Brasília (DF)
20 de outubro de 2026
Uma empresa pioneira no mercado de apostas do Rio de Janeiro, ligada por inquérito da Polícia Federal ao senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL), pagou R$ 5 milhões por uma licença cada Loterj, lançou outra marca e optou por não fazer qualquer publicidade. Em dois anos e meio, os depósitos de apostadores somaram apenas R$ 732.584,30.
A Rede Loto, controlada pela offshore Cathedral Holdings (registrada na Ilha da Madeira), foi a primeira empresa a obter autorização para operar apostas esportivas no estado, em maio de 2023. Segundo a coluna de Demétrio Vecchioli no Metrópoles, a companhia tem o advogado Willer Tomaz e familiares dele entre os sócios. A Cathedral Holdings também pagou viagens de jato executivo para Flávio Bolsonaro e familiares entre Portugal e França em 2025, fato revelado em documentos da PF e reportado por veículos como a Folha de S.Paulo.
O QUE A REDE LOTO FEZ COM A LICENÇA?
A empresa constituiu-se dias antes do edital da Loterj. No primeiro dia de credenciamento, apresentou documentação às 9h09 e, à noite, já tinha aprovação. O depósito da outorga de R$ 5 milhões (atualizado para cerca de R$ 5,03 milhões com correção) foi feito pela própria Cathedral Holdings a partir de conta no Santander em Brasília. A Loterj era então presidida por Hazenclever Cançado (PL), advogado com atuação conjunta anterior com Willer Tomaz e indicação política associada ao bolsonarismo.
Inicialmente a operação usou a marca Loto Carioca. O Instagram teve a primeira postagem em 14 de junho de 2023. Menos de dois meses depois, uma publicação com o ator Eri Johnson foi a última; em outubro o site já estava fora do ar, segundo a própria empresa. Em novembro de 2023 a marca mudou para BestBet. Houve posts diários com odds até janeiro; o perfil parou de ser atualizado, embora o site tenha permanecido no ar até pelo menos setembro de 2024. A Rede Loto comunicou depois à Loterj a intenção de incorporar Loto Legal e Blend365 (esta última já existia e tinha garotos-propaganda como Eduardo Costa, Netinho de Paula e Emerson Sheik). A empresa afirma que a marca Loto Legal jamais foi ao ar e que a tratativa com a Blend365 não se concretizou.
NÚMEROS E A EXPLICAÇÃO DA EMPRESA
Relatórios da RioPag (intermediadora de pagamentos ligada a Willer Tomaz) à Loterj mostram que, até fevereiro de 2025, os depósitos somaram R$ 732.584,30 e os saques R$ 717.476,66. Após tarifas, o resultado foi um prejuízo de cerca de R$ 10 mil. A média mensal ficou em torno de R$ 10 mil. A média mensal ficou em torno de R$ 24 mil — volume residual para uma operação que pagou R$ 5 milhões de outorga.
Em nota enviada ao Metrópoles, a Rede Loto afirmou: “A Rede Loto, credenciada pela Loterj (Termo nº 001/2023), nunca fez o lançamento comercial de nenhuma operação. Manteve um único site no ar, inicialmente ‘Loto Carioca’ e depois ‘BestBet’… sem campanha publicitária, patrocínio ou qualquer ação comercial.” E completou: “É o movimento residual de um site sem divulgação, não de uma operação de apostas.” A empresa não respondeu por que adquiriu a licença, montou estrutura e optou por não divulgá-la. Willer Tomaz, por meio de assessoria, havia dito anteriormente que a Rede Loto “nunca lançou operação de aposta” — afirmação que contrasta com os comunicados à Loterj, os perfis e os relatórios de depósitos.
CONTEXTO DA INVESTIGAÇÃO E ANTECEDENTES
O caso está no centro de inquérito da Polícia Federal que envolve Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz sob suspeita de lavagem. Willer é investigado também no escândalo de descontos indevidos no INSS. A mesma Cathedral Holdings que controla a Rede Loto pagou os voos europeus. Documentos da PF e reportagens do UOL e da Folha indicam ainda que Willer movimentou volumes muito elevados em plataformas concorrentes, como a Blaze (estimativas chegam a R$ 10 bilhões em 2025 em depósitos, apostas e saques). Ele chegou a pedir na Justiça a devolução de cerca de R$ 10 bilhões em 2025 em depósitos, após taxas e saques. Ele chegou a pedir na Justiça a devolução de cerca de R$ 134 milhões, alegando vício em jogo; o pedido foi negado.
A análise aponta que o padrão de “lançar e abandonar” sem publicidade, combinado com o alto custo da licença e o volume irrisório de apostas, levanta questões sobre a finalidade econômica real da operação. O fato ocorre em um momento em que o mercado de apostas está sob restrição por medida provisória do governo federal (MP 1.394/2026), que paralisou sites. A Rede Loto informou ter interrompido atividades em cumprimento à norma.
IMPORTANTE: A Rede Loto e Willer Tomaz afirmam que as empresas e participações são lícitas, identificadas em registros públicos e na declaração de Imposto de Renda, e que não há sócios ocultos. Flávio Bolsonaro e o advogado descrevem a relação como amizade familiar, sem contrapartida econômica. Não há, até o momento, acusação formal ou condenação contra o senador nesse inquérito específico. A PF investiga; o contraditório ainda está em curso.
FAQ Rápido
Por que uma empresa pagaria R$ 5 milhões por uma licença e não faria publicidade?
A Rede Loto afirma que manteve apenas um site residual, sem lançamento comercial. A reportagem do Metrópoles registra que a companhia chegou a comunicar mudanças de marcas à Loterj e que houve depósitos (ainda que baixos). A empresa não explicou a decisão de não divulgar.
Flávio Bolsonaro é sócio da Rede Loto?
Não há registro público de participação societária direta do senador. A ligação investigada pela PF passa pela Cathedral Holdings (dona da Rede Loto), que pagou viagens dele, e pela relação pessoal com Willer Tomaz.
O que aconteceu com as três marcas?
Loto Carioca e BestBet tiveram presença digital limitada e foram abandonadas ou descontinuadas sem campanha. Loto Legal e a tratativa com Blend365 não se concretizaram comercialmente, segundo a própria empresa.
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