JUSCELINO KUBITSCHEK em aceno interativo com apoiadores | 24.3.1973 | Imagem reprodução / Redes Sociais / AI-colorized image/photo
| Brasília (DF)
08 de maio de 2026
Um novo capítulo da história brasileira está prestes a ser escrito. Pouco mais de três meses antes de completar 50 anos da morte de Juscelino Kubitschek, um robusto relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) concluiu que o ex-presidente não foi vítima de um acidente, mas sim assassinado pela ditadura militar.
O documento, assinado pela historiadora e relatora Maria Cecília Adão, possui mais de 5 mil páginas e promete reacender o debate sobre a responsabilidade do Estado em um dos casos mais emblemáticos e controversos do regime de 1964 a 1985.
A reviravolta é significativa por se tratar de um órgão de Estado instituído por lei em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso, e não meramente uma comissão da sociedade civil.
A CEMDP tem a finalidade de reconhecer oficialmente pessoas mortas ou desaparecidas em razão de atividades políticas entre 1961 e 1988.
A expectativa nos bastidores da comissão é de que o texto da relatora seja aprovado, com pelo menos cinco votos favoráveis entre os sete conselheiros, abrindo caminho para a retificação da certidão de óbito de JK e de seu motorista, Geraldo Ribeiro.
A queda da versão oficial
Naquele trágico domingo, 22 de agosto de 1976, o Opala conduzido por Geraldo Ribeiro, amigo e motorista de JK, perdeu o controle na altura de Resende, na Via Dutra, sendo abalroado por uma carreta após invadir a pista contrária.
As investigações conduzidas pelos órgãos de repressão na época concluíram que o carro foi atingido por um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem — tese repetida pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
No entanto, o novo relatório desmonta essa versão. O trabalho de fôlego da CEMDP utiliza como pilar central um inquérito civil conduzido pelo Ministério Público Federal (MPF) entre 2013 e 2019, cujos resultados foram divulgados apenas em 2021.
O procurador da República Paulo Sérgio Ferreira Filho foi enfático ao afirmar que “houve falhas severas nas investigações realizadas pelo Estado brasileiro”.
A “peça-chave” para a desconstrução da tese do acidente foi uma perícia do engenheiro Sergio Ejzenberg, especialista em transportes convidado pelo MPF.
Ejzenberg produziu simulações em 3D que, segundo a reportagem da Folha de S.Paulo, “demoliu tecnicamente os laudos anteriores” do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).
A conclusão técnica é direta: não houve colisão entre o ônibus e o Opala antes do desgoverno. O engenheiro classificou os laudos que embasaram a Comissão da Verdade como “imprestáveis” e suas conclusões como “equivocadas”.
Contexto de perseguição e a Operação Condor
O relatório não se limita à física do acidente, destacando o contexto de perseguição política que cercava Juscelino Kubitschek.
Favorito nas pesquisas para as eleições presidenciais que seriam em 1965 — canceladas pelo golpe —, JK teve seu mandato de senador cassado e direitos políticos suspensos por uma década logo após 1964.
Na época de sua morte, integrava a Frente Ampla, movimento de oposição à ditadura ao lado de nomes como Carlos Lacerda e João Goulart.
O documento resgata ainda o papel da Operação Condor, a articulação repressiva entre as ditaduras do Cone Sul apoiada pelos Estados Unidos.
Uma carta revela que Manuel Contreras, chefe da polícia secreta chilena e cabeça da Condor, escreveu ao então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), João Figueiredo (futuro presidente-ditador), citando o nome de JK ao lado do diplomata chileno Orlando Letelier como ameaças à “estabilidade” dos regimes militares na região.
Letelier foi brutalmente assassinado em um atentado a bomba em Washington no mesmo ano de 1976.
O paralelo com Zuzu Angel e o “in dubio pro victima”
A análise encontra um paralelo direto com o caso da estilista Zuzu Angel, também morta em um “acidente” automobilístico em 1976.
Na ocasião, a CEMDP revisou a decisão inicial e reconheceu que Zuzu Angel foi vítima de um atentado promovido pela repressão.
Assim como no caso da estilista, o relatório sobre JK baseia-se na teoria jurídica do “in dubio pro victima” (na dúvida, a favor da vítima), defendida por juristas como Gilberto Bercovici (USP) e o argentino Luis Moreno Ocampo (ex-procurador do Tribunal Penal Internacional).
Aplicando este princípio, somado às evidências técnicas e ao contexto histórico, o documento sustenta que a morte não foi natural, violenta e foi causada pelo Estado brasileiro por perseguição política.
Um dos conselheiros mais resistentes à reabertura do caso foi o representante do Ministério da Defesa, Rafaelo Abritta, que atuou na relatoria conjunta do processo.
Apesar das resistências iniciais, a perspectiva de aprovação é ampla, envolvendo conselheiros como Diva Santana, Natália Bonavides, Vera Paiva e a procuradora Eugênia Gonzaga, presidente do colegiado.
O que está em jogo agora não é uma indenização financeira à família — os prazos legais para isso expiraram há anos —, mas o reconhecimento oficial da verdade histórica.
Caso aprovado, a CEMDP pedirá ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a retificação das certidões de óbito de JK e Geraldo Ribeiro, alterando para sempre a narrativa oficial sobre a morte de um dos presidentes mais icônicos do Brasil e corroborando a tese de que a ditadura não hesitou em eliminar seus opositores mais fortes.
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