário não fechar acordo, conforme a Resolução 4/2026 citada por veículos locais como o Infobae. A escala oficial sobe em degraus até 437.000 pesos em abril de 2027.
Para o leitor brasileiro, o ponto não é a cotação do dia. É a função social do piso. No Brasil, o salário mínimo entra na conta de benefícios previdenciários, BPC e parte da dinâmica do mercado formal. Na Argentina, o SMVM também serve de âncora — cada vez mais fraca — para o trabalho registrado de menor remuneração. Quando o piso perde quatro décimos do valor real em menos de três anos, a referência deixa de proteger e passa a normalizar a queda.
Análise
O contraste com a política brasileira recente de recomposição do mínimo e de alívio na base da renda ajuda a entender por que o experimento argentino interessa ao debate sul-americano: não como espelho automático, mas como evidência do custo social de um ajuste que comprime o chão salarial.
O salário subiu 158%. As tarifas, muito mais
O CEPA compara a trajetória nominal do SMVM com preços que pesam no orçamento de quem ganha pouco. Enquanto o salário mínimo avançou 158% no período analisado, as tarifas tiveram outra ordem de magnitude:
- metrô (subte): +2.005%
- ônibus urbano: +1.510%
- trem: +1.090%
- eletricidade, gás e outros combustíveis: +856%
- gasolina comum (nafta súper): +631%
A conta é direta. Quem depende de transporte público e energia residencial viu o custo da vida urbana comer o reajuste do piso. Informes anteriores do próprio CEPA sobre o AMBA já mostravam o transporte passando de fatia residual do SMVM a item pesado no orçamento mensal.
Quem decide o salário mínimo na Argentina?
O CEPA afirma: “Desde que assumiu Javier Milei, a Secretaria do Trabalho laudou sistematicamente o SMVM nos níveis reclamados pelas organizações patronais, desconhecendo os pedidos de recomposição do poder aquisitivo feitos pelas organizações de trabalhadores.”
Segundo o centro, esse critério se repetiu em junho de 2024, dezembro de 2024, abril de 2025, novembro de 2025 e setembro de 2026. A conclusão do informe, na síntese da Prensa Latina, é que a política “desnaturalizou” o SMVM: o piso deixou de funcionar como garantia vital e passou a ser definido de forma reiterada sem acordo tripartite.
Centrais sindicais argentinas pediram, na rodada de agosto e setembro de 2026, um piso próximo de 900 mil a 993 mil pesos. O Executivo estabeleceu a escala que começa em 383.800. A distância entre o pedido laboral e a resolução oficial é o dado institucional do impasse.
O 40,8% do CEPA conversa com outros estudos?
Sim, no sentido da tendência — com metodologias e meses de corte diferentes. Relatórios do IIEP da Faculdade de Ciências Econômicas da UBA, acompanhados por veículos como Perfil e Buenos Aires Times, situaram a perda real do SMVM em torno de 39% a 40,5% entre novembro de 2023 e o primeiro semestre ou julho de 2026. O CIFRA-CTA também registrou queda superior a 40% e o recorte de -40,8% em atualização de julho de 2026.
Nenhum desses trabalhos substitui o informe do CEPA agora citado. Eles mostram, porém, que a erosão do piso não é um número isolado de uma planilha.
Há, ainda, o contexto maior da economia argentina sob Milei: dívida com o FMI em alta, transferência de plantas industriais e compressão do mercado interno, temas já tratados pelo portal em Argentina e na cobertura sobre a desindustrialização no país vizinho.
O que acontece agora?
O cronograma oficial leva o SMVM a 437.000 pesos em abril de 2027. Se a inflação de alimentos, transporte e energia continuar acima desses reajustes nominais de cerca de 1,7% a 1,9% ao mês, a perda real não se reverte — apenas se desacelera ou se aprofunda.
A questão que permanece aberta é institucional: se o Conselho do Salário voltará a produzir acordo tripartite ou se o piso seguirá sendo homologado pelo Executivo no patamar patronal. Desse desenho depende se o SMVM recupera função de proteção ou permanece como teto baixo para a base da renda.
FAQ rápido
O salário mínimo argentino caiu 40,8% em pesos?
Não. Caiu 40,8% em poder de compra, segundo o CEPA. O valor nominal em pesos subiu; a inflação comeu esse aumento e ainda reduziu o que o salário compra.
O piso de setembro de 2026 dá para viver acima da linha de indigência?
Veículos argentinos e o próprio debate do Conselho do Salário apontam que o SMVM de 383.800 pesos ficou abaixo da cesta alimentar usada para medir indigência de uma família. O CEPA, no recorte agora divulgado, enfatiza o atraso em relação a 2023, aos anos 1990 e a 2011.
Isso afeta o Brasil?
Não altera o salário mínimo brasileiro. Afeta o debate regional sobre ajuste, emprego formal e piso salarial no Mercosul, e o fluxo de empresas e trabalhadores entre os dois países.
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