Brasília (DF)
06 de outubro de 2026
O ex-ministro José Dirceu afirmou, na segunda-feira (5/out), ao jornalista Breno Altman, do Opera Mundi, que o aperto de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno tem mais a ver com o custo de vida e com a precarização do trabalho do que com a proibição das bets ou com a ausência no debate da TV Globo. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Flávio Bolsonaro (PL) terminou o primeiro turno de domingo (4/out) com 47,03% dos votos válidos (56.104.503 votos). Lula (PT) ficou com 45,16% (53.879.538 votos). A diferença, de 1,87 ponto percentual e cerca de 2,2 milhões de votos, é a menor já registrada entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.
Na live do Opera Mundi, Dirceu resumiu o resultado com a frase de que a chapa “deixou de empatar por 1,8”.
Perguntado se a proibição das bets e a ausência no debate da Globo interferiram na reta final, Dirceu deslocou o eixo. Disse que a sensação social é a de que a economia não melhorou, “apesar de ela ter melhorado”, por causa da precarização do trabalho e da falta de bons empregos. Citou a formação de cerca de 20 milhões de pessoas no ensino superior e a expansão de autônomos, PJ e MEI, sobretudo em cidades de serviços como São Paulo .
O ex-ministro contestou a tese de que o trabalhador abre mão da CLT por adesão ideológica. Relatou pesquisa com MEI em que 30% não querem a CLT e 27% querem. Também rejeitou a ideia de que motoboys seriam, em bloco, bolsonaristas: “a experiência mostrou que não é verdade”. Para ele, a luta desses trabalhadores reaparece depois de três a cinco anos de submissão.
O QUE A PRIVATIZAÇÃO TEM A VER COM O SALÁRIO?
Dirceu sustentou que o trabalhador vive de salário — ele falou em 90% — e não compra saúde, educação nem transporte como mercadoria. Já paga cesta básica e conta de luz cara porque luz, telecomunicações, água e transporte carregam imposto de consumo. Defendeu explorar mais, na campanha, que a sexta cesta básica deixará de ter imposto com o IVA.
Na leitura dele, esses temas “parecem triviais”, mas foram exatamente onde Flávio Bolsonaro “começou a se pegar”, além da bandeira de mudança de governo. O petista disse ter sentido falta, na primeira etapa do horário eleitoral, desse enfrentamento direto com o discurso do adversário sobre o dia a dia.
O depoimento recoloca a eleição no terreno material — tarifa, cesta, imposto sobre consumo — e não só na polarização institucional. O paralelo com o Brasil é imediato: o segundo turno de 25 de outubro será decidido, em larga medida, por quem convencer o eleitor de que a conta do mês cabe no salário.
BETS E DEBATE MUDARAM
Dirceu foi reticente. Lembrou que o debate da Globo acabou não acontecendo, “independente do Lula”, e associou a saída de Lula à de Renan Santos . Não atribuiria ao episódio a diferença final, justamente porque a votação quase empatou.
Sobre as bets, citou que cerca de 70% da população seria favorável à proibição. Recordou que o Senado aprovou o tema antes e que o governo havia proposto a regularização do jogo. Viu contradição em manter jogo do bicho e bingo como contravenção enquanto o jogo online foi autorizado. Flávio, em 27 de setembro, criticou o veto e chamou Lula ao debate da Globo, segundo o Valor Econômico. A medida provisória de proibição foi assinada por Lula em 25 de setembro, conforme o O Globo.
Dirceu trouxe uma hipótese ouvida do professor Beto Vasques, no programa de domingo: o problema não teria sido a ausência de Lula, e sim Flávio ter se ausentado depois de duas decisões do STF e explorado a volta do Supremo à pauta, associando Lula a Alexandre de Moraes e omitindo Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça. O caso Vorcaro, disse, “fez a festa” tanto na ala bolsonarista quanto na antibolsonarista.
O QUE A LAVA JATO AINDA EXPLICA
O ex-ministro ligou a força atual da direita a uma sequência de afastamentos: Mensalão (Ação Penal 470), com presidente, secretário-geral e tesoureiro do PT atingidos, líder do governo, presidente da Câmara e líder do PT afastados e cinco ministros fora; depois a Lava Jato, a prisão de Lula e o que ele chama de golpe contra Dilma Rousseff. “Isso teve efeito e fortaleceu muito a direita.”
Dirceu reconheceu erros próprios: institucionalização, burocratização e abandono da construção social. Disse que o PT se equivocou sobre os evangélicos — “não é problema religioso, é problema de agenda” — e citou a votação do ECA Digital, em que parte da bancada evangélica mudou de posição sob pressão de mães, e a rejeição majoritária de mães às armas. Defendeu explicitar ensino integral, ensino técnico, Pé-de-Meia e creche como bem-estar das famílias.
Também falou em expulsão de lideranças dos territórios, inclusive de pessoas atingidas pela Lava Jato sem cargo partidário, por terem passado por fundos de pensão e bancos. Sobre o pacto de 1988, afirmou que ele foi rompido com o impeachment de Dilma e com a tentativa de golpe de Bolsonaro, depois de uma desconstrução do Estado que, na sua conta, começa em Collor, passa por Fernando Henrique e chega a Temer, com a privatização da Eletrobras e a pressão sobre a Petrobras.
E AGORA?
Dirceu não vê, no eleitorado brasileiro, o medo de intervenção norte-americana que atribui ao caso argentino. Disse que o tarifaço não funcionou, que o país buscou novos mercados e que o governo protegeu emprego e empresas, com vale-gás, isenção de conta de luz até a faixa de 80 a 120 kW, isenção de Imposto de Renda, Desenrola e financiamento habitacional. Admitiu que o governo “podia ter feito mais”, mas não resolveria sozinho problemas estruturais, e que, para uma parcela das classes populares, o PT é visto como responsável pelo Brasil — ônus de quem governa e já venceu cinco eleições, com uma base que ele estimou em 50 milhões de votos.
A relação de Flávio com Donald Trump foi tratada como grave. Dirceu falou em 21 exigências e defendeu levar o tema ao debate, para que o adversário diga se é a favor ou contra. O segundo turno, na sua conta, se ganha ou se perde na explicitação desse contraste: cotidiano do salário de um lado, projeto de desmonte do serviço público e alinhamento externo do outro.
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