O embaixador Rubens Barbosa chefiou as embaixadas brasileiras em Washington e Londres; ele fez leitura crítica sobre a crise nas instituições multilaterais e o impacto direto dos conflitos bélicos na estabilidade econômica e na soberania brasileira | 13.4.2026 | Imagem reprodução / Roda Viva / TV Cultura
São Paulo (SP) · 14 de abril de 2026
O embaixador Rubens Barbosa, ex-representante do Brasil em Londres e Washington, diagnosticou em entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, um mundo marcado pela ruptura da ordem internacional construída após 1945.
Segundo ele, a posse de Donald Trump em janeiro de 2025 acelerou a transição para um cenário em que prevalece a lei do mais forte, com enfraquecimento da OMC, da ONU e do multilateralismo.
Barbosa destacou que o Brasil sofre diretamente os reflexos dessa instabilidade, especialmente pela dependência externa de fertilizantes — cerca de 90% importados de regiões afetadas pelos conflitos, como China, Rússia e Irã.
A escalada no Oriente Médio, com envolvimento de Estados Unidos, Israel e Irã, e o risco ao Estreito de Ormuz, elevaram custos de frete, seguro, petróleo (acima de US$ 100 o barril em momentos recentes) e insumos, pressionando o agronegócio, que representa 25% do PIB brasileiro.
Como presidente da Abitrigo (Associação Brasileira da Indústria do Trigo), Rubens Barbosa alertou para o endividamento no campo e para o repasse inevitável de custos à farinha e ao pão.
“Além desses custos todos, o governo ainda colocou um imposto, o PIS/COFINS”, observou, referindo-se à tributação sobre o trigo importado que encarece ainda mais a produção.
Ele previu impacto na inflação e no crescimento, com o agro vulnerável apesar de ser um grande “asset” nacional pela tecnologia tropical e posição como celeiro do hemisfério sul.
O ex-embaixador criticou a ausência de projeto estratégico de longo prazo no Brasil desde os anos 1970, no governo Geisel.
“Nós perdemos essa ideia de visão estratégica”, afirmou, apontando vulnerabilidades em tecnologia, educação, defesa e minérios estratégicos (como terras raras).
Ele defendeu que o setor privado e o Congresso participem mais da construção de políticas, e que o país defina interesses nacionais acima de ideologias.
Sobre a política externa, Barbosa avaliou que o Brasil tem perdido credibilidade por declarações vistas como alinhadas ideologicamente — seja no governo Bolsonaro (alinhamento automático com EUA) ou no atual (posições sobre Ucrânia, Gaza e Israel que geraram desgaste).
Ele citou a ausência de embaixador em Israel e iniciativas como grupo de paz para Ucrânia ou interferência em Gaza como exemplos de ações desgastantes.
“A política externa brasileira era uma política de Estado, não de governo”, ressaltou.
Barbosa defendeu neutralidade ativa: o Brasil não pode se alinhar automaticamente nem à China (para onde vão 50% das exportações, com 35% da soja) nem aos EUA. “Cada país defende o seu interesse”, disse, citando a Índia como exemplo.
Ele mencionou o potencial do agro (40% do aumento global de consumo de alimentos até 2050 virá do Brasil, segundo estudos da FAO) e da matriz energética limpa, mas alertou para a necessidade de atrair investimento com estabilidade jurídica, política e econômica.
No tema terras raras, questionado sobre discurso de Flávio Bolsonaro nos EUA defendendo o Brasil como “solução” para os americanos, Barbosa rejeitou tanto o “alinhamento automático” quanto posturas ideológicas puras.
“Não pode dar exclusividade só para um país”, defendeu, exemplificando com montadoras chinesas que produzem carros elétricos no Brasil mas importam baterias da China.
Sugeriu prazos para produção local de componentes.
Ele avaliou positivamente o Acordo Mercosul-União Europeia, que entrará em vigor provisoriamente em 1º de maio de 2026, como oportunidade geopolítica e comercial para diversificar parcerias, embora tenha alertado para desafios de competitividade industrial.
“A importância do acordo é mais geopolítica do que comercial nesse primeiro momento”, observou.
Sobre BRICS, Barbosa viu potencial econômico, mas problemas políticos com Rússia e Irã em conflito. Criticou provocações que dificultam negociação com EUA, citando ausência de canais diretos entre Planalto e Casa Branca e o papel de empresários como Joesley Batista em contatos.
Defendeu cooperação no combate ao narcotráfico sem risco à soberania, citando exemplos do México e Colômbia.
Na defesa, apontou vulnerabilidades na Amazônia, fronteiras marítimas e orçamento das Forças Armadas.
Sobre programa nuclear, defendeu avanço pacífico (ciclo completo do combustível, submarino nuclear, mini usinas), sem alterar a Constituição para fins bélicos.
Barbosa previu possível retorno de tarifas americanas via Seção 301 e interferência indireta via big techs nas eleições brasileiras, citando lição da Hungria.
“Hoje prevalece a lei do mais forte”, repetiu, defendendo que o Brasil coloque “a casa em ordem” para projetar-se externamente.
Outros temas incluíram a perda de competitividade industrial (de 25% para 11% do PIB), a importância da educação para IA e novas tecnologias, e a necessidade de o Congresso e sociedade civil assumirem protagonismo.
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