Brasília (DF)
15 de setembro de 2026
O ministro
O ministro Gilmar Mendes classificou o colega André Mendonça como “pixuleco eleitoral” e “boneco eleitoral” na sessão do STF desta terça-feira (15/set). O decano afirmou que a condução do caso Master carrega “inequívoco viés político-eleitoral” e tenta arrastar a Corte para a campanha. A discussão interessa porque o plenário decide, pela primeira vez, se abre inquérito contra um de seus integrantes, o ministro Alexandre de Moraes.
O Supremo Tribunal Federal reuniu-se para analisar o relatório da Polícia Federal sobre conversas entre Alexandre de Moraes e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. Gilmar Mendes questionou o recorte da pauta e o calendário da apuração.
“Há um inequívoco viés político-eleitoral na forma como os autos foram conduzidos nesse inquérito. Escolha de data, 7 de setembro, envolvendo essa Corte em campanha eleitoral. Isso não se faz”, disse o decano, conforme o registro do portal.
Em seguida, endureceu o vocabulário. “O interesse é evidente. Acachapante. Extravagante. Evidente que se trata de um ‘pixuleco’, de um boneco eleitoral. É disso que nós estamos falando”.
André Mendonça interrompeu e classificou a acusação como leviana. “Não aponte o dedo. Não está falando com qualquer um”, retrucou. Gilmar Mendes devolveu: “Quem não se dá ao respeito não merece respeito”.
O decano falou em atitude “covarde” e “vil” e repetiu a frase que correu as redes: “Até a máfia tem ética. É preciso ter decência”.
O que significa “pixuleco”?
O termo não nasceu no plenário. Reportagens de O Globo e da Folha recordam que “pixuleco” circulou na Lava Jato, em 2015, como gíria de propina atribuída a João Vaccari Neto. No mesmo período, o apelido colou no boneco inflável de Luiz Inácio Lula da Silva vestido de presidiário, usado em atos pelo impeachment de Dilma Rousseff.
Em 2026, o sentido mudou de alvo. Segundo O Globo, um boneco de André Mendonça foi erguido em ato na Avenida Paulista no 7 de setembro. Gilmar Mendes cruzou a imagem popular com a acusação de que o colega teria escolhido o calendário eleitoral para tensionar o tribunal.
Por que o julgamento importa para as eleições?
O presidente do tribunal, Edson Fachin, restringiu a pauta ao caso de Moraes e deixou para 23 de setembro a análise de eventual conduta irregular atribuída a Mendonça, conforme o UOL. Ministros próximos de Moraes pediam julgamento conjunto.
Horas antes da sessão, vazaram diálogos de Vorcaro que citam filhos de ministros, entre eles Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, e um advogado próximo de Mendonça. Gilmar Mendes afirmou que o relator teria selecionado mensagens e omitido outros nomes. O decano mencionou, segundo o UOL, relatos de pagamentos mensais de R$ 500 mil ao filho de Nunes Marques.
A sessão ocorre em pleno ciclo das Eleições 2026. Gilmar Mendes disse, conforme o Band, ter alertado Fachin e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a necessidade de separar a Corte da disputa. “Tentaram arrastar o Supremo Tribunal Federal para esse tipo de prática e pensaram que iriam ficar imunes e impunes”, afirmou.
Como as redes leram o racha da Corte?
Nas redes, o vídeo do confronto se sobrepôs ao mérito jurídico. Perfis de direita celebraram Mendonça como resistência a Moraes. Atentos à composição da Corte, eles trataram o episódio como evidência de que parte do tribunal teria se tornado peça de campanha — leitura que Gilmar Mendes verbalizou no plenário ao falar em “boneco eleitoral”.
A cobrança também atingiu o presidente da Casa. Reportagem da CNN Brasil mostrou, já na quarta-feira (09/set), que alas distintas do tribunal convergiam na crítica a Edson Fachin: a avaliação interna era a de que a tentativa de ganhar tempo ampliou a guerra de despachos. A Folha descreveu o mesmo fenômeno: ministros anteciparam movimentos porque não confiavam na capacidade da presidência de conter a crise.
Isso gerou memes de Fachin nas redes sociais:
Prefiro evitar a fadiga… pic.twitter.com/QkLSmB3bqd
— Wilson Lima (@wilsonlimaslz) September 9, 2026
Do outro flanco, o pastor Silas Malafaia acusou Fachin de atuar contra Mendonça e de integrar o que chamou de “confraria” para proteger Moraes. Na coluna de Mônica Bergamo, o religioso retomou o passado do ministro na Lava Jato e afirmou que Fachin “descondena Lula”. O fato histórico é outro e está documentado: em março de 2021, Fachin anulou condenações de Lula na 13ª Vara de Curitiba por incompetência do juízo, decisão depois confirmada pelo plenário.
Em publicações desta terça-feira (15/set), usuários acusaram a presidência de ter “embarcado” em manobras de Mendonça. Outros inverteram o sinal e denunciaram uma ofensiva para blindar Moraes. O ponto comum, nas duas margens, é o diagnóstico de que o tribunal perdeu o controle interno.
O risco institucional está na conversão do plenário em palanque. Quando um ministro chama o outro de “boneco eleitoral” e a presidência é cobrada por não “botar ordem na casa”, o que está em disputa deixa de ser só um inquérito e passa a ser a capacidade da Corte de julgar sem servir a projeto de poder — inclusive o que observadores associam à campanha de Flávio Bolsonaro.
O que o decreto da pauta realmente delimita?
Fachin não julgou o mérito das mensagens. Delimitou o objeto da sessão: saber se há elementos para investigar Moraes. A conduta de Mendonça ficou para data posterior. Flávio Dino e Fachin também divergiram sobre rito e ordem de falas, segundo o G1.
A crise vem de semanas. Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência. Dino reintegrou os delegados. Fachin suspendeu as duas linhas de decisão e retirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news. Cada movimento alimentou a tese, nas redes, de golpe interno — tese que o jornalismo registra como acusação política, não como fato jurídico comprovado.
FAQ rápido
O que Gilmar Mendes quis dizer com “pixuleco eleitoral”?
Usou o termo, associado à Lava Jato e a bonecos de protesto, para acusar André Mendonça de conduzir o caso Master com objetivo de influenciar a disputa eleitoral.
O STF já abriu inquérito contra Alexandre de Moraes?
A sessão desta terça-feira (15/set) foi convocada exatamente para decidir se a investigação será aberta. Até o fechamento desta matéria, o ponto central era o relatório da PF sobre os diálogos com Daniel Vorcaro.
Edson Fachin está sendo investigado?
Não há, nas fontes consultadas, inquérito contra o presidente da Corte. Há críticas internas, cobranças de ministros e ataques de lideranças religiosas e de perfis nas redes à forma como ele tenta administrar a crise.
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